Leitor, vá ali, ao jardim de S.
Pedro de Alcântara e olhe em frente. Verá, recortando-se contra o céu, a
silhueta da Igreja da Graça, igreja conventual de fachada algo insípida,
barroco deslavado e desinteressante.
A fachada foi reconstruída depois
do terramoto de 1755, mas o resto do convento, ou pelo menos a parte dele, que
ainda se há-de encontrar por baixo das seculares e inevitáveis transformações,
data de 1556.
Foi por essa altura que o Mosteiro
da Graça ou dos religiosos eremitas de St.° Agostinho foi erguido, pelos
cuidados de Frei Luís de Montoya, homem piedoso e exemplo vivo daquela fé que
além de remover montanhas, mantém também os edifícios em pé.
Veio o sismo terrível de 1755, e
no seu rescaldo oiçamos o padre J. Baptista de Castro descrever os estragos: «Deve
aqui notar-se que, sendo as paredes
mestras da igreja fabricadas sem alicerces, conforme a santa ideia do venerável
Montoya, que nas cruzes que mandou distribuir e colocar pela última cimalha,
dizia que estava toda a firmeza aquella machina, foi coisa prodigiosa que
nenhuma dellas teve agora ruina, ficando firmes como dantes, excepto, a parede
do frontispício, que sem embargo de ser muito mais forte, por ser feita
posteriormente ao venerável padre, se arruinou.»
Sublinhei o que pareceu mais
importante.
Não me consta que o Laboratório
Nacional de Engenharia Civil homologue construções assim, só com alicerces
místicos.
Os engenheiros Ferry Borges e Ruy
Gomes, não os estou a ver, também confiando as suas estruturas à exaltação da
Santa Cruz: prosaicos e desconfiados, calculam as reacções dos apoios e
dimensionam largamente sapatas e fundações. Alguém pode afixar, cruzes, se
quiser, sobre as pontes do prof. Edgar Cardoso, mas ele, espírito racionalista,
acautela-se com estudos geotécnicos e sondagens prévias ao terreno dos encontros
da ponte.
(Já o eng. Nuno Abecasis, homem
reconhecidamente piedoso e cheio de fé, vejo eu que faz muita coisa no ar, sem
fundamentos...)
Mas há gente que insiste em não
querer aceitar certos prodígios que se obtêm pela prática da ascese e pela
chama da contemplação mística. A esses, direi que se sabe agora que a parte que
resistiu ao terramoto, sem que se lhe tivessem feito alicerces, estava sobre as
fortíssimas fundações da muralha fernandina da cidade, que passavam por ali.

