segunda-feira, 15 de fevereiro de 1982

Isso de «desaine»

Em inglês, «design».


Em português «projecto», «desenho», «risco», etc. e agora, aportuguesando à moda do Alto do Pina, «desaine».
Com qualquer dos nomes que se lhe queira pôr, o que é certamente é uma das coisas sobre as quais circulam maiores mal-entendidos.
Um ex-director do célebre «Design Center» de Londres, exasperado com os constantes desvios da ideia, exclamou pessimistamente, quando renunciou ao cargo aí por voltas de 1972 ou 73: «Design é qualquer coisa pintada de branco e com letras Helvetia», e só quem lida com estas coisas percebe a amarga ironia. É que também cá, o design (a caminho de se tomar apenas parranamente «desaine») é entendido como o encontrar de feitios da moda, bonitotes, bons para vender nos centros comerciais.
Aparentemente, há até um estilo «desaine» nas mobílias, que sucedeu ao estilo «americano» (tudo em forma de feijão com pezinhos cónicos de sicupira), ao «rústico» (pinho ou castanho envernizado com coraçãozinho recortado nas costas das cadeiras), ao estilo «Ras-ta-parta», ou «Almirante Reis» (eucalipto com os cantos cortados a 45 graus e flores entalhadas em baixo relevo, puxadores cromados), ao estilo «Ranhanha» (Rainha Ana, Queen Anne), «D. José» propriamente dito ou «D. José» de Braga, etc., etc.

 
Agora, o que se usa são tudo formas fechadas, cilíndricas, cilindros de madeira, cilindros de vidro, cilindros niquelados, cilindros intersectando cilindros, arcos de círculo, esferas de vidro, esferas de plexiglass, esferas de madeira - os designers actuais redescobriram o compasso, com espanto e devoção! Tempos atrás, pelo contrário, o compasso era tabu, e a régua, suspeita. Tudo se fazia em linhas fluidas, orgânicas, moles, escorridas, «aerodinâmicas»; hoje, já só os japoneses, cronicamente atrasados e imitadores em termos de design, é que o fazem: vejam-se as grelhas e faróis e enjoliveurs dos Datsuns e Toyotas e essa coisa toda...
 
Para perceber-se bem a mudança de gosto que passa por evolução do design compare-se a tão conhecida Parker 51 dos anos 50 com as actuais canetas de tinta permanente (cilíndricas, claro, inevitavelmente!...).
Simplesmente, design é mais do que isso.
Mais do que feitio à moda, para bonito; mais do que revestimento temporário de uma função.
Design é a boa adequação à função, ao material e à técnica da produção, simultaneamente. Não se trata, por exemplo de revestir um mesmo mecanismo com cascas ou carenagens à moda, ao gosto do dia - simplesmente para ser diferente em termos comerciais. Adaptar o mecanismo a novas condições de produção, de tecnologia e de economia e encontrar as formas correspondentes, isso sim, seria Design.
 
Não se trata de inventar «ad infinitum» feitios novos de mobília (por vezes imbecis e irracionais...), têxtil, grafismo, veículo, electrodoméstico, bugigangas e «gadgets» criados, para alimentar pela variedade a pulsão consumística - mas é isso que passa correntemente por design, e centos e centos de jovens são levados a crer que sim, e treinados para a versão parrana, girinha, bonitona, curtida adaptada das revistas, balbuciando um linguajar confuso de frases visuais com origem na Bauhaus, à mistura com os revivalismos Modern-Style e Art-Deco, sob o olhar complacente e enternecido de professores que são porventura incapazes de lhes ensinar o conteúdo Vitruviano do termo latino «venustas» (adequação, elegância, qualidade).
 
São raras, num país com um sector produtivo moderno incipiente e tecnologias significativas maciçamente importadas, as oportunidades para um design industrial nos termos em que é praticado lá fora. No sector produtivo tradicional as solicitações são muito poucas (mas haveria tanto a fazer, se se abrissem certos olhos...).
 
O gosto do público é assim mal dirigido e formado, e a juventude, com grande leviandade, é iludida.
Pobres adolescentes: estão a ser preparados para produzir apenas, tristemente, «desaine».