terça-feira, 13 de julho de 1982

A castiça mixórdia (2)

No anterior artigo ficamos a ver os cavaleiros tauromáquicos chegar num problemático coche, a uma tourada «à antiga portuguesa».
Puseram logo de fora do coche a perninha envolta uma bota justa de canhão direito com orla «tan» abaixo do joelho à inglesa.
 
Atrás dela, porém, não sai um «gentleman de riding-coat» vermelho e chapéu alto, como a bota inculcaria, mas sim uma figura exótica, com uma casaca que lembra as que se usavam no séc. XVIII, mas com um curioso pormenor — um laçarote preto, todo pimpão, preso na gola. É um resíduo esquisito, que se ficou a dever a um momento de mau gosto de Núncio, e que serve para figurar como lembrança da fita que atava a cabeleira empoada, postiça.
Um cavaleiro destes intrigaria fortemente um verdadeiro cavaleiro antigo, que não conseguiria situar «aquilo» …
Nem conseguiria obviamente entender os bichos exóticos com que por vezes se apresenta na arena!
 
Uma pessoa moderadamente atenta perceberá o anacronismo e o desconchavo de um tal figurante, em cima de uma montada de sangue inglês, como se se preparasse para correr em Epsom ou Derby. Até um hanoveriano já vi nos touros. Mas enfim. É tudo muito castiço, muito português, parece…
 
O início da arte de tourear a cavalo foi o desporto de matar touros à lança. Foi, pronto. Foi, e não é a altura de vir agora para aqui com mariquices mais ou menos sentimentais acerca dos horrores da crueldade com os bichinhos — a crueldade que importa combater hoje está noutras coisas bem mais patentes e importantes... Gradualmente a lança transformou-se no rojão, e a preparação para a morte do touro permitiu que o cavaleiro mostrasse o seu domínio sobre o cavalo e o touro, cravando farpas.
Mas por trás de tudo está e continua a imagem da serenidade, força e segurança que garante que o cavaleiro é capaz de matar a fera com uma lança ou rojão. Serenidade, lentidão e compostura fazem pois a beleza do toureio a cavalo. A equitação atinge então um dos seus mais belos modos — o da lide «à portuguesa». Pode mesmo, pela sua lentidão e subtileza, toda feita de pequenos sinais e ajudas imperceptíveis, ser tão pouco espectacular para a maralha como as chamadas provas «de ensino», que nunca juntam mais do que um pequeno magote de assistentes carolas. Mas é então sumamente belo.
Ora, Iide e equitação tendem a adulterar-se irritantemente, em tempos recentes. Em parte devida às estapafúrdias lides «camperas» de Domecqs e companhia, em parte devida ao cinema, vêem-se «coboiadas» afrontosas, com casacas esvoaçando, correrias desenfreadas, falsas «levadas» à mexicana, paragens violentas puxando pela boca da montada como qualquer vaqueiro do Far-West.
La Guériniére morreria de desgosto. Ruy de Andrade ficaria enojado. A malta da pesada aplaude, frenética; já viu aquilo, feito pelo John Wayne, e gosta.
A maneira apropriada de cravar o ferro, é citar de longe e de frente, esperar que o touro arranque, virar «inextremis» dando todas as chances ao adversário e cravar no momento da «reunião», quando as duas trajectórias se cruzam. Assiste-se agora a que o touro, parado, se vê agredido por um cavaleiro que avança ameaçadoramente para ele, faz um câmbio violento atirando o cavalo para a direita com o que parece ser um murro na cabeça da montada e depois, com um sacão na rédea de dentro, faz com que o pobre cavalo faça uma atabalhoada dança, trocando as patas e ladeando aflito para se defender, e no meio daquilo tudo dê tempo para cravar.
As adolescentes dão gritinhos, os «aficionados» de escritório, gravemente acham uma maravilha, o pagode grita, arrota e abre mais uma cerveja, as balzaqueanas excitadas acham o rapaz um amor, os turistas louros de calção disparam as Nikon, e todos estão assim felizes. A «hegemonia do toureio português a cavalo» fica assegurada. O casticismo, ei-lo; a tradição. Ei-la!
A pega é o momento mais verdadeiro e mais emocionante da festa. É também o mais puro ou menos corrompido; oxalá assim se mantenha!...
Também aqui, porém, se está a introduzir um vício desagradável: o rabejador, se tem que agarrar o touro pela sua parte menos nobre, não o faz sem uma razão, que é a de desequilibrar o animal com puxões laterais para o impedir de se firmar bem. E atirar o resto do grupo pelo ar. Largado o animal, não tem mais nada a fazer ali. Mas agora vê-se que os rabejadores acham bonito ficar pendurados no animal fazendo um simulacro de «ski» aquático mas na areia em redondo, a despropósito e sem finalidade. Chegam dar pontapés no touro vencido, parado e arfante para que ele lhes permita fazer parva gracinha. Ora, depois de ter vencido um adversário com nobreza, injuriá-lo com uma palhaçada ridícula é feio, e denota uma mentalidade de vilão. É baixo, é reles, é porco. Não deveria ver-se.
 
Nestas notas dispersas não se fez, assim, a chamada «crítica tauromáquica»: para isso há especialistas sabedores e dedicados. O que aqui fica são reflexões de um espectador que diz «o espetáculo conjunto de dois belos animais e um homem, é em si mesmo (ou pode ser...) uma coisa de grande beleza e dignidade. Não o abastardem com palhaçadas ignóbeis. Se invocarem a tradição estudem-na e sigam-na. Tenham em vista o essencial, e os significados originais. Evitem a busca desenfreada do êxito a todo o preço».