Neste momento de revisão
constitucional as atenções do País dirigem-se para o Palácio de S. Bento.
Agora, pela televisão, os
portugueses têm frequentes imagens do hemiciclo, dos Passos Perdidos, do
exterior (sobretudo quando há manifestações várias...). Dantes não; só quando
houve grandes manifestações ao Salazar é que os jornais e o cinejornal (coisa
que as novas gerações já só conhecem por ouvir dizer!) mostravam o exterior.
Pudera! Lá dentro não se passava nada; não havia que chamar as atenções para as
funções possíveis daquele casarão.
É um mundo, aquele edifício.
Remodelado por Ventura Terra o velho convento beneditino ficou cheio de
remendos e fantasmas como a Torre do Tombo, nas antigas cavalariças. Da sua
pompa pesadona e das suas obras de arte um pouco incongruentes foi guardião e
cultor, durante muito tempo, Joaquim Leitão (que ainda conheci, espécie de
segunda via de Júlio Dantas, gordo, baixinho e solene, perambulando pelos
corredores desertos, e pelas pouco utilizadas salas).
Ora, os edifícios têm uma certa
«simbólica» associada não só à sua forma estritamente arquitectónica, como
também à sua localização urbanística.
Edifícios deste carácter tem
enquadramento que, só por si, dizem muito. Por exemplo, em Deli, o palácio do
Vice-Rei inglês ao fundo de uma vastíssima avenida ladeada de edifícios
governamentais, esmaga pela grandiosidade do enquadramento e impõe ao súbdito
indígena toda a grandeza do Raj, o domínio, a autoridade, o império, a Pax
Britânnica. Ou antes, impunha...
O traçado do centro de
Washington, devido a L'Enfant, apresentando o Capitólio, a Casa Branca, os
grandes ministérios e Agências federais uns aos outros, figura com grande largueza
a proclamada limpidez dos jogos de poder e contrapoder. Já as muralhas
imperiais do castelo (Kremlin) moscovita não inspiram a mesma imagem... As
Houses of Parliament, reflectindo no Tamisa a sua impressionante mole
neogótica, formam um centro visível senão já de um império, pelo menos de uma
Commonwealth para onde podem olhar saudosamente, mas
com certa dignidade.
Montecitório
está ali no centro mesmo do barulho e da agitação romana; uma localização que
sugere, inevitavelmente, o mexerico, a «combinazione», o pulsar da agitada
participação na vida política transalpina.
Brasília, grande gesto
declamatório e algo vazio, tem a escala visual apropriada à devoradora ambição
brasileira.
E S. Bento?
A implantação de S. Bento é,
felizmente, à nossa escala. Uma escadaria monumental vai dar à paragem do
eléctrico (o 23 que passa por Gomes Freire); dois grandes leões de pedra olham
com melancolia para o ferro-velho, a loja de mobílias e a tasca. Nas esquinas
próximas, não se sente o movimento frenético dos centros governamentais, nem o
perfilar de fuzileiros e guardas especiais; apenas a cálida e dolente presença
de representantes (não diplomáticos) da África de língua portuguesa. Em vez de
largas perspectivas imperiais, traseiras e roupa a estender.
Assim, os nossos legisladores, se
tiverem bom-senso e souberem ler os sinais da cidade, devem perceber que têm
sempre diante de si o Povo modesto e simples, que olha para a sua acção e
comportamentos bem de frente, sem se deixar intimidar, distrair ou deslumbrar
por qualquer tentação que lhes dê de se julgarem noutro (e acentuo noutro)
qualquer pais. Seriam então tão incongruentes e ridículos como a pesadona
fachada de Ventura Terra, confrontada com escárnio e ironia pelo modesto
casario da encosta das Mercês.

