A recente visita de uma alta figura
da CEE a Lisboa para entregar a notazinha das condições de entrada dos têxteis
naquilo («é assim e pronto, acabou a conversa, é pegar ou largar») veio mais
uma vez pôr a nu a fragilidade do entusiasmo recíproco pelo «affaire» europeu.
É claro que somos todos europeus.
Europeus, sim, mas não tanto, pelo menos europeus daqueles.
A lógica mostra-nos que, se
quisermos pertencer a uma comunidade, temos que ter alguma coisa em comum; ou
não será? Ora, o que se está a ver é que nós temos evidentemente pouco em comum
com a malta do carvão, do aço, da «choucroute» e do «bock». Carvão, aqui, é de
sobro.
Aqueles países que formam a CEE são países e
sociedades iminentemente instáveis,
de gente temperamental, incapaz de resistir às crises — veja-se o que se passa
quando o petróleo sobe de preço ou o marco desce, ou se vendem menos umas
dezenas de milhar de Renaults por mês. Nós; crises é mato, nem damos por elas.
Já nos habituámos há muito, são uma segunda natureza ou um modo de vida — por
isso e pela capacidade de apertar o cinto e deitar um bocadinho de água a mais
no caldo, temos uma magnífica e soberana resistência às crises.
Impõe-se, portanto, repensar a
Comunidade Económica com a qual nos vamos ligar. Não se pode entrar assim de
olhos quase fechados numa espécie de casamento de interesse, que é o que é para
nós a CEE, e a gente sabe o que dão estes casamentos arranjados por
casamenteiros (no fundo, as fotonovelas e a «Crónica Feminina» contêm mais
sabedoria política do que o que se julga...). Também não será o caso da atitude
de velho «voyeur» do general De Gaulle, quando torcia o nariz à adesão da Grã-Bretanha,
e queria ver «la mariée toute nue». Nós somos gente com decoro e não confundimos
economia política com «soft-porno»...
Proponho pois a Comunidade
Económica Maghrebina (CEM) Portugal. Espanha, Marrocos, Canárias, República
Saraui ou os outros, e Madeira. Os Açores, não; parece que esses querem mesmo a
CEE. Poderia depois eventualmente considerar-se o alargamento à Argélia e ao
Sul de Itália (Sicília e Abruzzi).
Em termos práticos e para
resumir, definir-se-ia como a comunidade dos países em que seria possível sem recorrer a qualquer espécie de
importação, comer simultaneamente
laranjas e sardinha assada com pimentos e um fiozinho de azeite. Fortíssima
comunidade.
Fosse eu ministro dos Negócios
Estrangeiros e estava já a dizer ao embaixador Ernâni Lopes para fazer as malas
em Bruxelas e começar a ver rendas de casa e escritórios em Rabat ou Ceuta.
Depois, se tudo corresse bem, poderia,
a pouco e pouco, pensar-se num alargamento da CEM para Norte, com prudência, e
impondo, — claro! — condições bastante drásticas aos países candidatos.
