Um Governo com problemas de
desemprego, de dívida externa, oposição sindical forte, vocação autoritária e
conservadora (estou a referir-me ao Governo argentino), provoca um princípio de
guerra para desviar, daqueles problemas, as atenções da opinião interna. É
clássico. Vai assim ao encontro de outro Governo a braços com problemas de
desemprego, de dívida externa, oposição sindicai forte, vocação conservadora e
divisões partidárias no Partido do poder {estou a referir-me ao Governo
britânico), ao qual este conflito também ajuda a desviar as atenções da opinião
pública polarizando-as no agressor externo.
Portanto, um Governo com
problemas de desemprego, de dívida externa, oposição sindical forte, vocação
conservadora, apetência autoritária e cisões na coligação de Governo, (estou a
referir-me ao Governo português AD) de que é que está à espera?
Caramba! É agora ou nunca!
Recuperar Olivença! O Governo, que enfrenta problemas de
desemprego, de dívida externa, oposição sindical forte e cisões no grupo do
poder (estou a referir-me ao Governo espanhol UCD), agradeceria. É só questão
de negociar um acordo secreto antes, à cautela.
Portanto, a esquadra que se faça
ao mar: os contratorpedeiros, as fragatas, a Sagres, a vedeta Bicuda, a lancha
dos oficiais do Alfeite, tudo. Requisitem-se os cacilheiros. Dê-se o comando,
(obviamente! a quem mais?) ao almirante Pinheiro de Azevedo. Instaure-se a
censura e o segredo militar. Suspendam-se algumas liberdades constitucionais — por
uns tempos, o que for necessário, a Pátria está em perigo. Salgueiro,
Salgueiro, é agora! Um imposto taludo de salvação nacional para as despesas de
guerra e o que sobrar, para pagar um naco da divida...
Reivindique-se a histórica
soberania portuguesa, agora ameaçada pelo expansionismo espanhol que nos tomou
traiçoeiramente Olivença (já foi há uns séculozitos mas isso para o caso não
interessa). Rui Guedes que componha um hino empolgante para fazer vibrar as
multidões com ardor patriótico («slow»? «one-step»?). Unamo-nos todos para
rechaçar o usurpador dos nossos direitos; lavemos a mancha infligida pelo
estrangeiro invasor ao solo sagrado da Pátria, saindo em força pelo mar lusíada
cuja salinidade se deve, como é conhecido, em grande parte às lágrimas de
Portugal.
Não me diga, leitor, que Olivença
fica do lado seco do País e não se pode ir lá por mar. Que novidade, isso também
eu sei e sabe toda a gente.
O leitor não percebeu nada: se
fôssemos armados para lá, ali para a fronteira, podia haver tiros e chatices e
toda a espécie de dissabores com os espanhóis que são brutos — podia até haver
alguma guerra que assim é que essas coisas às vezes começam, e o diabo fez fogo
com uma tranca. Jogos de mãos, jogos de vilões sempre ouvi dizer. Ainda se
aleijava alguém, e eram problemas que nunca mais acabavam.
Não. Aqui quer-se é uma guerra
destas parvas, a fingir, para salvar governos.
Balsemão perceberá, certamente,
que a guerra de Olivença convém antes das autárquicas, talvez logo que o
almirante P. de A. vier das férias. Outubro não seria mau a não ser que
houvesse antes cimeira da AD (1). E convinha consultar primeiro os espanhóis,
claro, para ver quando é que calha bem à UCD, para não haver «gaffes».
(1) - O leitor não percebe porque é que a guerra de Olivença tem que
ser antes da próxima cimeira da AD? Mete-se pelos olhos dentro...

