O País não seguiu emocionado o
VIII Congresso do PPM.
Não deu quase por ele, por causa
dos Santos populares e do governo que não havia maneira de se formar.
Parece que há ali três correntes ou
tendências principais: uma, ecologista e comunitarista, interessante e com
algum conteúdo (só que ninguém percebe porque é que insiste em se dizer
monárquica...) onde se evidenciam os meus estimados Ribeiro Telles e Luís
Coimbra; outra, que parece acreditar mesmo na possibilidade de estar aí um rei
qualquer dia destes, e faz pragmaticamente por isso no meio da politiquice
concreta; e uma terceira, que vejo figurada por exemplo em João Camossa, que transporta
consigo o sonho, a miragem e a esperança do milagre.
É esta última corrente, ou
tendência (tal como as imagine, simplistamente) a que é importante enquanto
monárquica — porque a primeira não o é no fundo senão como rótulo, e a segunda
é parva e desinteressante, apenas.
É que a todos os países e a todas
as sociedades faz falta um vasto leque de causas mais ou menos perdidas, mais
ou menos incómodas, mais ou menos limitadas. Visionários, caturras, idealistas
«de tout poil» fazem parte de uma sociedade bem constituída. É a lei dos
contrastes: para se ter a noção de estar com saúde é preciso ter presente a
ameaça da doença; para se apreciar o conforto é preciso a experiência e a
possibilidade concreta do incómodo; para ter a satisfação da ordem, é precisa ter
a consciência de como está sempre próxima a desordem latente etc. etc.
É assim necessário que haja esperantistas,
abolicionistas, radioamadores, aeromodelistas — e monárquicos. Bombeiros
voluntários, cosmólogos, pré-galileanos, numerologistas, actores de teatro
experimental, iberistas, arqueólogos navais, sei lá! O que sei é que o seu
valor último não está tanto na sua utilidade prática (pobre critério, em
qualquer caso…), nem na maior ou menor simpatia, número e influência da que
disponham, mas sim no próprio facto saudável de existirem.
Portanto, ver João Camossa, de
barba hirsuta, dente amarelo e olhinho brilhante por essas ruas, sempre pronto
a difundir em frases profundas e mordazes o evangelho dinástico, dá uma
tranquilidade e segurança inauditas —dá a noção de que o País está completo,
tem os seus sonhadores e visionários, agora que os republicanos perderam
colorido e imagem de marca — estão cinzentos, quase todos, e desinteressantes,
porque República, já há.
Assim para que se sinta bem que
se está em República e não se esqueça tal, seria bom que houvesse monárquicos
em quantidade razoável. Ora parece que militantes do PPM são só 4100, e
fracotes; e sem a AD, agora, quase se não se vai dar por eles.
Quanto a
mim, aí uns 10.000 monárquicos militantes seriam uma quantidade conveniente
para assegurar a vitalidade e permanência da República, e esta deveria
estimular carinhosamente o desenvolvimento deste simpático e útil grupo.

