segunda-feira, 22 de agosto de 1983

Ministério do Mar

TEMOS finalmente um Ministério do Mar.
O novo Ministério não terá ainda tido tempo para se dotar com alguns textos fundamentais, e julgo que seria interessante apontar-lhe alguns trechos escolhidos da «Arte da Guerra no Mar» do padre Fernando de Oliveira. Este fabuloso clérigo, foi guerreiro, humanista, professor, historiador, geógrafo, teorizador da construção naval, aventureiro e vítima da Inquisição. Pessoalmente, tenho pena de não o ter conhecido, mas viveu no princípio do séc. XVI, o que me tira qualquer chance...
Sabia da poda, o Pe. Oliveira, e escrevia com uma graça e vitalidade invejáveis.
 
Para benefício do Ministério do Mar, vou transcrever coisas dos primeiros capítulos da «Arte da Guerra no Mar», mas só dos primeiros — os restantes, ou dizem respeito a tecnologias que não são essenciais hoje, ou ensinam tantas trapaças, ardis, enganos. «celadas» (e não «ciladas» como o bom Pe. Fernando tem o cuidado de explicar, latinista que era!), manhas e poucas-vergonhas em geral, que não é bom acrescentá-las às que o funcionalismo público já conhece.
Pareceu-me bem adaptar certos sinais, abreviaturas, e grafias da época, deixando outras com o sabor próprio do texto Quinhentista.
 
Porquê então um Ministério do Mar?
«Porque o mar mui devasso, e os homens nã podem escusar de negociar per elles suas fazendas, huns mercadeando, outros pescando, e outros como lhes vem bem, e dali trazem mantimento e proveito para Terra, portanto cumpre que nelle se ponha muito recato (...)»
 
Mas convém que haja um Ministério do Mar, para simplificar e unificar decisões, estabelecer políticas coerentes, eliminar atrasos e burocracias? Sim, porque
«... comoi as cousas que estas pessoas diversas fazem todas tiram a hum fim, que é a governança do mar, muito melhor se fariam e aplicariam a seu fim por hum só entendimento unido que por muitos diversos, porque a multidam diversa confunde e dilata (atrasa), e a dilação é perigosa na guerra e no mar, o qual mar não espera nem respeita a ninguém, mas então se apressa mais quanto mais vagar tendes e vos descuidais».
 
 
E então, que vem a ser isso de Ministro do Mar? Quem deve sê-lo, e porquê? Porque…
«...he costume nos Reynos marítimos haver homens prudentes e diligentes, que tenham cuidado de prover as taracenas, e armazéns e navios, de feição que quando cumprir, estejam prestes...» (oh! Eng.º Carlos Melancia!)... «E para que o assim possam fazer sem referta de nenhuma parte, os príncipes lhe dão comprido poder e jurisdição, pa mandar e julgar nas cousas do mar, e homens que por elle tratem. A quem este carrego tinha chamavam os Gregos Architalasso, que se pode interptar psidente do mar (...)» (oh! eng.° Carlos Melancia!)
 
E os espanhóis que pescam nas nossas águas, e os que vêm deitar detritos nucleares junto aos Açores, e os submarinos ingleses que vêm fazer exercícios com bombas de profundidade na fossa de Sesimbra, etc, etc?
«Cá dentro do reyno há ladrões, que roubam as casas que temos fechadas (...) e tirão as bolsas de dentro das aljabeiras e do seio (...) e aos próprios alcaydes que os andão buscando pera os prender e não nos podem descobrir todos, andando de mestura com elles (...), quanto mais no mar que he mui devasso, e nam mostra as pegadas peronde formamos ladrões, que ali andam francos, e nam, temem nem a Deos».
 
Não é nada fácil, de facto. Mas mais difícil ainda é proteger os interesses colectivos contra certos poderosos interesses de alguns, e
«...Não pareça aspera esta admoestação e ameaça, porque sem dúvida creiam que contra os poderosos será feito poderoso e severo juízo, que não cabe em razão que os pastores trosquiern e munjão as ovelhas e as não defendam dos lobos (…)»
 
Isto, a gente sabe bem. E sabia-o bem o Pe. Oliveira: sabia (oh! se sabia...) que
« ...o abismo dos grandes negócios e muytas ministrações, chama e trás consigo outro abismo de muytas confusões.»
 
É por essas e por outras que o País espera que o nosso Architalasso, o nosso Presidente do Mar, quando confrontado com qualquer tipo que faça pressão para reconquistar privilégios ilícitos, ou obter nas coisas do mar e dos navios uma posição iníqua e contra o interesse colectivo.
«...lha não dê, por mays quêlle bufe nem torçofocinho.»