Brilha também quando a luz rasa
as fachadas de azulejo, a meio da tarde. Então a cidade torna um ar de joia e o
alfacinha rejubila e revê-se no luxo inaudito de morar dentro das joias em vez
de as trazer ao pescoço.
Falsas porem, algumas.
O azulejo nas fachadas de Lisboa,
tanto tempo afastado por uma postura de uma câmara então ignara, não parece
ter-se reencontrado ainda. Que eu saiba, o primeiro passo no sentido da sua
recuperação foi dado num prédio da R. do Salitre à esquina com a R. do Vale do
Pereiro, cujos azulejos foram então desenhados — nem mais nem menos! — Por
Almada Negreiros.
Mas depois, a seguir à praga da
marmorite cor-de-rosa e azul aos grãozinhos (que faz parecer forrados de lixa
grossa todos os prédios), veio a praga de um mosaicozito de vidro opaco
(apropriado apenas para forrar garagens e passagens de Metro).
O belo azulejo, figurado ou estampadinho,
ainda não reentrou em força — é certo que os bons ladrilhadores escasseiam, ao
passo que o tal evinal, qualquer trolha o aplica.
Mas a verdadeira influência do
azulejo na arquitectura lisboeta, não é, quanto a mim, a riqueza decorativa
exageradamente óbvia, e à flor da pele que permite: o que o azulejo conseguiu
foi, sobretudo, que a arquitectura não se tomasse demasiadamente a sério, ou
que tivesse tentações monumentalistas e retóricas descabidas numa cidade como esta.
Repare-se:
Os enormes pastelões de
confeitaria barroca de que é feita Viena são permitidos pelo uso da argamassa
trabalhada, em doses heroicas; o sinistro, tijolo escuro faz o «Kolossal» de
Hamburgo e das cidades das brumas; Roma, a dos Césares ou a de Bernini, é feita
de travertino naturalmente monumental; — mas alguma casa de Lisboa pode aspirar
á imponência augusta se estiver vestida de chita às florinhas? É crível um
palácio que se deseje dominador, forrado de miosótis, quadradinhos azuis e
estrelas amarelas?
A saudável bonomia do azulejo
lisboeta impediu Lisboa de se tornar uma daquelas cidades que
arquitectonicamente se tomam a sério, e então ficam irremediavelmente chatas e pedantes.
Mas o azulejo recuperado das
demolições também constitui um património — e de que valor! Tanto o Museu de
Arte Antiga na sua secção de azulejaria, onde Rafael Calado prossegue a obra de
Santos Simões, como os museus municipais de Lisboa têm centenas e centenas de
milhares de azulejos, quase a granel ou em toscas grades, recolhidos mas não
ordenados, numerados, tratados e estudados. Não errarei muito, creio se disser
que em conjunto, os dois acervos devem rondar os dois milhões de azulejos.
O trabalho a fazer com estes
imensos «puzzles» é executado por duas ou três pessoas qualificadas, nos Museus
da Cidade; não há mais, disponíveis, para serem treinadas nesse paciente
trabalho de ordenação e restauro, mas é trabalho que nem requere condições
físicas especiais.
Estaria aqui uma ocasião
excelente de profissionalizar neste sector um certo número de deficientes?
Conheço de perto as dificuldades
da orgânica e das finanças municipais para considerar que o problema seja fácil
de resolver. Penso, no entanto, que um encontro neste ano tão especial entre os
responsáveis pela promoção da integração de deficientes com o executivo
municipal poderia abrir algumas pistas interessantes.
