sábado, 11 de junho de 1983

Coligações

Temos agora finalmente um Governo, depois de negociações interpartidárias penosas e envoltas em certa penumbra, provavelmente necessária — isso, em si mesmo, não é invulgar em regimes e situações democráticas: vemos frequentemente os Belgas, e vimos há tempos os Holandeses levarem tanto ou mais tempo do que entre nós se levou a fabricar a mistura governativa possível e lá vão vivendo. Não é, então, catastrófico.
Portanto, óptimo, vamos lá a ver o Governo a governar, e desejar que o faça da melhor maneira, como é agora o mais importante. Veremos.
 
Mas eu, que nisto da politica pouco mais versado sou do que um eleitor atento, ao nível dos manuaizinhos escolares da Themis com tímidas sortidas ao calhamaço do Bourdeau para tirar alguma dúvida de forma, encontro a explicação cientifica e académica para o funcionamento destas manobras partidárias. As respostas certinhas, eu sei-as.
Na prática é que eu tenho algumas dúvidas, mas são dúvidas modestas, dúvidas artesanais, caseiras.
Ora suponhamos (e para não chamar para aqui os partidos da coligação recém-formada usaremos dois partidos hipotéticos que nem há entre nós, e assim ninguém se melindra...) que o Partido Liberal e o Radical de Esquerda tivessem obtido os dois primeiros lugares numa eleição, tendo ficado na proporção de dois terços e um terço, respectivamente. Coligavam-se para formar um governo, apoiado por uma maioria parlamentar com aquela composição proporcional, evidentemente. Nessa proporção, que foi a que, o eleitorado lhes conferiu, eles representam-no, certamente. Fixe. Muito bem. Mas então como é?
O governo que sai desta coligação vai fazer uma política que responde aos desejos do eleitorado. Como?
Vai conter 2 terços de ministros que fazem uma política liberal e um terço de ministérios onde campeará o radicalismo mais convicto?
Ou cada ministro faz em cada ministério actuar uma política que tem 2 terços de liberal e um terço de radical (assim qualquer coisa como:” -em cada três dos doentes dos hospitais 2 ficam em medicina livre e o terceiro em serviço nacional assistido”; -dois taros do caminho-de-ferro ficam para a iniciativa privada e um terço para a empresa pública, etc)?

Não. Não é assim, eu sei. Haverá um acordo, haverá um líder do executivo que coordena e procura estabelecer consenso, e tudo isso que a gente sabe. Mas então, só posso entender que, teórica e aritmeticamente, cada ministro e cada elemento das maiorias parlamentares apoiantes abdicará de um terço do seu liberalismo ou de dois terços do seu radicalismo de esquerda, e pergunto-me que raio de convicções são essas: os eleitores votaram-nos aos terços, como se faz com o Orçamento aos duodécimos?
É que, em tudo isto, faz-se-nos crer que é um processo semelhante ao da forma de uma seleção nacional de futebol, escolhendo para tal os melhores futebolistas do Benfica, do Sporting, e do Porto (ou até, se foram muito bons, do União de Lamas e do Estrela de Campolide, porque não?). Mas aqui, dos maiores aos mais pequenos, todos tem como programa, treino e finalidade jogar um mesmo logo: o futebol. Os partidos não; têm como fim último o mesmo declarado: o bem público. Mas propõem-se programaticamente atingi-lo por caminhos e modos diversos — por isso existem, e se não fosse assim não eram precisos. As coligações partidárias sugerem-me mais, neste caso, a formação de uma equipa nacional com os melhores praticantes portugueses do golfe, do râguebi e da pesca desportiva. Serão os melhores, ninguém duvidará. Mas que jogo é que joga essa equipa?
 
Não sei.
Mas lá que me faz uma certa confusão, isso faz…