segunda-feira, 8 de fevereiro de 1982

Jornal é boa compra

Há proteínas caras, como o caviar e o faisão, ou mais baratas como a carne com nervo para cozer; há hidratos de carbono caros, como a pastelaria fina, e mais baratos como as carcaças de pão de segunda, etc. Podem-se compor várias dietas, umas exorbitantemente caras, outras mais acessíveis, outras de simples subsistência (estas, grande parte da população portuguesa conhece-as bem, infelizmente...), de maneira a ter a melhor alimentação possível dentro de um determinado limite de custo.
 
Ora, de modo semelhante, qual é a melhor dieta possível de informação, para um dado custo?
Há com certeza estudos sobre isso. No estrangeiro há com certeza, mas como não conheço nenhum nem, cá nem lá, e as nossas escolas de jornalismo não dão ainda resposta (nem as há ainda a sério, parece-me), posso fazer as minhas conjecturas com grande à-vontade e desinibição. Por outras palavras, a questão é: para estar em termos de entender o que se passa no Mundo, longe e perto, como é que gastarei melhor o meu dinheiro?
 
O mais económico, evidentemente, é estar atento às «bocas» nos lugares públicos e no trabalho, ou ir ao café (9$00 a bica). Mas é claro que é informação mal tratada, deformada, frequentemente avariada e inquinada com toxinas boateiras em dose excessiva. As conversas de vão de escada ou de porta de supermercado são as mais económicas de todas, mas o campo, universo ou «range» do espaço informativo raramente excede os limites do bairro, quando não do quarteirão. Dieta pobre, portanto.
 
Um noticiário da telefonia, dos vulgares do meio-dia e da noite, apesar de não parecer, tem pouco mais ou menos, tantas palavras como duas colunas deste jornal; um da televisão 1 1/2 a duas colunas, mais as imagens.
 
Ora, um rádio pileca, de bolso, com pilhas, é barato e a taxa dilui-se na conta da electricidade digamos que custa, com amortização, vamos lá! uns 3 escudos por dia; à televisão (a preto e branco que chega muito bem) vamos pôr 10 escudos por dia; e o jornal, como este, 15 escudos.
 
Uma pessoa pode, portanto, sobreviver informativamente só com notícias da telefonia — tal como pode sobreviver fisicamente só com um pacote de bolachas e um copo de água; é informação pouco dispendiosa, mas também pouco nutritiva. O jornal, além de conter mais «bits» de informação, permite reler, voltar atrás, repensar, ler nas entrelinhas, confrontar, recortar um bocado para guardar, etc., é, por assim dizer, um alimento rico, comparado com a rádio; por uma dada quantidade de informação ingerida, permite fazer mais proveito.
 
A TV, em termos de informação, anda sobrevalorizada: a imagem, a não ser que seja primorosamente utilizada, aumenta muito menos do que parece o real conteúdo da mensagem.
Por exemplo, dois segundos da imagem do encontro de dois chefes de Estado a dar uma bacalhauzada e a sorrir parvamente, é coisa que não me adianta nada acerca do verdadeiro significado do encontro, das suas razões, das suas consequências. Dá-me uma sensação (falsa) de ter assistido, de estar na jogada, de ter visto; mas para entender, tenho que ir ler no jornal…
A «Galáxia de Guttenberg» tem que ir em socorro do logro de Mac Luhan!
É certo que um aparelho de telefonia que permita captar postos estrangeiros de uma língua que se conheça, permite comprar meia informação por 7 ou 8 escudos, mas ainda não é competitiva com a do jornal — a não ser na rapidez de acesso (e mesmo assim …)
Por outro lado o jornal, depois de lido, serve para embrulhar coisas, acender o lume, pôr no chão quando se fazem pinturas, etc., e é ecologicamente biodegradável, o que não acontece com as válvulas, os transístores e essa quinquilharia toda.
E depois, ninguém vê anúncios de emprego, casa, automóveis e mobílias em segunda mão na TV. Ninguém consegue fazer palavras cruzadas na telefonia. O jornal é discretamente silencioso, não poluindo o ambiente com disco-sound, hard-rock e conversa chacha de locutor.
 
O jornal é portanto uma boa compra, relativamente. Sobretudo o «Diário de Lisboa», claro! (Além de ser verdade, convém-me estar bem visto pela Direcção…)