sábado, 27 de agosto de 1983

O ar que corre

Este verão não tem sido muito abafado em Lisboa. Mesmo assim, aqueles lisboetas que não podem gozar férias nas praias ou nas sombras das matas da província sentem perfeitamente como se torna opressivo e pesado o ar na cidade quando não há vento e o calor aperta.
Ora calor e calma também há fora da cidade; porque é que então no meio do casario fica o ar menos respirável? Porque é que parece haver ainda mais calor?
Estimado leitor: é porque há mesmo mais calor!...
Os incontáveis motores, caldeiras, fornos, chaminés e fogões que se concentram na cidade, associados ao efeito de conservação do calor que resulta do manto de gases e poeiras que se acumula sobre a cidade fazem com que, em termos médicos, a temperatura do ar do interior citadino esteja sempre na ordem de 4 graus centígrados acima da dos arredores.
Quatro graus! Pense e sue...

 
Há depois o efeito da reflexão das paredes e dos pavimentos que, como grandes espelhos aquecidos pelo Sol, atiram com as radiações térmicas contra o corpinho do leitor do «Diário de Lisboa» e o de todos os outros; mas, à noite, atiram-no para o espaço, bruscamente, porque as superfícies duras e impermeáveis não são boas para conservar o calorzinho. As noites ficam frias e o leitor constipa-se.
E sabe, estimado leitor, acalorado e sufocado pela fumarada, que o ar também corre pelos vales, como se fosse água? O ar carregado de gases e poeiras, pesado e sujo, escorre ao longo dos vales — é gravemente errada a prática de construir prédios altos que façam obstrução a esse escorrimento. Assim como há inundações quando uma linha de água está obstruída, há também «inundações» de ar sujo nos vales; o citadino não as vê, mas respira-as, tosse e fica pior da asma.
Mas quer ver claramente as marcas dessa inundação, num exemplo flagrante em Lisboa? Quando passar pelo largo de Sta. Bárbara olhe para a empena de um edifício que tem umas letras de anúncio a qualquer coisa chamada NCR. Vê-se bem, entre a Rua dos Anjos e a que vai dar ao Paço da Princesa. Repare como a parte de baixo da empena está escura e suja pela inundação de ar porco que desce pela Rua de Arroios e pela Joaquim Bonifácio, e como a sujidade se vai esbatendo para cima. É um dos sítios em que é mais patente este efeito de regolfo do ar sujo.
Mas procure observar outros, leitor.
 
Acostume-se a ler e a interpretar os sinais da cidade, tão bem como o rural sabe ler os do campo!...