O crítico considerou mais uma vez
as suas notas e pensou, de novo:
— «É uma merda».
E escreveu. Porém escreveu de
maneira minimamente aceitável para publicação, assim:
— «É uma obra inferior, e de um autor pouco interessante».
— «É uma obra inferior, e de um autor pouco interessante».
Mas viu também os inconvenientes
vários que teria que enfrentar se pusesse as coisas tão cruamente, por escrito.
Chatices com o Artista. Piada dos outros críticos, simplismo primário, e
depois, lá está, a eterna dúvida: e se por acaso não fosse tão mau como isso e
eu não estivesse a topar? Riscou. Escreveu, de novo:
— «Um certo número de insuficiências
e indecisões marcam esta obra, a que, no máximo, se pode atribuir uma vaga boa
intenção positiva».
Releu e pensou: «É curto e está duro de mais, o gajo chateia-se mesmo, e além disso insuficiências e indecisões não é nada, aqui quer-se coisa mais substancial, mais cheia». Riscou.Escreveu:
Releu e pensou: «É curto e está duro de mais, o gajo chateia-se mesmo, e além disso insuficiências e indecisões não é nada, aqui quer-se coisa mais substancial, mais cheia». Riscou.Escreveu:
— «Na busca de caminhos de
expressão, que no fundo são a busca do próprio EU, transcrevendo-se no médium,
há desvios e becos sem saída em que o Artista, aventurando-se pode (ou não)
cair de modo transitório ou irremediável. Certo carácter transicional (ou até
mesmo «transaccional») legível nesta obra, pode significar a presença do
impasse latente».
Releu e pensou: «Metáfora do caminho, psicologismos de segunda, está mais do que usado, só de critico provinciano, deixa cá tentar doutra maneira, vou dar-lhe a voltinha». Riscou. Escreveu:
Releu e pensou: «Metáfora do caminho, psicologismos de segunda, está mais do que usado, só de critico provinciano, deixa cá tentar doutra maneira, vou dar-lhe a voltinha». Riscou. Escreveu:
— «Há talvez inconscientemente laivos de Hankovitch ou até de Sernes-Hagy, ou porventura mesmo de Hortson (o da primeira fase) que transparecem neste problemático momento que o A. Atravessa. A angústia contida no gesto que constrói / divide / marca / supera, aponta para uma maturação que se deixa adivinhar para lá da concretização factual e se projecta sobre uma interrogação preliminar. O prévio, o preliminar como condição, eis o Universo que o A. constrói / destrói perante nós e por aí nos reconstrói (ou nós nos reconstruímos ou re-construímos) como elementos questionadores desse mesmo Universo».
Releu e pensou: «Não está nada
mal, mas não vou citar nomes, dá ideia que se está a acusar de plágio, e por
acaso é mesmo plágio e descarado mas vá lá dizer-se... Vou dar-lhe uma voltinha
para ficar à maneira». Riscou. Escreveu:
— O A. encontra-se confrontado
com a evidência do ser-se que se assume como dado num logotema fundamental do «dar-se
/ não se dar», cujo discurso se desenvolve ao longo de um prévio dado numa
clara afirmação anoredética (a imposição do delírio / contabilidade / castigo).
Mas a questão que se põe é então, com a máxima clareza: até onde o referencial
imagético latente no discurso que se fecha sobre uma gritante dicotomia
construção / negação (ou talvez antes clausura / transgressão...) se resolve na
imediata e fundamental subversão do proposicional?»
Releu e pensou: «Está na conta; e para o que o gajinho me fez da outra vez e para o que é, está mesmo na conta. Aquilo é mesmo uma merda»
Fechou o sobrescrito e mandou-o
para o jornal.
