Em inglês, «design».
Em português «projecto»,
«desenho», «risco», etc. e agora, aportuguesando à moda do Alto do Pina,
«desaine».
Com qualquer dos nomes que se lhe
queira pôr, o que é certamente é uma das coisas sobre as quais circulam maiores
mal-entendidos.
Um ex-director do célebre «Design
Center» de Londres, exasperado com os constantes desvios da ideia, exclamou pessimistamente,
quando renunciou ao cargo aí por voltas de 1972 ou 73: «Design é qualquer coisa
pintada de branco e com letras Helvetia», e só quem lida com estas coisas
percebe a amarga ironia. É que também cá, o design (a caminho de se tomar
apenas parranamente «desaine») é entendido como o encontrar de feitios da moda,
bonitotes, bons para vender nos centros comerciais.
Aparentemente, há até um estilo «desaine» nas
mobílias, que sucedeu ao estilo «americano» (tudo em forma de feijão com pezinhos
cónicos de sicupira), ao «rústico» (pinho ou castanho envernizado com coraçãozinho
recortado nas costas das cadeiras), ao estilo «Ras-ta-parta», ou «Almirante
Reis» (eucalipto com os cantos cortados a 45 graus e flores entalhadas em baixo
relevo, puxadores cromados), ao estilo «Ranhanha» (Rainha Ana, Queen Anne), «D.
José» propriamente dito ou «D. José» de Braga, etc., etc.
Agora, o que se usa são tudo
formas fechadas, cilíndricas, cilindros de madeira, cilindros de vidro,
cilindros niquelados, cilindros intersectando cilindros, arcos de círculo,
esferas de vidro, esferas de plexiglass, esferas de madeira - os designers
actuais redescobriram o compasso, com espanto e devoção! Tempos atrás, pelo
contrário, o compasso era tabu, e a régua, suspeita. Tudo se fazia em linhas fluidas,
orgânicas, moles, escorridas, «aerodinâmicas»; hoje, já só os japoneses,
cronicamente atrasados e imitadores em termos de design, é que o fazem:
vejam-se as grelhas e faróis e enjoliveurs dos Datsuns e Toyotas e essa coisa toda...
Para perceber-se bem a mudança de
gosto que passa por evolução do design compare-se a tão conhecida Parker 51 dos
anos 50 com as actuais canetas de tinta permanente (cilíndricas, claro,
inevitavelmente!...).
Simplesmente, design é mais do
que isso.
Mais do que feitio à moda, para
bonito; mais do que revestimento temporário de uma função.
Design é a boa adequação à
função, ao material e à técnica da produção, simultaneamente. Não se trata, por
exemplo de revestir um mesmo mecanismo com cascas ou carenagens à moda, ao
gosto do dia - simplesmente para ser diferente em termos comerciais. Adaptar o
mecanismo a novas condições de produção, de tecnologia e de economia e
encontrar as formas correspondentes, isso sim, seria Design.
Não se trata de inventar «ad
infinitum» feitios novos de mobília (por vezes imbecis e irracionais...),
têxtil, grafismo, veículo, electrodoméstico, bugigangas e «gadgets» criados,
para alimentar pela variedade a pulsão consumística - mas é isso que passa
correntemente por design, e centos e centos de jovens são levados a crer que
sim, e treinados para a versão parrana, girinha, bonitona, curtida adaptada das
revistas, balbuciando um linguajar confuso de frases visuais com origem na
Bauhaus, à mistura com os revivalismos Modern-Style e Art-Deco, sob o olhar
complacente e enternecido de professores que são porventura incapazes de lhes
ensinar o conteúdo Vitruviano do termo latino «venustas» (adequação, elegância,
qualidade).
São raras, num país com um sector
produtivo moderno incipiente e tecnologias significativas maciçamente importadas,
as oportunidades para um design industrial nos termos em que é praticado lá
fora. No sector produtivo tradicional as solicitações são muito poucas (mas
haveria tanto a fazer, se se abrissem certos olhos...).
O gosto do público é assim mal
dirigido e formado, e a juventude, com grande leviandade, é iludida.
Pobres adolescentes: estão a ser
preparados para produzir apenas, tristemente, «desaine».


