No principio eram um jogo ou brincadeira
em que vários senhores a cavalo, e depois em automóvel, se encontravam ou reuniam («to rally»), partindo de
diversos pontos. A qualidade a demonstrar neste jogo de «gentlemen», nos seus
automóveis de todos os dias era a de uma regularidade probatória da sua sólida regularidade de todos os dias.
O rali (é melhor dizer assim, de
facto!) é hoje uma espécie de corrida
à desfilada, pelo meio de estradas e caminhos transformados legal, mas
abusivamente, em pistas de velocidade, por frios profissionais cosmopolitas e
pelas suas esperançosas repicas domésticas, movidos ambos a interesses e publicidade.
É assim, e pronto; é assim mesmo,
e não há nada a dizer-lhe.
Há quem goste, e enquanto não
fizer vítimas a sério, é apenas um espectáculo de circo sui generis — e dentro
da evolução do chamado desporto mecânico, antes esta versão relativamente
civilizada e tecnicamente útil, que a sua detestável contrapartida degenerada
americana — o «stock-car racing». Apropriou-se até, curiosamente de duas
palavras que se usam agora exclusivamente neste meio: «competitivo» e
«selectivo» (p. ex.°: «esta máquina está competitiva», «este troço de floresta é
muito selectivo...»).
Mas não é isso que é chocante nos
ralis de hoje: o que é chocante é que sendo provas agora duríssimas, em que se
esperam e exigem resultados máximos, levados ao limite, tudo isso seja sonsamente
feito a partir de carros do dia-a-dia, mas ocultamente transformados nos
motores, nas suspensões e outros órgãos.
Repare-se: na fórmula 1, as
maravilhosas bestas mecânicas não têm um grama a mais do que o necessário, nada
existe que não tenha rigorosa função e forma para o fim último que é a vitória
na pista. Materiais, aerodinamismo, relações de volume e peso, penetração,
atritos, efeito de solo, distribuição dinâmica das forças primárias e
secundárias, «paliers» da transmissão da potência, forma das suspensões, tudo,
absolutamente tudo, dirigido àquele fim último e daí lhes vem a sua inquietante
e inegável beleza.
Mas os carros dos ralis, não. São
híbridos suspeitos. Ali vão eles, de espaçosa bagageira, cromados, banco para
passageiros atrás, estofos, desenho ao gosto do dia, puxadores, cinzeiros,
«tablier» de plástico com todas as teclazinhas e luzinhas, quatro largas portas
todo o conforto necessário para ir passear com a com a família ao domingo — e é
assim que foram antes vistos nos «stands»; gabadas as qualidades de comodidade
e economia, garantida a obediência à moda, assegurada a sua função de ajudar ao
«status» social...
Sabendo-se a quantidade de
compromissos impostos pelo «marketing» traduzidos em cedências técnicas que
entram na projetação de um automóvel de série, salta aos olhos que as
«performances» que se extraem destes carros forçados são obtidas à custa de
romper o precário equilíbrio técnico comercial que os gerou, com evidentes penalizações
e defeitos, e salta também aos olhos que qualquer fabricante ou projectista que
o quisesse, poderia produzir um veículo para estas provas perfeitamente
adequado tanto na concepção mecânica como no «design» (cá está o «design»!) — mas
não se pareceria talvez nada com essas anedotas em quatro rodas que andam nos
ralis actuais.
Desapareceria porém, ao mesmo
tempo, a sua grande vantagem comercial — a de que o sr. Silva, ao volante do
seu Toyota ou do seu Renault, com a mulher, a sogra e os meninos, deixaria de
se transpor psicologicamente para aqueles novos heróis da estrada poeirenta e
do pneu guinchando, sem saber mesmo que entre a mecânica das «bombas» dos ralis
e a do seu carrinho há já muitas diferenças.
Transformar em instrumentos de
uma corrida especial e exigente, instrumentos de todos os dias é de um ridículo
saborosíssimo — mas as regras dos ralis nisso nunca mudarão, porque são agora a
sua razão de ser comercial, e não desportiva.
Imagine-se, em paralelo, que o
sr. Lopes, que não tem automóvel, vem todos os dias de Sintra para o seu
escritório, em Lisboa. Mas, dotado de humor desportivo, resolve competir
periodicamente com outros colegas para ver quem chega primeiro ao escritório
com passagens obrigatórias por Mafra, um troço na florestal da Carregueira e
final no comboio da Amadora — e arranja equipamento adequado: no sobretudo uma
larga faixa vermelha a toda a altura, para se distinguir da maralha na estação
do Rossio; óculos duplos para ajustar às condições de luz entre o túnel e o
autocarro; bolsos extra-rápidos para permitir mostrar o passe em movimento,
gravata com furinhos de arejamento; chapéu-de-chuva aligeirado e com avisador
sonoro de posição; pasta com abertura instantânea para poupar uns segundos ao
retirar o «Diário da República», etc. Está assim equipado para correr o seu
rali — o seu modo de rali — correndo desalmadamente pela Rua do Ouro, arfando e
com a gravata especial de competição desapertada.
Se, como verdadeiro atleta de
competição, corresse numa pista de verdadeiro atletismo, assim ataviado, cairia
sob os apupos, morreria de ridículo.
Mas, em paralelo, é assim que se
apresentam os automóveis dos ralis, híbridos incongruentes e pecantes.
Pense-se nisso...
