quarta-feira, 10 de março de 1982

O luxo

Luxo, evidentemente, é um conceito relativo.
O pastor da Mongólia Exterior usa diariamente um casacão de Zibelina ou vison selvagem pelo qual muitas jovens de Lisboa, Londres ou Paris sacrificariam (como nas anedotas pícaras) a sua problemática virtude; usa-o para ir mudar o estrume aos camelos ou mungir a renazita — o casacão até aos pés e o gorro de arminho para ele, não são luxo, são abrigo.
O indígena da Nova Guiné ou das Novas Hébridas, usa, para além da tanga e do osso atravessado no nariz, umas penas de pássaros pelas quais as indígenas de Nova Iorque dariam sacos e sacos de dólares.
Em compensação, para qualquer dos referidos cavalheiros, provavelmente, um secador de cabelo com duas velocidades ou uma panela de pressão daquelas que saem como brinde nas tômbolas das sociedades recreativas seriam um luxo inenarrável (tenho bem presente uma fotografia patética que me mostrou um antropólogo jovem que convive parte do ano com tribos da mais afastada Amazónia colombiana: na cabana do chefe, um rádio sem pilhas e com a antena partida, é objecto de veneração, sem que mesmo o nunca o tenham ouvido fazer barulho!...)
Luxo, portanto, é sabido e está visto, é coisa que depende de lugar e de tempo, que varia de civilização para civilização e de sociedade para sociedade. Mas esta antropologia de três ao vintém vem a propósito de uma súbita percepção que tive ao percorrer mais uma vez os arredores de Lisboa. É aqui, como em todas as cidades grandes, cada vez mais, o luxo verdadeiro não é aquele que aparece como tal: não é o Mercedes Benz, as fatiotas do Lourenço e Santos, o cartão de entrada no Banana's e coisas quejandas. Tudo isso está, não direi «datado», mas bastante «marcado», se me entendem...
 
O verdadeiro luxo, cada vez mais, não estará em dispor de objectos (mais ou menos caros e raros) nem em consumir (com mais ou menos abundância e qualidade).
O luxo é ter espaço e dispor de tempo.
Ter o espaço que se precisa, quando se precisa — ter o tempo que se precisa, quando ele é preciso: — supremo luxo!
Repare-se: o náufrago, o errante pelo deserto, têm espaço até de mais — e não precisam dele para nada, bem pelo contrário; portanto, para eles o espaço não é luxo. Mas dispor de mais uma sala ou de um quarto para ouvir música ou fazer qualquer coisa criativa ou alojar um amigo ou construir uma maqueta da torre de Belém com tampas de esferográficas, isso sim, é luxo e asiático. Ir para Cannes ou Torremolinos gastar uma fortuna em hotéis caríssimos, vestido ou vestida à moda, para acabar pisados nas praias por hordas de maralha à procura do mesmo luxo, não é luxo; mas andar esfarrapado por uma praia duma ilha do indico, vazia, durante quinze dias é luxo e de que maneira...
E o tempo... Poder usar as horas necessárias para ler o que se quer; ir para qualquer lado ao sabor do impulso, seguir a imaginação, o som, a figura que passa, a ideia que surge...Ignorar a existência do ponto e do horário, conduzir vagarosamente o carro pela faixa vazia no sentido oposto ao do engarrafamento da hora de ponta, com um vago e sonhador sorriso...
Eis o verdadeiro luxo.
 
Não posso porém alongar-me porque está na hora de ir para o «part-time», e não posso faltar porque se não, não junto dinheiro para ir com a família para um apartamentozito que talvez arranje no Algarve, ou então na Caparica, em Agosto. Tenho que sair, já, se não apanho o engarrafamento em cheio.