terça-feira, 11 de maio de 1982

A situação de Ajax

Relendo Sófocles, bom velho grego, surge-me a curiosa figura de Ajax, (ou Aias, à grega), na primeira tragédia.
Ajax, o guerreiro fanfarrão, o imediatista, o invejoso da subtileza de Odisseus (o nosso conhecido Ulisses, proto-alfacinha ou arquelo-lisboeta) deseja acima de tudo firmar o seu nome de herói. Firma-lo não como Ulisses, verdadeiro intriguista e criador de factos políticos, mas como autor de feitos de valor militar. Chega mesmo a afirmar — segundo diz o coro — que não precisa da ajuda dos deuses, como os outros gregos, para combater os troianos.
A intelectual deusa Atena, fria e crítica como certa análise política, têm porém um fraquinho pelo finório Ulisses, e protege-o contra o seu rival Ajax. Usando das suas artes divinas, estende sobre os olhos de Ajax «um véu de imagens enganadoras».
Ajax, o furioso, na noite do acampamento em que vagueia ruminando violências, vê-se perante o grupo espesso dos seus inimigos; ferve-lhe o sangue, ardem-lhe os músculos na iminência da acção paroxistica — «Alalê!» o grito da guerra soa dentro da sua cabeça, inebriando-o; «Alalê» rolam cabeças, caem membros destroçados; Ajax, o grande, Ajax, o poderoso, não mais sairá da memória dos homens e os próprios deuses o mencionarão em voz baixa, para todo o sempre...
Mas Atena, intelectual frígida, com um sorriso perverso ( «Que melhor riso do que rir à custa dos nossos inimigos, Odisseus?»), retira-lhe o véu mágico, e Ajax, aterrado, vê-se confrontado com o resultado da sua fúria cruel — nem Arqivos, nem Troianos jazem por  terra, apenas bois e carneiros que estavam guardados num cercado como despojos de guerra, à espera de serem distribuídos pelos soldados.
 
 
No meio do sangue ainda quente da carnificina, entre patas e chifres, Ajax, guerreiro desonrado, geme; não, não geme, urra de raiva e de vergonha. Como se apresentará a Télamon, seu Pai, aos seus marinheiros de Salamina, que treinou e o seguem fielmente em tudo o que ele diz e faz; como se apresentará aos deuses e aos homens futuros um herói que atacando ferozmente os seus inimigos (ou o que julgava serem os seus inimigos, ou o que lhe mostraram ser os seus inimigos...) apenas trucidou gado indefeso e assustado, no escuro?
Enquanto os Atridas o procuraram para tentar remediar a situação e os seus fiéis de Salamina se desesperam à sua procura, sozinho numa praia deserta Ajax acabrunhado pelo destino e incapaz de sobreviver à ignominia e ao ridículo, tendo fixado na areia a sua espada de ponta acerada, mata-se lançando-se sobre ela, e a tragédia consuma-se.
 
Mas é claro que ninguém esperará, nem de modo algum poderia desejar, que o ministro Ângelo Correia se lance sobre uma espada nua e acerada, por exemplo, à noite, na praia de Carcavelos ou na Caparica.
Não há nenhuma razão para tragédia.
Basta perfeitamente que se demita.