Com o País a passar pela experiência
da chamada alternância democrática, de que esteve tanto tempo afastado, confronta-se
com um termo a que não estava acostumado: «Gabinete-sombra», tradução literal de
«Shadow cabinet». Diz-se também, e melhor, «Governo-sombra».
O que é um «governo-sombra»? É um
governo fictício, criado no seio de cada partido da oposição, de tal modo que
seja constituído por um grupo de especialistas que formem contrapartida ao
governo verdadeiro em exercício. A ideia é a de que, quando chegar e se chegar
a sua vez de ocupar o poder, o partido em causa esteja apto, imediatamente, a
apresentar uma equipa fresquinha saída dos vestiários equipada de novo,
sobraçando, em passo de ginástica e entre aplausos, os «dossiers» que conhece
perfeitamente tomando logo medidas adequadas e longamente ponderadas.
O «governo-sombra» serve também
para confundir o governo verdadeiro nas interpelações parlamentares, exibindo a
sua sabedoria e competência aos eleitores já arrependidos de ter votado nos
inúteis que lá estão — e preparar assim o seu regresso triunfal. A alternância
democrática em potência, portanto.
O «governo-sombra» lembra assim
um pouco os amadores de música, em casa, regendo com uma batuta a sinfoniazita
gravada por Karajan ou Kiemperer, exigindo fortíssimos ou impondo smorzandos ao
som que sai do gira-discos. Um bocado patético no fundo. O «governo-sombra»
grita ordens urgentes à selecção nacional no jogo transmitido pela televisão a
que assiste em casa, de chinelas.
O que acontece é que já os
próprios ministros dos governos verdadeiros, mal informados pelos serviços,
dispondo de estatísticas insuficientes e atrasadas, pressionados pela urgência
do imediato, mal sabem o que andam a fazer, quanto mais os da oposição.
Azedadas pela insuficiência de
conhecimento das situações reais (porque os do governo verdadeiro fecham-se em
copas...), irritadas com a indiferença e obstrução sistemática do aparelho de
Estado às suas inquirições, as oposições formam então aquilo que se chama um
«governo-sombrio».
Se, além de estarem na oposição a
algum regime despótico, os seus elementos estão no cárcere, diz-se que formam
um «governo à sombra».
Há governos de craques, especialistas da mais
alta craveira, formando equipas coesas, ultra eficientes — são os «governos-assombro».
Raros, no entanto.
O resultado das coligações,
acordos, pactos, entendimentos e outras formas de paleio político, é a de se
formarem apenas «governos-penumbra», e depois, quando mercê do jogo dos números
ou da interpretação da vontade do eleitorado atingem realmente o poder, o que
acontece é que da apregoada competência e eficácia, então, «nem sombra»...

