sábado, 19 de junho de 1982

Governo-sombra

Com o País a passar pela experiência da chamada alternância democrática, de que esteve tanto tempo afastado, confronta-se com um termo a que não estava acostumado: «Gabinete-sombra», tradução literal de «Shadow cabinet». Diz-se também, e melhor, «Governo-sombra».
O que é um «governo-sombra»? É um governo fictício, criado no seio de cada partido da oposição, de tal modo que seja constituído por um grupo de especialistas que formem contrapartida ao governo verdadeiro em exercício. A ideia é a de que, quando chegar e se chegar a sua vez de ocupar o poder, o partido em causa esteja apto, imediatamente, a apresentar uma equipa fresquinha saída dos vestiários equipada de novo, sobraçando, em passo de ginástica e entre aplausos, os «dossiers» que conhece perfeitamente tomando logo medidas adequadas e longamente ponderadas.
O «governo-sombra» serve também para confundir o governo verdadeiro nas interpelações parlamentares, exibindo a sua sabedoria e competência aos eleitores já arrependidos de ter votado nos inúteis que lá estão — e preparar assim o seu regresso triunfal. A alternância democrática em potência, portanto.
O «governo-sombra» lembra assim um pouco os amadores de música, em casa, regendo com uma batuta a sinfoniazita gravada por Karajan ou Kiemperer, exigindo fortíssimos ou impondo smorzandos ao som que sai do gira-discos. Um bocado patético no fundo. O «governo-sombra» grita ordens urgentes à selecção nacional no jogo transmitido pela televisão a que assiste em casa, de chinelas.
É assim, com os «governos-sombra».

 
O que acontece é que já os próprios ministros dos governos verdadeiros, mal informados pelos serviços, dispondo de estatísticas insuficientes e atrasadas, pressionados pela urgência do imediato, mal sabem o que andam a fazer, quanto mais os da oposição.
Azedadas pela insuficiência de conhecimento das situações reais (porque os do governo verdadeiro fecham-se em copas...), irritadas com a indiferença e obstrução sistemática do aparelho de Estado às suas inquirições, as oposições formam então aquilo que se chama um «governo-sombrio».
Se, além de estarem na oposição a algum regime despótico, os seus elementos estão no cárcere, diz-se que formam um «governo à sombra».
Há governos de craques, especialistas da mais alta craveira, formando equipas coesas, ultra eficientes — são os «governos-assombro». Raros, no entanto.
O resultado das coligações, acordos, pactos, entendimentos e outras formas de paleio político, é a de se formarem apenas «governos-penumbra», e depois, quando mercê do jogo dos números ou da interpretação da vontade do eleitorado atingem realmente o poder, o que acontece é que da apregoada competência e eficácia, então, «nem sombra»...