Sei agora finalmente como se
resolve o problema da circulação em Lisboa, e penso escrever ao presidente da
Câmara a explicar como é, porque ele coitado faz o melhor que pode mas precisa
de mais algumas ideias brilhantes como as que tem tido para tomar Lisboa
irreconhecível em três anos. Como esta, por exemplo, que ofereço gratuitamente:
— «Em Lisboa, só ser permitido beber água canalizada».
Só isto, mais nada — e o trânsito
em Lisboa tornava-se um sonho.
Ocorreu-me esta ideia ao
verificar, quando sai de casa para o trabalho, no fordeco, que o trânsito
estava bloqueado logo à esquina. Era a cerveja «Cervejal» descendo, com todo o
ripanço, da camioneta. Mais adiante, o leite «Leital» esperava o recibo das
garrafas, e paralisava, como bebida salutar e higiénica que é, toda a
circulação de duas ruas visto que, com argúcia, os seus celebrantes tinham
estacionado no cruzamento. Circulação que, de resto, não poderia ser muita
porque logo mais adiante as águas mineromedicinais de Enxomil líticas e
sulfatadas, ocupavam toda a faixa de rodagem, contando as grades e recolhendo
as vazias. Nisto de contar grades quer-se rigor, paciência e sossego.
Passados estes obstáculos,
acelerei a fundo para recuperar o atraso, cem metros nem tanto, logo parado,
porque Alpiarça descarregava o seu precioso tintol duma camioneta, em barris.
Oh! Magnífico espetáculo de vigor e alegria bem portuguesa: três mocetões tisnados
pelo sol, mangas arregaçadas, exibindo a sua perícia, músculo e suor, travando
a descida dos barris ao longo de dois barrotes encostados à camioneta. Como se
alegraria Ramalho Ortigão com aquela esplendorosa manifestação de casticismo,
toda a pujança da nossa tradição marialva e vinícola confrontando trezentos ou
quatrocentos pálidos burocratas à espera durante vinte e sete minutos para se
irem meter nos mal arejados escritórios e lojas da Baixa. Raça dessorada que,
incapaz já de entender tudo o que fez a nobreza da nossa estirpe de pegadores
de touros e de navegadores, se agarrava às buzinas dos carros. Até os condutores
dos quatro autocarros, ao que isto chegou! Já a insípida e cosmopolita descarga
dos refrigerantes «Sumarol», toda em plástico e funcionários de macaco branco e
boné de pala, à americana, não tinha dignidade e encanto comparável, quando
travou o trânsito a seguir.
Whisky, cinco minutinhos, não
mais, para descarregar de um triciclo para um daqueles bares caríssimos, sem
nome, numa pontinha ranhosa de prédio velho. É engraçado o que se pode fazer
com um daqueles triciclos: parecem pequenos, mas postos com cuidado,
consegue-se bloquear uma rua inteira. O truque é pô-los de maneira que dê a
ideia de que um automóvel passa mesmo à recta, mas não passa, de facto! Para
tudo se requer saber e perícia.
Vinho do Porto não encontrei
hoje. Costuma ser particularmente lento e pausado. Os vintages não devem
interromper nenhum transito menos de vinte minutos, ou arriscam-se a criar
depósito, sobretudo os «tawny». Se o tempo estiver quente e o sol escaldar,
trinta minutos pelo menos.
Em suma, estou atrasado, estou cansado,
estou irritado, e isso faz-me sede. Vou ali tomar uma cervejinha e volto já. O
carro fica em contravenção no meio da rua, mas é só um bocadinho, que diabo!
— E não buzine, sua besta! Está
com pressa, está? Vá por outra rua, não querem lá ver o parvo! Dê a volta ou
passe por cima! Há lá cada um!...»

