Há proteínas caras, como o caviar
e o faisão, ou mais baratas como a carne com nervo para cozer; há hidratos de
carbono caros, como a pastelaria fina, e mais baratos como as carcaças de pão
de segunda, etc. Podem-se compor várias dietas, umas exorbitantemente caras,
outras mais acessíveis, outras de simples subsistência (estas, grande parte da
população portuguesa conhece-as bem, infelizmente...), de maneira a ter a
melhor alimentação possível dentro de um determinado limite de custo.
Ora, de modo semelhante, qual é a
melhor dieta possível de informação, para um dado custo?
Há com certeza estudos sobre
isso. No estrangeiro há com certeza, mas como não conheço nenhum nem, cá nem
lá, e as nossas escolas de jornalismo não dão ainda resposta (nem as há ainda a
sério, parece-me), posso fazer as minhas conjecturas com grande à-vontade e
desinibição. Por outras palavras, a questão é: para estar em termos de entender
o que se passa no Mundo, longe e perto, como é que gastarei melhor o meu
dinheiro?
O mais económico, evidentemente,
é estar atento às «bocas» nos lugares públicos e no trabalho, ou ir ao café
(9$00 a bica). Mas é claro que é informação mal tratada, deformada,
frequentemente avariada e inquinada com toxinas boateiras em dose excessiva. As
conversas de vão de escada ou de porta de supermercado são as mais económicas
de todas, mas o campo, universo ou «range» do espaço informativo raramente
excede os limites do bairro, quando não do quarteirão. Dieta pobre, portanto.
Um noticiário da telefonia, dos
vulgares do meio-dia e da noite, apesar de não parecer, tem pouco mais ou menos,
tantas palavras como duas colunas deste jornal; um da televisão 1 1/2 a duas
colunas, mais as imagens.
Ora, um rádio pileca, de bolso,
com pilhas, é barato e a taxa dilui-se na conta da electricidade digamos que
custa, com amortização, vamos lá! uns 3 escudos por dia; à televisão (a preto e
branco que chega muito bem) vamos pôr 10 escudos por dia; e o jornal, como
este, 15 escudos.
Uma pessoa pode, portanto,
sobreviver informativamente só com notícias da telefonia — tal como pode
sobreviver fisicamente só com um pacote de bolachas e um copo de água; é
informação pouco dispendiosa, mas também pouco nutritiva. O jornal, além de
conter mais «bits» de informação, permite reler, voltar atrás, repensar, ler
nas entrelinhas, confrontar, recortar um bocado para guardar, etc., é, por
assim dizer, um alimento rico, comparado com a rádio; por uma dada quantidade
de informação ingerida, permite fazer mais proveito.
A TV, em termos de
informação, anda sobrevalorizada: a imagem, a não ser que seja
primorosamente utilizada, aumenta muito menos do que parece o real conteúdo da
mensagem.
Por exemplo, dois segundos da
imagem do encontro de dois chefes de Estado a dar uma bacalhauzada e a sorrir
parvamente, é coisa que não me adianta nada acerca do verdadeiro significado do
encontro, das suas razões, das suas consequências. Dá-me uma sensação (falsa)
de ter assistido, de estar na jogada, de ter visto; mas para entender, tenho
que ir ler no jornal…
A «Galáxia de Guttenberg» tem que ir em
socorro do logro de Mac Luhan!
É certo que um aparelho de
telefonia que permita captar postos estrangeiros de uma língua que se conheça,
permite comprar meia informação por 7 ou 8 escudos, mas ainda não é competitiva
com a do jornal — a não ser na rapidez de acesso (e mesmo assim …)
Por outro lado o jornal, depois
de lido, serve para embrulhar coisas, acender o lume, pôr no chão quando se
fazem pinturas, etc., e é ecologicamente biodegradável, o que não acontece com
as válvulas, os transístores e essa quinquilharia toda.
E depois, ninguém vê anúncios de
emprego, casa, automóveis e mobílias em segunda mão na TV. Ninguém consegue
fazer palavras cruzadas na telefonia. O jornal é discretamente silencioso, não
poluindo o ambiente com disco-sound, hard-rock e conversa chacha de locutor.
O jornal é portanto uma boa
compra, relativamente. Sobretudo o «Diário de Lisboa», claro! (Além de ser
verdade, convém-me estar bem visto pela Direcção…)
