segunda-feira, 17 de maio de 1982

Legislação e gramática

Observo, através da redacção de um Projecto de Lei que o Governo vai apresentar à Assembleia, que se propõe reforçar ou melhorar a proposta da ASDI tendente a proteger o cidadão das garras do Big Brother electrónico, o qual, mediante a física do estado sólido, os semicondutores e a álgebra de Boole fica a saber mais a nosso respeito que nós mesmos. A supercomadre bisbilhoteira, anónima e institucionalizada. Computadores, em suma, é do que estou a falar.
 
A AR pronunciar-se-á, e portanto eu, cidadão democrata, fico descansado. Bem; relativamente descansado, mas enfim...
 
Não me demito de acompanhar, tentar perceber e tomar posição acerca destes graves problemas (graves e cheios de tédio), mas não é este o sítio nem o meio para tal. Mas esta é uma coluna que se caracteriza por tratar os problemas mais sérios e perenes em termos do quotidiano mais rasteiro, e tratar os problemas mais rasteiros do quotidiano em termos dos mais sérios e perenes princípios — e neste caso, o que sai ferido é a pobre língua portuguesa.
É certo que eu também lhe arreio uns pontapezitos amigáveis; mas então não é que na tal proposta de decreto se propõe a criação de uma «Comissão Nacional de Salvaguarda da Privacidade face à informática!»
 
«Privacidade»?! «Face a»?! «Privacidade» traduzido ali, à unha, directamente de «Privacy», em Inglês? Certamente que a língua evolui, certamente que é necessário introduzir termos novos (olha, «informática», por exemplo...), e a gente sabe tudo isso e já está farta de ouvir isso tudo. Mas uma coisa é fazer evoluir a linguagem atinando-a e enriquecendo-a, e outra coisa é fazer evoluir a linguagem corrompendo-a. Não perceber isso é o mesmo que afirmar que falar mal é melhorar a fala, isto é, falar mal é falar bem — e ai já acho paradoxo a mais...
E depois «face a!», «face à Informática!» francamente!
«Face» quer dizer cara, tanto em português como em francês.
Portanto «cara à informática», não? (Os espanhóis tinham, e alguns ainda têm, um certo hino chamado «Cara al Sol»...) Mas «face a», em português?
Dizia-se «perante», «em presença de», «diante de». Dizia-se até, caramba, «Em Face De» (ver Camilo!) — mas «face a»?!
 
Nestes termos, estou em propor, através dos deputados pelo meu círculo, um projecto de decreto criando a CNSPGAPD isto é, a Comissão Nacional de Salvaguarda Perante Galicismos e Anglicismos Parvos e Desnecessários.
 
Se a Assembleia não a aprovar, eu cá não tenho dúvida — tomo uma atitude firme e clara: neste assunto, eu, «dorso a ela»!