terça-feira, 31 de maio de 1983

Estátuas equestres

Quando foi inaugurada a estátua de D. João IV em Vila Viçosa, a chamada «guerra fria» estava no auge por essa Europa. Convinha ao País, parece, projectar uma imagem de oásis de paz; a nossa guerra colonial ainda não se tinha declarado. Lembro-me de ouvir a cerimónia pela telefonia, com Júlio Dantas já muito idoso, cheio de veludos e brocados na voz, discursando. Retive, sempre, a seguinte frase: «... Num tempo em que outros países fundem as suas estátuas para fazer canhões, nós fundimos alguns canhões para fazer uma estátua!». Era de facto uma bela metáfora, dita em prosa redonda e cadenciada — mas ao miliciano artilheiro que eu era então, soava particularmente a chôco, pela mais prosaica das razões: achava eu que, nem lá fora fundiam as estátuas, nem com o seu bronze fariam canhões capazes, nem nós tínhamos fundido canhões nenhuns (qual o quê? talvez uns Vickers 9,8 ou uns 7,5 Schneider-Canet?! não querem lá ver!...) porque os canhões agora são de aço e a estátua era de bronze derretido ali para os lados de V. Nova de Gaia...
 

 
Mas o que importa agora é a estátua.
 
Francisco Franco era indiscutivelmente um grande escultor, um excelente estatuário, mas a verdade é que nós não temos uma tradição de escultura equestre. Assim, é perfeitamente desculpável que ele tenha esquecido uma coisa sabida: numa estátua equestre, o cavaleiro tem que ser colocado um grande bocado acima daquilo que seria a sua posição real na sela (digamos, como se estivesse sentado em cima de uma espessa almofada!) senão, parece afundar-se pelo cavalo dentro...
 
Leopoldo de Almeida, depois, já não caiu nesse erro, pelo menos, ao modelar o Nun'Alvares que está na Batalha, e o D. João I da Praça da Figueira.
A formação e o gosto pelo Renascimento que tinha Leopoldo de Almeida levaram-no porém a ter bem presente a estátua veneziana do «condottiere» Colleoni, de Verrochio; mas subtilíssimos pormenores frustraram a intenção do nosso escultor (meu estimado professor de desenho, não o posso esquecer...). E que Verrochio observou muito bem os andamentos ou «ares» do cavalo, e bastou-lhe dar um ligeiro desvio lateral à cabeça da montada para sugerir um «passo» enérgico e solto; mas a alimária que D. João I monta, com forte inclinação das patas firmadas no solo e posição contraída da cabeça, sugere inevitavelmente «tracção» entre varais (como se puxasse com esforço uma inexistente mas virtual carroça...). Colleoni, em Veneza, afronta os séculos, ameaçador, com um ombro impulsionamente avançado; o nosso D. João I, em posição frontal e hirta, «pousa para o retrato», incomodamente, num cavalo que se lhe escapa debaixo, na mecha.
 
 
Machado de Castro modelou exemplarmente o monumento equestre a D. José, mas, prudentemente, tratou o cavalo segundo a tradição romana — fez da montada um plinto vivo para o homem. Repare-se: a atitude do esplendido andaluz nem sequer é muito plausível em termos naturalistas — é uma montada obediente mais ao escultor que ao cavaleiro; tomou a atitude que convinha à majestade da figura real. Está a andar, mas é como se estivesse parada, ali, reduzida à modesta função de parte do plinto que suporta a figura régia.
 
 
Barata Feyo dotou o Porto com duas das melhores estátuas equestres que conheço: a de D. João VI, junto ao Castelo do Queijo, e a de Vimara Peres junto à Sé.
A primeira, na sua evidente e propositada desproporção (veja-se o tamanho da cabeça do cavalo!) é uma imagem estuante de energia e virilidade. A arrogância e poder que transparecem da figura (na estátua, claro, porque na realidade aquele Senhor era o que se sabe... mas isso não vem para o caso) são bem sublinhadas pela atitude do cavalo, cuja pata, como se fosse uma garra voluntariosa, se projecta para a frente prolongando o movimento do torso do cavaleiro. Que longe se está aqui do deslavado e anémico cavaleiro da Praça da Figueira!
 
 
E Vimara Peres! O bárbaro quase sem rosto, ameaça farroncas de cima da montada, mas é esta que é o centro do grupo: sorve os ares, fremente, à beira de saltar do reduzido plinto, para se lançar pelos largos espaços da correria e da rapina. É ela o protagonista do monumento e não o chefe da horda, mais ou menos mítico, que se celebra nesta peça maravilhosa.
Observe-se ainda um «pormenor» (oh! os pormenores...), que tem enorme importância: Machado de Castro e Barata Feyo colocaram a sua estátua sobre um «solo» ou chão de bronze espesso e bem marcado — no caso da estátua de D. José, esse chão é até povoado de serpentes, tornando-se assim, nestas estátuas, parte integrante do grupo escultórico em termos visuais. Francisco Franco e Leopoldo de Almeida não marcaram o chão com vigor suficiente, e o resultado sente-se: dir-se-ia que se pode ouvir o choque das ferraduras sobre a tampa do «caixote» que serve de peanha; o resultado visual é pobre e instável.
 
 
Isto de escultura equestre é uma coisa que está a desaparecer. A escultura hoje anda por caminhos bem distantes da figuração realista de pessoas — e os homens ilustres que hoje merecem estátuas (se é que os há...) tendem a desleixar o cavalo como meio de transporte e de prestígio, em benefício do Mercedes Benz ou do Boeing 727. (É certo que os drs. Freitas do Amaral e Pinto Balsemão montam frequentemente, na Quinta da Marinha, mas custa-me a crer que acalentem desígnios ocultos nesse sentido escultórico).
 
Se alinhei estas meditações, não foi tanto para instruir futuros mas improváveis estatuários de gente a cavalo, mas sim para ajudar a «ver» as estátuas equestres (poucas...) que encontramos nos nossos ambientes citadinos.