segunda-feira, 12 de julho de 1982

A castiça mixórdia (1)

Começa agora a época das touradas. Pela televisão, viu-se, há pouco, mais uma vez o que é chamado por «uma tourada à antiga portuguesa», comentada em boa e devida forma com todos os termos, rodriguinhos e entoações tauromáticas; mais uma vez milhares de «aficionados» (termo espanhol!) foram convidados a vibrar com o que lhes é apresentado como antigo e português.
Como Beja Santos tem feito para outros produtos postos no mercado, denunciando o que contém de adulterado, aldrabado e enganador na maioria daquilo que se consome, apetece também aqui dar uma olhadela a esse «produto» que nos é impingido à custa de publicidade maciça. Assumir-se-á à partida que empresários, ganadeiros e toureiros são sérios, e como pessoas de bem, estão a fazer honestamente o seu negócio e a ganhar a sua vida como podem e sabem.
Do que se trata aqui não é de denunciar qualquer irregularidade comercial ou publicitária. Trata-se é de olhar para determinados aspectos do conteúdo actual do espectáculo e da festa taurina, sobretudo a dita «à antiga portuguesa».
Quanto «antiga»? Quanto «portuguesa»? Como?
O espectador é induzido a crer que assiste a uma reconstituição ou recriação de uma tourada antiga; como se fosse transportado numa máquina do tempo a um século passado, e ai assistisse, deslumbrado, à esplendorosa festa de uma dada época.
 
Não há época nenhuma

Não é «à antiga portuguesa».
Nunca houve nada daquilo, assim.
O que ele vê é um misto de «tattoo» inglês, circo e cortejo alegórico.
O edifício, para começar:
Se se pretende evocar o séc. XVIII, a praça seria sobretudo um palanque à frente de um cercado não forçosamente, e até improvavelmente, circular. O palanque (de resto, pouco usado porque as touradas, reais ou não, eram muito pouco frequentes e só se faziam quando era necessário distrair o populacho que, farto de pasmaceira e novenas se tornava irrequieto), ruía com frequência. O grande Carlos Mardel, arquitecto da Baixa Pombalina, foi encarregado de verificar e reconstruir o palanque real do Campo Pequeno que, podre e abandonado, punha em risco as reais pessoas quando se deliberou um dia fazer uma funçanata com touros, que já há muito não se realizava... Portanto, na curiosa fantasia de tijolo construída no Campo Pequeno ao virar deste século, imitação portuguesa da imitação espanhola do que seria a imitação de um alcácer mourisco, a tourada «à portuguesa» está tanto no seu ambiente como estaria a ópera de Wagner no estádio do Belenenses... Mas adiante!
 A páginas tantas entra a cavalo na arena um figurante, o «Neto», vestido à moda do séc. XVII, (isto é, século ou século e meio atrás!), correndo a levar mensagens como um dos conjurados de 1640, embuçado e misterioso — mistério tanto mais misterioso quanto uma voz moderna, tecnológica e atroadora vai explicando o que é que ele anda ali a fazer, e não é nada de sinistro: vai buscar as chaves do curro, diz que façam isto ou aquilo, e desaparece. Provavelmente vai para as bancadas, à fresca de t-shirt e coca-cola na mão ver o resto da funçanata. Faz bem, mas isso não é já connosco.
Em certa altura, cuja oportunidade não é dado entender mas se supõe essencial, entra por ali a banda da Guarda Republicana, nos cavalos brancos do Cabeço de Bola, com um ar bastante comprometido por vir mascarada com umas librés de criados de comédia de Júlio Dantas e umas perucas brancas postas de lado. E chato: a GNR não foi feita para isto; anda mais à vontade de Jipe e farda cinzenta, no Alentejo ou por aí. Repare-se na música que tocam, e nos instrumentos em que a tocam (quando viveram Sax e Boehm, dr. João de Freitas Branco?). Se Marcos Portugal fosse dado às touradas e, no seu tempo, lhe surgisse «aquilo» em praça, jogava-se do palanque para baixo e só parava em Coimbra... Mas viva a tradição e o rigor histórico!
Por qualquer razão não explicável, andam por ali uns jovens, transportando bandeiras, mas vestidos como pajens cortesãos do séc. XVI; terão entrado nesta função por engano com duzentos anos de avanço, julgando que iam receber festivamente D. Vasco da Gama tomado da índia, e afinal caíram numa coisa com touros. Há quem produza uma razão histórica rigorosa para este facto estranho: a de que estas fatiotas sobraram do cortejo histórico do centenário de Lisboa, e que sendo assim, baratas e a criar traça como estão, pode muito bem ser «à antiga portuguesa». (O que me leva a pensar no seguinte: no mesmo guarda-roupa há o suficiente para fardar meia centúria de legionários romanos. Terão os organizadores destas palhaçadas escrúpulo em dar mais um passo corajoso e incluir romanos «à antiga portuguesa»?).
Eis que entra um coche. Aparecia em tempos uma réplica dos «coches da embaixada», simplificado, dourado a purpurina, mandado fazer pelo Leitão de Barros para o cortejo histórico, e que depois serviu para as filmagens do «Bocage». Ultimamente aparece uma carruagem que em relação às fatiotas dos parceiros que de lá saem, equivale em anacronismo a fazer chegar D. Maria II à abertura das cortes num Hispano-suiza de 12 cilindros descapotável.
 
Em linha luzidia, avança depois — o quê? Toureiros espanhóis?! Ah! Então devem ser «majos» andaluzes, de cabelo metido em rede e casaco cintado, com certeza!... Não. São toureiros à moda actual, com «montera» em forma de pepino preto atravessado, jaleca curta, etc. como se fixou quatro gerações atrás.
E os moços de lavoura que avançam, fardadinhos de igual como coristas, de camisa branca colarinho Oxford e gravatinha, que têm eles a ver com o século XVIII?
Faltam os cavaleiros. Esses ficam para o artigo seguinte.