Teremos todos ouvido dizer a homens
que atingiram um grau de sucesso na vida, mas não beneficiaram de educação
formal, e tiram até disso um justificado orgulho: «Eu cá formei-me na Escola da
Vida». A essa dura escola, o ministro Almeida Santos, na posse da nova direcção
da RTP, acrescentou outra, mas agora de nível superior — a TV — «a mais
importante Universidade». É brilhante e significativo como metáfora; é
inquietante por ser demasiadamente plausível...
Davam-se, desde a Idade Média,
duas definições clássicas de Universidade: a «Universitas Scientianum» (o
conjunto dos saberes), acentuando o conteúdo intelectual da instituição; e a
«Universitas Scholanum atque Magistrorum» (o conjunto dos Discípulos e dos
Mestres), acentuando o carácter comunitário da vida universitária.
Proponho então, com certo
desgosto, para a mais importante universidade portuguesa a seguinte definição:
«Universitas, Telespectatorium atque Frutóchocolatis, Hill Street Bluis,
Daalasque». Reconheço que não é sedutor.
Para lá de certa jocosidade que
apetece, ou de um MacLuhanismo demasiadamente fácil, este é um assunto que tem
muito de preocupante. A televisão leva a toda a gente, preparada ou não, um
volume de informação como em tempo algum a galáxia de Guttemberg proporcionou;
porém, informação por si só não é «saber» — os factos só são factos quando são
adequadamente reconstruidos no nível da consciência, e a aptidão para o fazer é
até propriamente o conteúdo da acção educativa. Mas os pedagogos sabem que
educar não é atafulhar o sujeito da educação com factos (e muito menos com
doses maciças de factos e factoides, incriticamente, ou pior ainda, dirigidos e
manipulados). Educar («E-Docere» — tirar para fora) é puxar, extrair de cada um
o que de melhor tem dentro de si, para que esteja em condições de apreender o
que se passa no Mundo à sua roda e actuar sobre ele. E isso é forçosamente uma
acção bi-direccional: tem que haver dialéctica, interacção, resposta. Deve
haver, na Escola formal, entre Mestre e aluno; na escola informal, na Grande Escola
da Vida, há com certeza — é a sociedade toda que educa finalmente todos e cada
um.
Dificilmente a televisão poderá
ter um carácter que não seja monodireccional, ela atira com dados, imagens,
palavras-ideias, sugestões mais ou menos oblíquas e dirigidas, e vão cair onde
caírem, com os efeitos que tiverem. É uma fatalidade própria da sua natureza, não
é uma maldade sinistra; mas arrisca-se a ter um efeito radicalmente diferente
do que se entende por «educação», sem ser também o que se costuma chamar «deseducação».
O perigo está talvez em que, em vez de «E-docere», passe a «In-docere», e a
fazer assim uma «inducação» (o que lembra terrivelmente a letra do velho fado
«A saudade é que induca e o fado é
que instroi»...).
O novo Reitor da mais importante
universidade portuguesa vai ter muito em que reflectir, e nem o cultivado
pessimismo nem o ar de permanente figadeira que os que lidaram com ele e admiram
conhecem tão bem, vão provavelmente encontrar grandes razões para desaparecer,
ao passar da Biblioteca Nacional para a RTP…

