terça-feira, 13 de setembro de 1983

Aqua alle funi

Da varanda do «atelier», que fica sobre o Arsenal, segui passo a passo a emocionante aventura da máquina pesca-Tollans dos alemães, o esforço, o partir dos cabos, a pesada queda do navio para a primeira posição. Milhares e milhares de pessoas acorreram ali também, na atitude própria do citadino sempre pronto a embasbacar-se. Sustento, de resto, que a arte de embasbacar-se deve ser cultivada — eu mesmo entendo-me como basbaque profissional e «attitré» desta cidade, sempre disponível para observar o espectáculo permanente de Lisboa. (Ai de nós quanto perdermos o gosto do espanto, da festa, da participação, da rua! Ficaremos reduzidos a euro-americanos evoluídos e passivos, consumidores solitários de distracções comerciais impingidas pelos meios de massa. Por exemplo, que há de mais divertido, dramático, movimentado, do que ver um bombeiro retirar um gato que não consiga descer de uma palmeira, se houver suficiente assistência para trocar comentários?)
Ao ver, então a multidão de basbaques congregada para a grande festa do «Tollan», tornou-se me presente com nitidez, outra, passada em Roma no séc. XVI. Os romanos são, se possível, mais basbaques que os alfacinhas, e tinham nesse dia motivo mais que suficiente para justificar que, em multidão dificilmente contida, acorressem à Praça de S. Pedro, novinha, acabada de erguer pelo Bernini.
Tratava-se, nada mais, nada menos, do dia em que ia ser erguido o grande obelisco trazido do Egipto; séculos mais tarde, outras daquelas grandes peças faraónicas vieram para a Europa, para Paris e para Londres, e conhecemo-las todas, quanto mais não seja, pela televisão. Mas aquela era a primeira, e para a tecnologia da época não era pequeno feito fincar a enorme pedra no chão, vertical.
Uma cábrea tinha sido erguida; poderosas tralhas e cadernais movidos por cabrestantes eram accionados por turmas numerosas obedecendo a vozes precisas — o que implicava cominar à multidão a obrigação de um silêncio rigoroso, militarmente vigiado.
Quando porém, ao fim da tarde o obelisco estava quase na vertical, o drama deu-se: um ligeiro erro de desenho ou de cálculo fez com que tralhas e cadernais tivessem chegado ao fim do seu curso sem que o monumento tivesse atingido a vertical perfeita. Já não chegaria lá; era o fracasso, o desespero, o fim!
 
Então, do meio da multidão murmurante saiu um grito. Sabe-se que quem gritou foi um marinheiro do porto de Ostia — não se sabe mais nada — anónimo, apenas reconhecido pelo seu tipo, perdeu-se na multidão tensa.
O grito do marinheiro foi: «Aqua alle funi!», ou seja, «Água nas cordas!». De repente, todos perceberam: grupos correram a arranjar baldes e vasilhas de toda a espécie, molharam as cordas, que encolheram, e a força daquela contracção foi suficiente para acabar de levar o obelisco ao sítio.
 
 
Era o óbvio, o óbvio genial, e ainda hoje os romanos trazem consigo a memória do marujo prático, instintivo e observador que teve a coragem de romper o silêncio para salvar o monumento (mas à cautela, safou-se...) — a alma do povo romano, mas também do povo-sempre, do povo-povo, do povo de todo o lado.
 
Como desejei ter sido também algum desarrincanço para gritar; um desarrincanço que salvasse o «dia Tollan»! Mas os grossos técnicos de Wilhelmshaven não ouviriam, felizmente, algum doido que se pusesse a gritar de uma varanda: «Aqua alle funi!»; nem os cabos de aço de 90 mm ganhariam nada em ser molhados...
 
Por isso, olha, calei-me, e fiquei a gozar a festa como os outros.