No anterior artigo ficamos a ver
os cavaleiros tauromáquicos chegar num problemático coche, a uma tourada «à
antiga portuguesa».
Puseram logo de fora do coche a perninha
envolta uma bota justa de canhão direito com orla «tan» abaixo do joelho à
inglesa.
Atrás dela, porém, não sai um «gentleman
de riding-coat» vermelho e chapéu alto, como a bota inculcaria, mas sim uma
figura exótica, com uma casaca que lembra as que se usavam no séc. XVIII, mas
com um curioso pormenor — um laçarote preto, todo pimpão, preso na gola. É um
resíduo esquisito, que se ficou a dever a um momento de mau gosto de Núncio, e
que serve para figurar como lembrança da fita que atava a cabeleira empoada,
postiça.
Um cavaleiro destes intrigaria
fortemente um verdadeiro cavaleiro antigo, que não conseguiria situar «aquilo» …
Nem conseguiria obviamente entender os bichos
exóticos com que por vezes se apresenta na arena!
Uma pessoa moderadamente atenta
perceberá o anacronismo e o desconchavo de um tal figurante, em cima de uma
montada de sangue inglês, como se se preparasse para correr em Epsom ou Derby.
Até um hanoveriano já vi nos touros. Mas enfim. É tudo muito castiço, muito
português, parece…
O início da arte de tourear a
cavalo foi o desporto de matar touros à lança. Foi, pronto. Foi, e não é a
altura de vir agora para aqui com mariquices mais ou menos sentimentais acerca
dos horrores da crueldade com os bichinhos — a crueldade que importa combater hoje
está noutras coisas bem mais patentes e importantes... Gradualmente a lança
transformou-se no rojão, e a preparação para a morte do touro permitiu que o
cavaleiro mostrasse o seu domínio sobre o cavalo e o touro, cravando farpas.
Mas por trás de tudo está e
continua a imagem da serenidade, força e segurança que garante que o cavaleiro
é capaz de matar a fera com uma lança ou rojão. Serenidade, lentidão e compostura
fazem pois a beleza do toureio a cavalo. A equitação atinge então um dos seus
mais belos modos — o da lide «à portuguesa». Pode mesmo, pela sua
lentidão e subtileza, toda feita de pequenos sinais e ajudas imperceptíveis,
ser tão pouco espectacular para a maralha como as chamadas provas «de ensino»,
que nunca juntam mais do que um pequeno magote de assistentes carolas. Mas é
então sumamente belo.
Ora, Iide e equitação tendem a
adulterar-se irritantemente, em tempos recentes. Em parte devida às estapafúrdias
lides «camperas» de Domecqs e companhia, em parte devida ao cinema, vêem-se «coboiadas»
afrontosas, com casacas esvoaçando, correrias desenfreadas, falsas «levadas» à
mexicana, paragens violentas puxando pela boca da montada como qualquer
vaqueiro do Far-West.
La Guériniére morreria de
desgosto. Ruy de Andrade ficaria enojado. A malta da pesada aplaude, frenética;
já viu aquilo, feito pelo John Wayne, e gosta.
A maneira apropriada de cravar o
ferro, é citar de longe e de frente, esperar que o touro arranque, virar «inextremis»
dando todas as chances ao adversário e cravar no momento da «reunião», quando
as duas trajectórias se cruzam. Assiste-se agora a que o touro, parado, se vê
agredido por um cavaleiro que avança ameaçadoramente para ele, faz um câmbio
violento atirando o cavalo para a direita com o que parece ser um murro na
cabeça da montada e depois, com um sacão na rédea de dentro, faz com que o
pobre cavalo faça uma atabalhoada dança, trocando as patas e ladeando aflito
para se defender, e no meio daquilo tudo dê tempo para cravar.
As adolescentes dão gritinhos, os «aficionados»
de escritório, gravemente acham uma maravilha, o pagode grita, arrota e abre
mais uma cerveja, as balzaqueanas excitadas acham o rapaz um amor, os turistas
louros de calção disparam as Nikon, e todos estão assim felizes. A «hegemonia
do toureio português a cavalo» fica assegurada. O casticismo, ei-lo; a
tradição. Ei-la!
A pega é o momento mais
verdadeiro e mais emocionante da festa. É também o mais puro ou menos
corrompido; oxalá assim se mantenha!...
Também aqui, porém, se está a
introduzir um vício desagradável: o rabejador, se tem que agarrar o touro pela
sua parte menos nobre, não o faz sem uma razão, que é a de desequilibrar o
animal com puxões laterais para o impedir de se firmar bem. E atirar o resto do
grupo pelo ar. Largado o animal, não tem
mais nada a fazer ali. Mas agora vê-se que os rabejadores acham bonito ficar
pendurados no animal fazendo um simulacro de «ski» aquático mas na areia em
redondo, a despropósito e sem finalidade. Chegam dar pontapés no touro vencido,
parado e arfante para que ele lhes permita fazer parva gracinha. Ora, depois de
ter vencido um adversário com nobreza, injuriá-lo com uma palhaçada ridícula é
feio, e denota uma mentalidade de vilão. É baixo, é reles, é porco. Não deveria
ver-se.
Nestas notas dispersas não se fez,
assim, a chamada «crítica tauromáquica»: para isso há especialistas sabedores e
dedicados. O que aqui fica são reflexões de um espectador que diz «o espetáculo
conjunto de dois belos animais e um homem, é em si mesmo (ou pode ser...) uma
coisa de grande beleza e dignidade. Não o abastardem com palhaçadas ignóbeis.
Se invocarem a tradição estudem-na e sigam-na. Tenham em vista o essencial, e
os significados originais. Evitem a busca desenfreada do êxito a todo o preço».




