sábado, 3 de julho de 1982

S. Bento

Neste momento de revisão constitucional as atenções do País dirigem-se para o Palácio de S. Bento.
Agora, pela televisão, os portugueses têm frequentes imagens do hemiciclo, dos Passos Perdidos, do exterior (sobretudo quando há manifestações várias...). Dantes não; só quando houve grandes manifestações ao Salazar é que os jornais e o cinejornal (coisa que as novas gerações já só conhecem por ouvir dizer!) mostravam o exterior. Pudera! Lá dentro não se passava nada; não havia que chamar as atenções para as funções possíveis daquele casarão.
 
 
É um mundo, aquele edifício. Remodelado por Ventura Terra o velho convento beneditino ficou cheio de remendos e fantasmas como a Torre do Tombo, nas antigas cavalariças. Da sua pompa pesadona e das suas obras de arte um pouco incongruentes foi guardião e cultor, durante muito tempo, Joaquim Leitão (que ainda conheci, espécie de segunda via de Júlio Dantas, gordo, baixinho e solene, perambulando pelos corredores desertos, e pelas pouco utilizadas salas).
 
Ora, os edifícios têm uma certa «simbólica» associada não só à sua forma estritamente arquitectónica, como também à sua localização urbanística.
Edifícios deste carácter tem enquadramento que, só por si, dizem muito. Por exemplo, em Deli, o palácio do Vice-Rei inglês ao fundo de uma vastíssima avenida ladeada de edifícios governamentais, esmaga pela grandiosidade do enquadramento e impõe ao súbdito indígena toda a grandeza do Raj, o domínio, a autoridade, o império, a Pax Britânnica. Ou antes, impunha...
O traçado do centro de Washington, devido a L'Enfant, apresentando o Capitólio, a Casa Branca, os grandes ministérios e Agências federais uns aos outros, figura com grande largueza a proclamada limpidez dos jogos de poder e contrapoder. Já as muralhas imperiais do castelo (Kremlin) moscovita não inspiram a mesma imagem... As Houses of Parliament, reflectindo no Tamisa a sua impressionante mole neogótica, formam um centro visível senão já de um império, pelo menos de uma Commonwealth para onde podem olhar saudosamente, mas com certa dignidade.
Montecitório está ali no centro mesmo do barulho e da agitação romana; uma localização que sugere, inevitavelmente, o mexerico, a «combinazione», o pulsar da agitada participação na vida política transalpina.
Brasília, grande gesto declamatório e algo vazio, tem a escala visual apropriada à devoradora ambição brasileira.
 
E S. Bento?
A implantação de S. Bento é, felizmente, à nossa escala. Uma escadaria monumental vai dar à paragem do eléctrico (o 23 que passa por Gomes Freire); dois grandes leões de pedra olham com melancolia para o ferro-velho, a loja de mobílias e a tasca. Nas esquinas próximas, não se sente o movimento frenético dos centros governamentais, nem o perfilar de fuzileiros e guardas especiais; apenas a cálida e dolente presença de representantes (não diplomáticos) da África de língua portuguesa. Em vez de largas perspectivas imperiais, traseiras e roupa a estender.
 
Assim, os nossos legisladores, se tiverem bom-senso e souberem ler os sinais da cidade, devem perceber que têm sempre diante de si o Povo modesto e simples, que olha para a sua acção e comportamentos bem de frente, sem se deixar intimidar, distrair ou deslumbrar por qualquer tentação que lhes dê de se julgarem noutro (e acentuo noutro) qualquer pais. Seriam então tão incongruentes e ridículos como a pesadona fachada de Ventura Terra, confrontada com escárnio e ironia pelo modesto casario da encosta das Mercês.