segunda-feira, 24 de maio de 1982

O Terceiro Mundo do velho senhor

Conheci Alfred Sauvy no já longínquo ano de 1949, numa reunião em La Tourette, perto de Lyon. Eu era então um estudantezeco abelhudo e inquiridor, metido (como piolho por costura, confesso-o...) num grupo de reflexão onde se juntavam figuras bem interessantes do após-guerra, e que aqui eram inteiramente ignoradas.
No sossego daquele «chateau» do Massif Central, nos intervalos do trabalho, jogava-se volley (mal), sob os olhares complacentes de Lebret, Claudius-Petit, ministro da Reconstrução e Urbanismo de então, Michel Quoist... exactamente no relvado onde Le Corbusier veio a construir o convento que todos os arquitectos conhecem.
Aí, ao ouvir as intervenções de Sauvy, tive a noção de que aquele tipo baixote, de casaco azul mal cortado, sapatos de sola de borracha encarnada, sempre arrastando uma volumosa pasta (o tipo perfeito do intelectual francês manhoso) era um fantástico destruidor de mitos, um sistemático denunciador de que o Rei, todos os Reis, iam nus...
Ao longo dos anos, acompanhei um pouco da obra de Sauvy, e verifico que, implacavelmente, mantém a maior das coragens intelectuais — a de ser um verdadeiro progressista, isto é, indiferente à moda intelectual do dia; a de confrontar permanentemente os factos com as ideias, mesmo quando os factos são amargos e as ideias sedutoras; a de manter inalterável a obrigação perante os princípios, desprezando as habilidosas acrobacias mentais dos que têm que sobreviver na luz das ribaltas da «inteligentsia».
Não é, portanto, nada popular, nem cómodo. Compreende-se que estorve muita gente — que tem o cuidado de o «ignorar».
 
Vem isto a propósito do livro que acaba de publicar: «Mondes en Marche» — livro demasiadamente progressivo para que não seja rotulado de reacionário por certos progressistas de serviço às ortodoxias... Mas não é ao conteúdo do livro que me quero aqui referir e sim a um «fait-divers» que, marginalmente, ele ali relembra: a forma curiosa e involuntária pela qual lançou uma expressão que entrou na fala corrente e intriga muita gente — o «Terceiro Mundo».
Tratava-se de uma analogia puramente literária: referindo-se numa conferência internacional aos países deserdados, aos «proletariados externos», ocorrera-lhe a imagem de subalternidade e marginalidade com que, nas cortes francesas o povo era designado — o «Tiers-état», o Terceiro Estado, depois da nobreza e do clero. Esses países formariam assim um «Tiers-Monde». Era uma metáfora ou alusão literária, mas pegou, e o seu sentido original perdeu-se. Hoje, muitas pessoas perguntarão pelo «primeiro» e pelo «Segundo» Mundos (e há até quem os designe como a Europa, a América, etc...) — não existem, são apenas vazios dentro de uma imagem literária.
E a propósito — bom seria que se traduzisse este último livro de Sauvy. Cada vez mais velho, mais careca, mais baixinho, com casaco azul mais coçado e sapatos mais cambados, o velho senhor continua a mostrar que o mundo vai cheio de Reis, obscenamente em pelota.