Da varanda do «atelier», que fica
sobre o Arsenal, segui passo a passo a emocionante aventura da máquina pesca-Tollans
dos alemães, o esforço, o partir dos cabos, a pesada queda do navio para a
primeira posição. Milhares e milhares de pessoas acorreram ali também, na
atitude própria do citadino sempre pronto a embasbacar-se. Sustento, de resto,
que a arte de embasbacar-se deve ser cultivada — eu mesmo entendo-me como
basbaque profissional e «attitré» desta cidade, sempre disponível para observar
o espectáculo permanente de Lisboa. (Ai de nós quanto perdermos o gosto do
espanto, da festa, da participação, da rua! Ficaremos reduzidos a
euro-americanos evoluídos e passivos, consumidores solitários de distracções
comerciais impingidas pelos meios de massa. Por exemplo, que há de mais
divertido, dramático, movimentado, do que ver um bombeiro retirar um gato que
não consiga descer de uma palmeira, se houver suficiente assistência para
trocar comentários?)
Ao ver, então a multidão de basbaques
congregada para a grande festa do «Tollan», tornou-se me presente com nitidez,
outra, passada em Roma no séc. XVI. Os romanos são, se possível, mais basbaques
que os alfacinhas, e tinham nesse dia motivo mais que suficiente para
justificar que, em multidão dificilmente contida, acorressem à Praça de S.
Pedro, novinha, acabada de erguer pelo Bernini.
Tratava-se, nada mais, nada
menos, do dia em que ia ser erguido o grande obelisco trazido do Egipto;
séculos mais tarde, outras daquelas grandes peças faraónicas vieram para a
Europa, para Paris e para Londres, e conhecemo-las todas, quanto mais não seja,
pela televisão. Mas aquela era a primeira, e para a tecnologia da época não era
pequeno feito fincar a enorme pedra no chão, vertical.
Uma cábrea tinha sido erguida;
poderosas tralhas e cadernais movidos por cabrestantes eram accionados por turmas
numerosas obedecendo a vozes precisas — o que implicava cominar à multidão a
obrigação de um silêncio rigoroso, militarmente vigiado.
Quando porém, ao fim da tarde o
obelisco estava quase na vertical, o drama deu-se: um ligeiro erro de desenho
ou de cálculo fez com que tralhas e cadernais tivessem chegado ao fim do seu curso
sem que o monumento tivesse atingido a vertical perfeita. Já não chegaria lá;
era o fracasso, o desespero, o fim!
Então, do meio da multidão murmurante
saiu um grito. Sabe-se que quem gritou foi um marinheiro do porto de Ostia — não se
sabe mais nada — anónimo, apenas reconhecido pelo seu tipo, perdeu-se na multidão
tensa.
O grito do marinheiro foi: «Aqua
alle funi!», ou seja, «Água nas cordas!». De repente, todos perceberam: grupos
correram a arranjar baldes e vasilhas de toda a espécie, molharam as cordas,
que encolheram, e a força daquela contracção foi suficiente para acabar de
levar o obelisco ao sítio.
Era o óbvio, o óbvio genial, e
ainda hoje os romanos trazem consigo a memória do marujo prático, instintivo e
observador que teve a coragem de romper o silêncio para salvar o monumento (mas
à cautela, safou-se...) — a alma do povo romano, mas também do povo-sempre, do
povo-povo, do povo de todo o lado.
Como desejei ter sido também
algum desarrincanço para gritar; um desarrincanço que salvasse o «dia Tollan»!
Mas os grossos técnicos de Wilhelmshaven não ouviriam, felizmente, algum doido
que se pusesse a gritar de uma varanda: «Aqua alle funi!»; nem os cabos de aço
de 90 mm ganhariam nada em ser molhados...
Por isso, olha, calei-me, e
fiquei a gozar a festa como os outros.

