Luxo, evidentemente, é um
conceito relativo.
O pastor da Mongólia Exterior usa
diariamente um casacão de Zibelina ou vison selvagem pelo qual muitas jovens de
Lisboa, Londres ou Paris sacrificariam (como nas anedotas pícaras) a sua
problemática virtude; usa-o para ir mudar o estrume aos camelos ou mungir a
renazita — o casacão até aos pés e o gorro de arminho para ele, não são luxo,
são abrigo.
O indígena da Nova Guiné ou das
Novas Hébridas, usa, para além da tanga e do osso atravessado no nariz, umas
penas de pássaros pelas quais as indígenas de Nova Iorque dariam sacos e sacos
de dólares.
Em compensação, para qualquer dos
referidos cavalheiros, provavelmente, um secador de cabelo com duas velocidades
ou uma panela de pressão daquelas que saem como brinde nas tômbolas das
sociedades recreativas seriam um luxo inenarrável (tenho bem presente uma
fotografia patética que me mostrou um antropólogo jovem que convive parte do
ano com tribos da mais afastada Amazónia colombiana: na cabana do chefe, um
rádio sem pilhas e com a antena partida, é objecto de veneração, sem que mesmo
o nunca o tenham ouvido fazer barulho!...)
Luxo, portanto, é sabido e está
visto, é coisa que depende de lugar e de tempo, que varia de civilização para
civilização e de sociedade para sociedade. Mas esta antropologia de três ao
vintém vem a propósito de uma súbita percepção que tive ao percorrer mais uma
vez os arredores de Lisboa. É aqui, como em todas as cidades grandes, cada vez
mais, o luxo verdadeiro não é aquele que aparece como tal: não é o Mercedes
Benz, as fatiotas do Lourenço e Santos, o cartão de entrada no Banana's e
coisas quejandas. Tudo isso está, não direi «datado», mas bastante «marcado»,
se me entendem...
O verdadeiro luxo, cada vez mais,
não estará em dispor de objectos (mais ou menos caros e raros) nem em consumir
(com mais ou menos abundância e qualidade).
O luxo é ter espaço e dispor de
tempo.
Ter o espaço que se precisa,
quando se precisa — ter o tempo que se precisa, quando ele é preciso: — supremo
luxo!
Repare-se: o náufrago, o errante
pelo deserto, têm espaço até de mais — e não precisam dele para nada, bem pelo
contrário; portanto, para eles o espaço não é luxo. Mas dispor de mais uma sala
ou de um quarto para ouvir música ou fazer qualquer coisa criativa ou alojar um
amigo ou construir uma maqueta da torre de Belém com tampas de esferográficas,
isso sim, é luxo e asiático. Ir para Cannes ou Torremolinos gastar uma fortuna
em hotéis caríssimos, vestido ou vestida à moda, para acabar pisados nas praias
por hordas de maralha à procura do mesmo luxo, não é luxo; mas andar
esfarrapado por uma praia duma ilha do indico, vazia, durante quinze dias é
luxo e de que maneira...
E o tempo... Poder usar as horas
necessárias para ler o que se quer; ir para qualquer lado ao sabor do impulso,
seguir a imaginação, o som, a figura que passa, a ideia que surge...Ignorar a
existência do ponto e do horário, conduzir vagarosamente o carro pela faixa
vazia no sentido oposto ao do engarrafamento da hora de ponta, com um vago e
sonhador sorriso...
Eis o verdadeiro luxo.
Não posso porém alongar-me porque
está na hora de ir para o «part-time», e não posso faltar porque se não, não
junto dinheiro para ir com a família para um apartamentozito que talvez arranje
no Algarve, ou então na Caparica, em Agosto. Tenho que sair, já, se não apanho
o engarrafamento em cheio.
