segunda-feira, 19 de abril de 1982

Olivença! Agora! Para já!

Um Governo com problemas de desemprego, de dívida externa, oposição sindical forte, vocação autoritária e conservadora (estou a referir-me ao Governo argentino), provoca um princípio de guerra para desviar, daqueles problemas, as atenções da opinião interna. É clássico. Vai assim ao encontro de outro Governo a braços com problemas de desemprego, de dívida externa, oposição sindicai forte, vocação conservadora e divisões partidárias no Partido do poder {estou a referir-me ao Governo britânico), ao qual este conflito também ajuda a desviar as atenções da opinião pública polarizando-as no agressor externo.
Portanto, um Governo com problemas de desemprego, de dívida externa, oposição sindical forte, vocação conservadora, apetência autoritária e cisões na coligação de Governo, (estou a referir-me ao Governo português AD) de que é que está à espera?
 
Caramba! É agora ou nunca!
 
Recuperar Olivença! O Governo, que enfrenta problemas de desemprego, de dívida externa, oposição sindical forte e cisões no grupo do poder (estou a referir-me ao Governo espanhol UCD), agradeceria. É só questão de negociar um acordo secreto antes, à cautela.
Portanto, a esquadra que se faça ao mar: os contratorpedeiros, as fragatas, a Sagres, a vedeta Bicuda, a lancha dos oficiais do Alfeite, tudo. Requisitem-se os cacilheiros. Dê-se o comando, (obviamente! a quem mais?) ao almirante Pinheiro de Azevedo. Instaure-se a censura e o segredo militar. Suspendam-se algumas liberdades constitucionais — por uns tempos, o que for necessário, a Pátria está em perigo. Salgueiro, Salgueiro, é agora! Um imposto taludo de salvação nacional para as despesas de guerra e o que sobrar, para pagar um naco da divida...
 
 
Reivindique-se a histórica soberania portuguesa, agora ameaçada pelo expansionismo espanhol que nos tomou traiçoeiramente Olivença (já foi há uns séculozitos mas isso para o caso não interessa). Rui Guedes que componha um hino empolgante para fazer vibrar as multidões com ardor patriótico («slow»? «one-step»?). Unamo-nos todos para rechaçar o usurpador dos nossos direitos; lavemos a mancha infligida pelo estrangeiro invasor ao solo sagrado da Pátria, saindo em força pelo mar lusíada cuja salinidade se deve, como é conhecido, em grande parte às lágrimas de Portugal.
Não me diga, leitor, que Olivença fica do lado seco do País e não se pode ir lá por mar. Que novidade, isso também eu sei e sabe toda a gente.
O leitor não percebeu nada: se fôssemos armados para lá, ali para a fronteira, podia haver tiros e chatices e toda a espécie de dissabores com os espanhóis que são brutos — podia até haver alguma guerra que assim é que essas coisas às vezes começam, e o diabo fez fogo com uma tranca. Jogos de mãos, jogos de vilões sempre ouvi dizer. Ainda se aleijava alguém, e eram problemas que nunca mais acabavam.
Não. Aqui quer-se é uma guerra destas parvas, a fingir, para salvar governos.
 
Balsemão perceberá, certamente, que a guerra de Olivença convém antes das autárquicas, talvez logo que o almirante P. de A. vier das férias. Outubro não seria mau a não ser que houvesse antes cimeira da AD (1). E convinha consultar primeiro os espanhóis, claro, para ver quando é que calha bem à UCD, para não haver «gaffes».
 
(1) - O leitor não percebe porque é que a guerra de Olivença tem que ser antes da próxima cimeira da AD? Mete-se pelos olhos dentro...