sexta-feira, 2 de abril de 1982

Pedrinhas da calçada

Fazem parte do quotidiano alfacinha. Já entraram na poesia popular dos versos dos manjericos. Quando o drama é por demasiado pungente, em Lisboa, «faz até chorar as pedrinhas da calçada» que assim revelam uma sensibilidade enternecedora, sensibilidade essa que lhes é negada pelas senhoras quando os saltos fininhos dos sapatos se entalam entre as juntas do empedrado. Então são amaldiçoadas, e amigos, é cada palavrão abafado pelas conveniências…
O automobilista, esse, mais frequentemente não abafa palavrão nenhum, quando se lhe amolga uma jante ou parte um semi-eixo nas covas da calçada. E quando estão polidas pelo uso, as pedrinhas dos «quebra-costas» lisboetas estão na origem de espectaculares aterragens e acrobacias dos peões.
Péssimo. Será péssimo, será mas é lindo!
Caramba! É preciso ter uma alma grande. As calçadas de pedrinhas poderão ter os seus inconvenientes, mas por outro fado, quantas vantagens! Andar por esses passeios adiante, chão de sala ao ar livre, atapetada a tapete persa, arabesco a preto e branco, texturas de vidraça, basalto e granito com «relevés» metálicos de grelhas e algerozes de ferro fundido, que luxo e que prazer! Os estrangeiros turistas, vindos de pisar os imbecis e monótonos passeios de cimento cinzento escorrendo no nevoento da triste terra lá deles, babam-se de espanto, e fotografam. «Le mosaique de Lisbonne».
Mas por outras razões, também era uma boa coisa, a calçadinha «à portuguesa». As juntas das pedras, que eram batidas a maço, pancada forte e repetida, pavimento feito a músculo e suor, deixavam infiltrar a água da chuva — a «toalha freática», então estabelecia-se mais à superfície, e a terra ensopada aí a um ou dois metros de profundidade era a confortável botija que ajudava a regular a temperatura de Lisboa.

 
Agora as extensões são muito grandes e, compreensivelmente, ninguém quer já sujeitar-se à extrema dureza e exigência do trabalho do maço. A calçada que se faz agora tem truque: dispõem-se as pedrinhas numa camada de areia e cimento feita no solo, alisam-se com o maço (batê-las compactando, tá quieto!), rega-se a coisa, o cimento faz presa, endurece e pronto. Também, quando assenta e se parte, a calçada malandra de agora parte-se mesmo em placas, parece uma laje… E fica impermeável. Gota de água que lhe cai em cima vai parar ao Tejo pela directa. Plantinhas, a erva que nascia e que era preciso arrancar e salgar, nem vê-las: a calçada moderna é estéril e imune como convém. Tudo moderno, tudo eficiente. Penso que em breve alguém fabricará as calçadas em rolo, para aplicação a metro. Talvez em plástico. Talvez eu registe a ideia.
Talvez faça fortuna. Exportação. Mercado Comum. Estados Unidos. «Little stones of Lisbon by the yard», «Tout le charme des chaussées de Lisbonne a la Samaritaine. Grande reduction de prix».
 
 Vou pensar nisto.