Estão na moda os Ministérios da
Qualidade de Vida, por essa Europa acima. Nós, portanto, também temos o nosso,
se bem que ninguém me tira da cabeça que foi criado pela AD (lembram-se da AD?)
para justificar o PPM no Governo (lembram-se do PPM?) e ocupar o Ribeiro Telles.
Mas sempre achei estranha e
incómoda aquela designação, com um termo qualificativo desnecessário, ambíguo e
fraco. Soa-me a qualquer coisa como se os Ministérios correntes passassem a ter
nomes mais suaves, difusos e equívocos, assim, por exemplo: Ministério para um
Desejável Fim da Crise Financeira; Ministério da Própria Ideia de Defesa;
Ministério da Eficácia e Modernização da Indústria e Tecnologia; Ministério da
Justiça Isenta para Todos…
Ora o Governo, qualquer Governo,
até a própria ideia de governo, bom ou mau, resume-se a tratar da nossa vida — da
colectiva em primeiro lugar, e depois, logicamente, das suas incidências sobre
a vida privada.
Um Ministério da Qualidade de
Vida é, portanto, coisa tão absurda em princípios como um Ministério da
Liberdade num Estado Livre. Assim, com este nome, tem um péssimo aspecto de
tapa-buracos, ou Agência de relações públicas sobre a acção do resto dos repetivos
governos quando essa acção tira toda a qualidade às nossas vidas.
O resultado de tudo isto é o de o
público em geral não compreender o verdadeiro significado da Qualidade de Vida
pugnada pelos adequados ministérios desse título, e faz falta adaptações
jocosas: ao tipo que está a almoçar no restaurante e manda vir depois um
Courvoisier e um charuto, ou ao que aparece conduzindo um Porsche dos novos
diz-se «Ena! isso é que é qualidade de vida!» O Ministério da Qualidade de Vida
fica assim iniludivelmente ligado à imagem de um Ministério de Certas Coisas
Boas da Vida, na mentalidade popular... Não sei se será esta a imagem de si que
aquele departamento estatal deseja projectar...
Lembro-me de uma anedota
desenhada, num número já antigo do «Punch»: — junto de uma carrinha do DOE
(Departamento do Ambiente, em Inglaterra) dois funcionários inspeccionam
gravemente um regato. Levados pelo regato vêm-se quadros de mestre, garrafas de
champanhe, candelabros de prata, móveis de estilo. Um funcionário diz para o
outro — «Sim, é poluição; mas é poluição de muito boa qualidade!»
Penso que para obviar esta visão
elitista e snob conviria tornar diferente a designação do Ministério. Uma
hipótese seria a de chamar-lhe simplesmente Ministério da Vida, mas isso
evocaria um paralelo com a expressão "mulher da vida", cujo
significado não pode aproximar-se da dignidade requerida para uma instância governativa.
O que importaria entre nós, isso
sim, era um Ministério da Quantidade de Vida.
Num País, pobre como o nosso, que
o problema diário de largos estratos da população, é o de sobreviver, em que
essa mesma população está envelhecida, em que se põem com agudeza os problemas
de nível alimentar, de emigração e retorno — uma política biológica explícita
está por fazer (as políticas implícitas e oblíquas, cínicas ou obscuras são,
por isso mesmo, mais perniciosas e injustas), e um tal Ministério talvez não
viesse a despropósito.

