quinta-feira, 18 de fevereiro de 1982

Azulejos de Lisboa em caixotes

Brilha, Lisboa, ao fim da tarde, e de manhã.

Brilha também quando a luz rasa as fachadas de azulejo, a meio da tarde. Então a cidade torna um ar de joia e o alfacinha rejubila e revê-se no luxo inaudito de morar dentro das joias em vez de as trazer ao pescoço.
Falsas porem, algumas.
 
O azulejo nas fachadas de Lisboa, tanto tempo afastado por uma postura de uma câmara então ignara, não parece ter-se reencontrado ainda. Que eu saiba, o primeiro passo no sentido da sua recuperação foi dado num prédio da R. do Salitre à esquina com a R. do Vale do Pereiro, cujos azulejos foram então desenhados — nem mais nem menos! — Por Almada Negreiros.
Mas depois, a seguir à praga da marmorite cor-de-rosa e azul aos grãozinhos (que faz parecer forrados de lixa grossa todos os prédios), veio a praga de um mosaicozito de vidro opaco (apropriado apenas para forrar garagens e passagens de Metro).
O belo azulejo, figurado ou estampadinho, ainda não reentrou em força — é certo que os bons ladrilhadores escasseiam, ao passo que o tal evinal, qualquer trolha o aplica.
Mas a verdadeira influência do azulejo na arquitectura lisboeta, não é, quanto a mim, a riqueza decorativa exageradamente óbvia, e à flor da pele que permite: o que o azulejo conseguiu foi, sobretudo, que a arquitectura não se tomasse demasiadamente a sério, ou que tivesse tentações monumentalistas e retóricas descabidas numa cidade como esta.
Repare-se:
Os enormes pastelões de confeitaria barroca de que é feita Viena são permitidos pelo uso da argamassa trabalhada, em doses heroicas; o sinistro, tijolo escuro faz o «Kolossal» de Hamburgo e das cidades das brumas; Roma, a dos Césares ou a de Bernini, é feita de travertino naturalmente monumental; — mas alguma casa de Lisboa pode aspirar á imponência augusta se estiver vestida de chita às florinhas? É crível um palácio que se deseje dominador, forrado de miosótis, quadradinhos azuis e estrelas amarelas?
A saudável bonomia do azulejo lisboeta impediu Lisboa de se tornar uma daquelas cidades que arquitectonicamente se tomam a sério, e então ficam irremediavelmente chatas e pedantes.
 
Mas o azulejo recuperado das demolições também constitui um património — e de que valor! Tanto o Museu de Arte Antiga na sua secção de azulejaria, onde Rafael Calado prossegue a obra de Santos Simões, como os museus municipais de Lisboa têm centenas e centenas de milhares de azulejos, quase a granel ou em toscas grades, recolhidos mas não ordenados, numerados, tratados e estudados. Não errarei muito, creio se disser que em conjunto, os dois acervos devem rondar os dois milhões de azulejos.
O trabalho a fazer com estes imensos «puzzles» é executado por duas ou três pessoas qualificadas, nos Museus da Cidade; não há mais, disponíveis, para serem treinadas nesse paciente trabalho de ordenação e restauro, mas é trabalho que nem requere condições físicas especiais.
Estaria aqui uma ocasião excelente de profissionalizar neste sector um certo número de deficientes?

Conheço de perto as dificuldades da orgânica e das finanças municipais para considerar que o problema seja fácil de resolver. Penso, no entanto, que um encontro neste ano tão especial entre os responsáveis pela promoção da integração de deficientes com o executivo municipal poderia abrir algumas pistas interessantes.