Observo, através da redacção de
um Projecto de Lei que o Governo vai apresentar à Assembleia, que se propõe
reforçar ou melhorar a proposta da ASDI tendente a proteger o cidadão das
garras do Big Brother electrónico, o qual, mediante a física do estado sólido,
os semicondutores e a álgebra de Boole fica a saber mais a nosso respeito que
nós mesmos. A supercomadre bisbilhoteira, anónima e institucionalizada. Computadores,
em suma, é do que estou a falar.
A AR pronunciar-se-á, e portanto
eu, cidadão democrata, fico descansado. Bem; relativamente descansado, mas
enfim...
Não me demito de acompanhar,
tentar perceber e tomar posição acerca destes graves problemas (graves e cheios
de tédio), mas não é este o sítio nem o meio para tal. Mas esta é uma coluna
que se caracteriza por tratar os problemas mais sérios e perenes em termos do
quotidiano mais rasteiro, e tratar os problemas mais rasteiros do quotidiano em
termos dos mais sérios e perenes princípios — e neste caso, o que sai ferido é
a pobre língua portuguesa.
É certo que eu também lhe arreio
uns pontapezitos amigáveis; mas então não é que na tal proposta de decreto se
propõe a criação de uma «Comissão Nacional de Salvaguarda da Privacidade face à
informática!»
«Privacidade»?! «Face a»?!
«Privacidade» traduzido ali, à unha, directamente de «Privacy», em Inglês?
Certamente que a língua evolui, certamente que é necessário introduzir termos
novos (olha, «informática», por exemplo...), e a gente sabe tudo isso e já está
farta de ouvir isso tudo. Mas uma coisa é fazer evoluir a linguagem atinando-a
e enriquecendo-a, e outra coisa é fazer evoluir a linguagem corrompendo-a. Não
perceber isso é o mesmo que afirmar que falar mal é melhorar a fala, isto é,
falar mal é falar bem — e ai já acho paradoxo a mais...
E depois «face a!», «face à
Informática!» francamente!
«Face» quer dizer cara, tanto em
português como em francês.
Portanto «cara à informática»,
não? (Os espanhóis tinham, e alguns ainda têm, um certo hino chamado «Cara al Sol»...)
Mas «face a», em português?
Dizia-se «perante», «em presença
de», «diante de». Dizia-se até, caramba, «Em Face De» (ver Camilo!) — mas «face
a»?!
Nestes termos, estou em propor,
através dos deputados pelo meu círculo, um projecto de decreto criando a
CNSPGAPD isto é, a Comissão Nacional de Salvaguarda Perante Galicismos e
Anglicismos Parvos e Desnecessários.
Se a Assembleia não a aprovar, eu
cá não tenho dúvida — tomo uma atitude firme e clara: neste assunto, eu, «dorso
a ela»!
