domingo, 26 de junho de 1983

Importância dos Monárquicos

O País não seguiu emocionado o VIII Congresso do PPM.
Não deu quase por ele, por causa dos Santos populares e do governo que não havia maneira de se formar.
Parece que há ali três correntes ou tendências principais: uma, ecologista e comunitarista, interessante e com algum conteúdo (só que ninguém percebe porque é que insiste em se dizer monárquica...) onde se evidenciam os meus estimados Ribeiro Telles e Luís Coimbra; outra, que parece acreditar mesmo na possibilidade de estar aí um rei qualquer dia destes, e faz pragmaticamente por isso no meio da politiquice concreta; e uma terceira, que vejo figurada por exemplo em João Camossa, que transporta consigo o sonho, a miragem e a esperança do milagre.
É esta última corrente, ou tendência (tal como as imagine, simplistamente) a que é importante enquanto monárquica — porque a primeira não o é no fundo senão como rótulo, e a segunda é parva e desinteressante, apenas.
 
 
É que a todos os países e a todas as sociedades faz falta um vasto leque de causas mais ou menos perdidas, mais ou menos incómodas, mais ou menos limitadas. Visionários, caturras, idealistas «de tout poil» fazem parte de uma sociedade bem constituída. É a lei dos contrastes: para se ter a noção de estar com saúde é preciso ter presente a ameaça da doença; para se apreciar o conforto é preciso a experiência e a possibilidade concreta do incómodo; para ter a satisfação da ordem, é precisa ter a consciência de como está sempre próxima a desordem latente etc. etc.
É assim necessário que haja esperantistas, abolicionistas, radioamadores, aeromodelistas — e monárquicos. Bombeiros voluntários, cosmólogos, pré-galileanos, numerologistas, actores de teatro experimental, iberistas, arqueólogos navais, sei lá! O que sei é que o seu valor último não está tanto na sua utilidade prática (pobre critério, em qualquer caso…), nem na maior ou menor simpatia, número e influência da que disponham, mas sim no próprio facto saudável de existirem.
 
Portanto, ver João Camossa, de barba hirsuta, dente amarelo e olhinho brilhante por essas ruas, sempre pronto a difundir em frases profundas e mordazes o evangelho dinástico, dá uma tranquilidade e segurança inauditas —dá a noção de que o País está completo, tem os seus sonhadores e visionários, agora que os republicanos perderam colorido e imagem de marca — estão cinzentos, quase todos, e desinteressantes, porque República, já há.
Assim para que se sinta bem que se está em República e não se esqueça tal, seria bom que houvesse monárquicos em quantidade razoável. Ora parece que militantes do PPM são só 4100, e fracotes; e sem a AD, agora, quase se não se vai dar por eles.
Quanto a mim, aí uns 10.000 monárquicos militantes seriam uma quantidade conveniente para assegurar a vitalidade e permanência da República, e esta deveria estimular carinhosamente o desenvolvimento deste simpático e útil grupo.