Fazem parte do quotidiano
alfacinha. Já entraram na poesia popular dos versos dos manjericos. Quando o
drama é por demasiado pungente, em Lisboa, «faz até chorar as pedrinhas da
calçada» que assim revelam uma sensibilidade enternecedora, sensibilidade essa
que lhes é negada pelas senhoras quando os saltos fininhos dos sapatos se
entalam entre as juntas do empedrado. Então são amaldiçoadas, e amigos, é cada
palavrão abafado pelas conveniências…
O automobilista, esse, mais
frequentemente não abafa palavrão nenhum, quando se lhe amolga uma jante ou
parte um semi-eixo nas covas da calçada. E quando estão polidas pelo uso, as
pedrinhas dos «quebra-costas» lisboetas estão na origem de espectaculares aterragens
e acrobacias dos peões.
Péssimo. Será péssimo, será mas é
lindo!
Caramba! É preciso ter uma alma
grande. As calçadas de pedrinhas poderão ter os seus inconvenientes, mas por
outro fado, quantas vantagens! Andar por esses passeios adiante, chão de sala
ao ar livre, atapetada a tapete persa, arabesco a preto e branco, texturas de
vidraça, basalto e granito com «relevés» metálicos de grelhas e algerozes de
ferro fundido, que luxo e que prazer! Os estrangeiros turistas, vindos de pisar
os imbecis e monótonos passeios de cimento cinzento escorrendo no nevoento da
triste terra lá deles, babam-se de espanto, e fotografam. «Le mosaique de
Lisbonne».
Mas por outras razões, também era
uma boa coisa, a calçadinha «à portuguesa». As juntas das pedras, que eram
batidas a maço, pancada forte e repetida, pavimento feito a músculo e suor,
deixavam infiltrar a água da chuva — a «toalha freática», então estabelecia-se
mais à superfície, e a terra ensopada aí a um ou dois metros de profundidade
era a confortável botija que ajudava a regular a temperatura de Lisboa.
Agora as extensões são muito
grandes e, compreensivelmente, ninguém quer já sujeitar-se à extrema dureza e
exigência do trabalho do maço. A calçada que se faz agora tem truque:
dispõem-se as pedrinhas numa camada de areia e cimento feita no solo, alisam-se
com o maço (batê-las compactando, tá quieto!), rega-se a coisa, o cimento faz
presa, endurece e pronto. Também, quando assenta e se parte, a calçada malandra
de agora parte-se mesmo em placas, parece uma laje… E fica impermeável. Gota de
água que lhe cai em cima vai parar ao Tejo pela directa. Plantinhas, a erva que
nascia e que era preciso arrancar e salgar, nem vê-las: a calçada moderna é
estéril e imune como convém. Tudo moderno, tudo eficiente. Penso que em breve
alguém fabricará as calçadas em rolo, para aplicação a metro. Talvez em
plástico. Talvez eu registe a ideia.
Talvez faça fortuna. Exportação.
Mercado Comum. Estados Unidos.
«Little stones of Lisbon by the yard», «Tout le charme des chaussées de Lisbonne
a la Samaritaine. Grande reduction de prix».
Vou pensar nisto.

