segunda-feira, 31 de maio de 1982

Fé e Engenharia Civil

Leitor, vá ali, ao jardim de S. Pedro de Alcântara e olhe em frente. Verá, recortando-se contra o céu, a silhueta da Igreja da Graça, igreja conventual de fachada algo insípida, barroco deslavado e desinteressante.
A fachada foi reconstruída depois do terramoto de 1755, mas o resto do convento, ou pelo menos a parte dele, que ainda se há-de encontrar por baixo das seculares e inevitáveis transformações, data de 1556.
Foi por essa altura que o Mosteiro da Graça ou dos religiosos eremitas de St.° Agostinho foi erguido, pelos cuidados de Frei Luís de Montoya, homem piedoso e exemplo vivo daquela fé que além de remover montanhas, mantém também os edifícios em pé.

Veio o sismo terrível de 1755, e no seu rescaldo oiçamos o padre J. Baptista de Castro descrever os estragos: «Deve aqui notar-se que, sendo as paredes mestras da igreja fabricadas sem alicerces, conforme a santa ideia do venerável Montoya, que nas cruzes que mandou distribuir e colocar pela última cimalha, dizia que estava toda a firmeza aquella machina, foi coisa prodigiosa que nenhuma dellas teve agora ruina, ficando firmes como dantes, excepto, a parede do frontispício, que sem embargo de ser muito mais forte, por ser feita posteriormente ao venerável padre, se arruinou.»

 
Sublinhei o que pareceu mais importante.
Não me consta que o Laboratório Nacional de Engenharia Civil homologue construções assim, só com alicerces místicos.
Os engenheiros Ferry Borges e Ruy Gomes, não os estou a ver, também confiando as suas estruturas à exaltação da Santa Cruz: prosaicos e desconfiados, calculam as reacções dos apoios e dimensionam largamente sapatas e fundações. Alguém pode afixar, cruzes, se quiser, sobre as pontes do prof. Edgar Cardoso, mas ele, espírito racionalista, acautela-se com estudos geotécnicos e sondagens prévias ao terreno dos encontros da ponte.
(Já o eng. Nuno Abecasis, homem reconhecidamente piedoso e cheio de fé, vejo eu que faz muita coisa no ar, sem fundamentos...)
 
Mas há gente que insiste em não querer aceitar certos prodígios que se obtêm pela prática da ascese e pela chama da contemplação mística. A esses, direi que se sabe agora que a parte que resistiu ao terramoto, sem que se lhe tivessem feito alicerces, estava sobre as fortíssimas fundações da muralha fernandina da cidade, que passavam por ali.