terça-feira, 20 de abril de 1982

Transito e sede

Sei agora finalmente como se resolve o problema da circulação em Lisboa, e penso escrever ao presidente da Câmara a explicar como é, porque ele coitado faz o melhor que pode mas precisa de mais algumas ideias brilhantes como as que tem tido para tomar Lisboa irreconhecível em três anos. Como esta, por exemplo, que ofereço gratuitamente: — «Em Lisboa, só ser permitido beber água canalizada».
Só isto, mais nada — e o trânsito em Lisboa tornava-se um sonho.
 
Ocorreu-me esta ideia ao verificar, quando sai de casa para o trabalho, no fordeco, que o trânsito estava bloqueado logo à esquina. Era a cerveja «Cervejal» descendo, com todo o ripanço, da camioneta. Mais adiante, o leite «Leital» esperava o recibo das garrafas, e paralisava, como bebida salutar e higiénica que é, toda a circulação de duas ruas visto que, com argúcia, os seus celebrantes tinham estacionado no cruzamento. Circulação que, de resto, não poderia ser muita porque logo mais adiante as águas mineromedicinais de Enxomil líticas e sulfatadas, ocupavam toda a faixa de rodagem, contando as grades e recolhendo as vazias. Nisto de contar grades quer-se rigor, paciência e sossego.
Passados estes obstáculos, acelerei a fundo para recuperar o atraso, cem metros nem tanto, logo parado, porque Alpiarça descarregava o seu precioso tintol duma camioneta, em barris. Oh! Magnífico espetáculo de vigor e alegria bem portuguesa: três mocetões tisnados pelo sol, mangas arregaçadas, exibindo a sua perícia, músculo e suor, travando a descida dos barris ao longo de dois barrotes encostados à camioneta. Como se alegraria Ramalho Ortigão com aquela esplendorosa manifestação de casticismo, toda a pujança da nossa tradição marialva e vinícola confrontando trezentos ou quatrocentos pálidos burocratas à espera durante vinte e sete minutos para se irem meter nos mal arejados escritórios e lojas da Baixa. Raça dessorada que, incapaz já de entender tudo o que fez a nobreza da nossa estirpe de pegadores de touros e de navegadores, se agarrava às buzinas dos carros. Até os condutores dos quatro autocarros, ao que isto chegou! Já a insípida e cosmopolita descarga dos refrigerantes «Sumarol», toda em plástico e funcionários de macaco branco e boné de pala, à americana, não tinha dignidade e encanto comparável, quando travou o trânsito a seguir.
 
 
Whisky, cinco minutinhos, não mais, para descarregar de um triciclo para um daqueles bares caríssimos, sem nome, numa pontinha ranhosa de prédio velho. É engraçado o que se pode fazer com um daqueles triciclos: parecem pequenos, mas postos com cuidado, consegue-se bloquear uma rua inteira. O truque é pô-los de maneira que dê a ideia de que um automóvel passa mesmo à recta, mas não passa, de facto! Para tudo se requer saber e perícia.
Vinho do Porto não encontrei hoje. Costuma ser particularmente lento e pausado. Os vintages não devem interromper nenhum transito menos de vinte minutos, ou arriscam-se a criar depósito, sobretudo os «tawny». Se o tempo estiver quente e o sol escaldar, trinta minutos pelo menos.
Em suma, estou atrasado, estou cansado, estou irritado, e isso faz-me sede. Vou ali tomar uma cervejinha e volto já. O carro fica em contravenção no meio da rua, mas é só um bocadinho, que diabo!
— E não buzine, sua besta! Está com pressa, está? Vá por outra rua, não querem lá ver o parvo! Dê a volta ou passe por cima! Há lá cada um!...»