Conheci Alfred Sauvy no já
longínquo ano de 1949, numa reunião em La Tourette, perto de Lyon. Eu era então
um estudantezeco abelhudo e inquiridor, metido (como piolho por costura,
confesso-o...) num grupo de reflexão onde se juntavam figuras bem interessantes
do após-guerra, e que aqui eram inteiramente ignoradas.
No sossego daquele «chateau» do
Massif Central, nos intervalos do trabalho, jogava-se volley (mal), sob os
olhares complacentes de Lebret, Claudius-Petit, ministro da Reconstrução e
Urbanismo de então, Michel Quoist... exactamente no relvado onde Le Corbusier
veio a construir o convento que todos os arquitectos conhecem.
Aí, ao ouvir as intervenções de
Sauvy, tive a noção de que aquele tipo baixote, de casaco azul mal cortado,
sapatos de sola de borracha encarnada, sempre arrastando uma volumosa pasta (o
tipo perfeito do intelectual francês manhoso) era um fantástico destruidor de
mitos, um sistemático denunciador de que o Rei, todos os Reis, iam nus...
Ao longo dos anos, acompanhei um
pouco da obra de Sauvy, e verifico que, implacavelmente, mantém a maior das
coragens intelectuais — a de ser um verdadeiro progressista, isto é,
indiferente à moda intelectual do dia; a de confrontar permanentemente os factos
com as ideias, mesmo quando os factos são amargos e as ideias sedutoras; a de
manter inalterável a obrigação perante os princípios, desprezando as
habilidosas acrobacias mentais dos que têm que sobreviver na luz das ribaltas
da «inteligentsia».
Não é, portanto, nada popular,
nem cómodo. Compreende-se que estorve muita gente — que tem o cuidado de o
«ignorar».
Vem isto a propósito do livro que
acaba de publicar: «Mondes en Marche» — livro demasiadamente progressivo para
que não seja rotulado de reacionário por certos progressistas de serviço às
ortodoxias... Mas não é ao conteúdo do livro que me quero aqui referir e sim a
um «fait-divers» que, marginalmente, ele ali relembra: a forma curiosa e
involuntária pela qual lançou uma expressão que entrou na fala corrente e
intriga muita gente — o «Terceiro Mundo».
Tratava-se de uma analogia
puramente literária: referindo-se numa conferência internacional aos países
deserdados, aos «proletariados externos», ocorrera-lhe a imagem de
subalternidade e marginalidade com que, nas cortes francesas o povo era
designado — o «Tiers-état», o Terceiro Estado, depois da nobreza e do clero.
Esses países formariam assim um «Tiers-Monde». Era uma metáfora ou alusão
literária, mas pegou, e o seu sentido original perdeu-se. Hoje, muitas pessoas
perguntarão pelo «primeiro» e pelo «Segundo» Mundos (e há até quem os designe
como a Europa, a América, etc...) — não existem, são apenas vazios dentro de
uma imagem literária.
E a propósito — bom seria que se
traduzisse este último livro de Sauvy. Cada vez mais velho, mais careca, mais
baixinho, com casaco azul mais coçado e sapatos mais cambados, o velho senhor
continua a mostrar que o mundo vai cheio de Reis, obscenamente em pelota.
