quinta-feira, 11 de agosto de 1983

Uma certa universidade

Teremos todos ouvido dizer a homens que atingiram um grau de sucesso na vida, mas não beneficiaram de educação formal, e tiram até disso um justificado orgulho: «Eu cá formei-me na Escola da Vida». A essa dura escola, o ministro Almeida Santos, na posse da nova direcção da RTP, acrescentou outra, mas agora de nível superior — a TV — «a mais importante Universidade». É brilhante e significativo como metáfora; é inquietante por ser demasiadamente plausível...
 
Davam-se, desde a Idade Média, duas definições clássicas de Universidade: a «Universitas Scientianum» (o conjunto dos saberes), acentuando o conteúdo intelectual da instituição; e a «Universitas Scholanum atque Magistrorum» (o conjunto dos Discípulos e dos Mestres), acentuando o carácter comunitário da vida universitária.
Proponho então, com certo desgosto, para a mais importante universidade portuguesa a seguinte definição: «Universitas, Telespectatorium atque Frutóchocolatis, Hill Street Bluis, Daalasque». Reconheço que não é sedutor.
 
Para lá de certa jocosidade que apetece, ou de um MacLuhanismo demasiadamente fácil, este é um assunto que tem muito de preocupante. A televisão leva a toda a gente, preparada ou não, um volume de informação como em tempo algum a galáxia de Guttemberg proporcionou; porém, informação por si só não é «saber» — os factos só são factos quando são adequadamente reconstruidos no nível da consciência, e a aptidão para o fazer é até propriamente o conteúdo da acção educativa. Mas os pedagogos sabem que educar não é atafulhar o sujeito da educação com factos (e muito menos com doses maciças de factos e factoides, incriticamente, ou pior ainda, dirigidos e manipulados). Educar («E-Docere» — tirar para fora) é puxar, extrair de cada um o que de melhor tem dentro de si, para que esteja em condições de apreender o que se passa no Mundo à sua roda e actuar sobre ele. E isso é forçosamente uma acção bi-direccional: tem que haver dialéctica, interacção, resposta. Deve haver, na Escola formal, entre Mestre e aluno; na escola informal, na Grande Escola da Vida, há com certeza — é a sociedade toda que educa finalmente todos e cada um.
 
 
Dificilmente a televisão poderá ter um carácter que não seja monodireccional, ela atira com dados, imagens, palavras-ideias, sugestões mais ou menos oblíquas e dirigidas, e vão cair onde caírem, com os efeitos que tiverem. É uma fatalidade própria da sua natureza, não é uma maldade sinistra; mas arrisca-se a ter um efeito radicalmente diferente do que se entende por «educação», sem ser também o que se costuma chamar «deseducação». O perigo está talvez em que, em vez de «E-docere», passe a «In-docere», e a fazer assim uma «inducação» (o que lembra terrivelmente a letra do velho fado «A saudade é que induca e o fado é que instroi»...).
 
O novo Reitor da mais importante universidade portuguesa vai ter muito em que reflectir, e nem o cultivado pessimismo nem o ar de permanente figadeira que os que lidaram com ele e admiram conhecem tão bem, vão provavelmente encontrar grandes razões para desaparecer, ao passar da Biblioteca Nacional para a RTP…