quarta-feira, 21 de setembro de 1983

Ministério da qualidade de vida

Estão na moda os Ministérios da Qualidade de Vida, por essa Europa acima. Nós, portanto, também temos o nosso, se bem que ninguém me tira da cabeça que foi criado pela AD (lembram-se da AD?) para justificar o PPM no Governo (lembram-se do PPM?) e ocupar o Ribeiro Telles.
Mas sempre achei estranha e incómoda aquela designação, com um termo qualificativo desnecessário, ambíguo e fraco. Soa-me a qualquer coisa como se os Ministérios correntes passassem a ter nomes mais suaves, difusos e equívocos, assim, por exemplo: Ministério para um Desejável Fim da Crise Financeira; Ministério da Própria Ideia de Defesa; Ministério da Eficácia e Modernização da Indústria e Tecnologia; Ministério da Justiça Isenta para Todos…
Ora o Governo, qualquer Governo, até a própria ideia de governo, bom ou mau, resume-se a tratar da nossa vida — da colectiva em primeiro lugar, e depois, logicamente, das suas incidências sobre a vida privada.
Um Ministério da Qualidade de Vida é, portanto, coisa tão absurda em princípios como um Ministério da Liberdade num Estado Livre. Assim, com este nome, tem um péssimo aspecto de tapa-buracos, ou Agência de relações públicas sobre a acção do resto dos repetivos governos quando essa acção tira toda a qualidade às nossas vidas.
O resultado de tudo isto é o de o público em geral não compreender o verdadeiro significado da Qualidade de Vida pugnada pelos adequados ministérios desse título, e faz falta adaptações jocosas: ao tipo que está a almoçar no restaurante e manda vir depois um Courvoisier e um charuto, ou ao que aparece conduzindo um Porsche dos novos diz-se «Ena! isso é que é qualidade de vida!» O Ministério da Qualidade de Vida fica assim iniludivelmente ligado à imagem de um Ministério de Certas Coisas Boas da Vida, na mentalidade popular... Não sei se será esta a imagem de si que aquele departamento estatal deseja projectar...
Lembro-me de uma anedota desenhada, num número já antigo do «Punch»: — junto de uma carrinha do DOE (Departamento do Ambiente, em Inglaterra) dois funcionários inspeccionam gravemente um regato. Levados pelo regato vêm-se quadros de mestre, garrafas de champanhe, candelabros de prata, móveis de estilo. Um funcionário diz para o outro — «Sim, é poluição; mas é poluição de muito boa qualidade!»
 
Penso que para obviar esta visão elitista e snob conviria tornar diferente a designação do Ministério. Uma hipótese seria a de chamar-lhe simplesmente Ministério da Vida, mas isso evocaria um paralelo com a expressão "mulher da vida", cujo significado não pode aproximar-se da dignidade requerida para uma instância governativa.
O que importaria entre nós, isso sim, era um Ministério da Quantidade de Vida.
 
Num País, pobre como o nosso, que o problema diário de largos estratos da população, é o de sobreviver, em que essa mesma população está envelhecida, em que se põem com agudeza os problemas de nível alimentar, de emigração e retorno — uma política biológica explícita está por fazer (as políticas implícitas e oblíquas, cínicas ou obscuras são, por isso mesmo, mais perniciosas e injustas), e um tal Ministério talvez não viesse a despropósito.