segunda-feira, 26 de julho de 1982

CEM versus CEE

A recente visita de uma alta figura da CEE a Lisboa para entregar a notazinha das condições de entrada dos têxteis naquilo («é assim e pronto, acabou a conversa, é pegar ou largar») veio mais uma vez pôr a nu a fragilidade do entusiasmo recíproco pelo «affaire» europeu.
 
É claro que somos todos europeus. Europeus, sim, mas não tanto, pelo menos europeus daqueles.
 
A lógica mostra-nos que, se quisermos pertencer a uma comunidade, temos que ter alguma coisa em comum; ou não será? Ora, o que se está a ver é que nós temos evidentemente pouco em comum com a malta do carvão, do aço, da «choucroute» e do «bock». Carvão, aqui, é de sobro.
Aqueles países que formam a CEE são países e sociedades iminentemente instáveis, de gente temperamental, incapaz de resistir às crises — veja-se o que se passa quando o petróleo sobe de preço ou o marco desce, ou se vendem menos umas dezenas de milhar de Renaults por mês. Nós; crises é mato, nem damos por elas. Já nos habituámos há muito, são uma segunda natureza ou um modo de vida — por isso e pela capacidade de apertar o cinto e deitar um bocadinho de água a mais no caldo, temos uma magnífica e soberana resistência às crises.
Impõe-se, portanto, repensar a Comunidade Económica com a qual nos vamos ligar. Não se pode entrar assim de olhos quase fechados numa espécie de casamento de interesse, que é o que é para nós a CEE, e a gente sabe o que dão estes casamentos arranjados por casamenteiros (no fundo, as fotonovelas e a «Crónica Feminina» contêm mais sabedoria política do que o que se julga...). Também não será o caso da atitude de velho «voyeur» do general De Gaulle, quando torcia o nariz à adesão da Grã-Bretanha, e queria ver «la mariée toute nue». Nós somos gente com decoro e não confundimos economia política com «soft-porno»...
Proponho pois a Comunidade Económica Maghrebina (CEM) Portugal. Espanha, Marrocos, Canárias, República Saraui ou os outros, e Madeira. Os Açores, não; parece que esses querem mesmo a CEE. Poderia depois eventualmente considerar-se o alargamento à Argélia e ao Sul de Itália (Sicília e Abruzzi).
Em termos práticos e para resumir, definir-se-ia como a comunidade dos países em que seria possível sem recorrer a qualquer espécie de importação, comer simultaneamente laranjas e sardinha assada com pimentos e um fiozinho de azeite. Fortíssima comunidade.
 
Fosse eu ministro dos Negócios Estrangeiros e estava já a dizer ao embaixador Ernâni Lopes para fazer as malas em Bruxelas e começar a ver rendas de casa e escritórios em Rabat ou Ceuta.
Depois, se tudo corresse bem, poderia, a pouco e pouco, pensar-se num alargamento da CEM para Norte, com prudência, e impondo, — claro! — condições bastante drásticas aos países candidatos.