Relendo Sófocles, bom velho
grego, surge-me a curiosa figura de Ajax, (ou Aias, à grega), na primeira
tragédia.
Ajax, o guerreiro fanfarrão, o imediatista,
o invejoso da subtileza de Odisseus (o nosso conhecido Ulisses, proto-alfacinha
ou arquelo-lisboeta) deseja acima de tudo firmar o seu nome de herói. Firma-lo
não como Ulisses, verdadeiro intriguista e criador de factos políticos, mas como
autor de feitos de valor militar. Chega mesmo a afirmar — segundo
diz o coro — que não precisa da ajuda dos deuses, como os outros gregos, para
combater os troianos.
A intelectual deusa Atena, fria e
crítica como certa análise política, têm porém um fraquinho pelo finório
Ulisses, e protege-o contra o seu rival Ajax. Usando das suas artes divinas,
estende sobre os olhos de Ajax «um véu de imagens enganadoras».
Ajax, o furioso, na noite do
acampamento em que vagueia ruminando violências, vê-se perante o grupo espesso
dos seus inimigos; ferve-lhe o sangue, ardem-lhe os músculos na iminência da
acção paroxistica — «Alalê!» o grito da guerra soa dentro da sua
cabeça, inebriando-o; «Alalê» rolam cabeças, caem membros destroçados; Ajax, o
grande, Ajax, o poderoso, não mais sairá da memória dos homens e os próprios
deuses o mencionarão em voz baixa, para todo o sempre...
Mas Atena, intelectual frígida,
com um sorriso perverso ( «Que melhor riso do que rir à custa dos nossos
inimigos, Odisseus?»), retira-lhe o véu mágico, e Ajax, aterrado, vê-se
confrontado com o resultado da sua fúria cruel — nem Arqivos, nem
Troianos jazem por terra, apenas bois e
carneiros que estavam guardados num cercado como despojos de guerra, à espera
de serem distribuídos pelos soldados.
No meio do sangue ainda quente da
carnificina, entre patas e chifres, Ajax, guerreiro desonrado, geme; não, não
geme, urra de raiva e de vergonha. Como se apresentará a Télamon, seu Pai, aos
seus marinheiros de Salamina, que treinou e o seguem fielmente em tudo o que
ele diz e faz; como se apresentará aos deuses e aos homens futuros um herói que
atacando ferozmente os seus inimigos (ou o que julgava serem os seus inimigos,
ou o que lhe mostraram ser os seus inimigos...) apenas trucidou gado indefeso e
assustado, no escuro?
Enquanto os Atridas o procuraram
para tentar remediar a situação e os seus fiéis de Salamina se desesperam à sua
procura, sozinho numa praia deserta Ajax acabrunhado pelo destino e incapaz de
sobreviver à ignominia e ao ridículo, tendo fixado na areia a sua espada de
ponta acerada, mata-se lançando-se sobre ela, e a tragédia consuma-se.
Mas é claro que ninguém esperará,
nem de modo algum poderia desejar, que o ministro Ângelo Correia se lance sobre
uma espada nua e acerada, por exemplo, à noite, na praia de Carcavelos ou na
Caparica.
Não há nenhuma razão para
tragédia.
Basta perfeitamente que se
demita.

