Quando foi inaugurada a estátua
de D. João IV em Vila Viçosa, a chamada «guerra fria» estava no auge por essa
Europa. Convinha ao País, parece, projectar uma imagem de oásis de paz; a nossa
guerra colonial ainda não se tinha declarado. Lembro-me de ouvir a cerimónia
pela telefonia, com Júlio Dantas já muito idoso, cheio de veludos e brocados na
voz, discursando. Retive, sempre, a seguinte frase: «... Num tempo em que
outros países fundem as suas estátuas para fazer canhões, nós fundimos alguns
canhões para fazer uma estátua!». Era de facto uma bela metáfora, dita em prosa
redonda e cadenciada — mas ao miliciano artilheiro que eu era então, soava
particularmente a chôco, pela mais prosaica das razões: achava eu que, nem lá
fora fundiam as estátuas, nem com o seu bronze fariam canhões capazes, nem nós
tínhamos fundido canhões nenhuns (qual o quê? talvez uns Vickers 9,8 ou uns 7,5
Schneider-Canet?! não querem lá ver!...) porque os canhões agora são de aço e a
estátua era de bronze derretido ali para os lados de V. Nova de Gaia...
Mas o que importa agora é a
estátua.
Francisco Franco era
indiscutivelmente um grande escultor, um excelente estatuário, mas a verdade é
que nós não temos uma tradição de escultura equestre. Assim, é perfeitamente
desculpável que ele tenha esquecido uma coisa sabida: numa estátua equestre, o
cavaleiro tem que ser colocado um grande bocado acima daquilo que seria a sua
posição real na sela (digamos, como se estivesse sentado em cima de uma espessa
almofada!) senão, parece afundar-se pelo cavalo dentro...
Leopoldo de Almeida, depois, já
não caiu nesse erro, pelo menos, ao modelar o Nun'Alvares que está na Batalha,
e o D. João I da Praça da Figueira.
A formação e o gosto pelo
Renascimento que tinha Leopoldo de Almeida levaram-no porém a ter bem presente
a estátua veneziana do «condottiere» Colleoni, de Verrochio; mas subtilíssimos
pormenores frustraram a intenção do nosso escultor (meu estimado professor de
desenho, não o posso esquecer...). E que Verrochio observou muito bem os
andamentos ou «ares» do cavalo, e bastou-lhe dar um ligeiro desvio lateral à
cabeça da montada para sugerir um «passo» enérgico e solto; mas a alimária que
D. João I monta, com forte inclinação das patas firmadas no solo e posição contraída
da cabeça, sugere inevitavelmente «tracção» entre varais (como se puxasse com
esforço uma inexistente mas virtual carroça...). Colleoni, em Veneza, afronta
os séculos, ameaçador, com um ombro impulsionamente avançado; o nosso D. João I,
em posição frontal e hirta, «pousa para o retrato», incomodamente, num cavalo
que se lhe escapa debaixo, na mecha.
Machado de Castro modelou
exemplarmente o monumento equestre a D. José, mas, prudentemente, tratou o
cavalo segundo a tradição romana — fez da montada um plinto vivo para o homem.
Repare-se: a atitude do esplendido andaluz nem sequer é muito plausível em
termos naturalistas — é uma montada obediente mais ao escultor que ao
cavaleiro; tomou a atitude que convinha à majestade da figura real. Está a
andar, mas é como se estivesse parada, ali, reduzida à modesta função de parte
do plinto que suporta a figura régia.
Barata Feyo dotou o Porto com
duas das melhores estátuas equestres que conheço: a de D. João VI, junto ao
Castelo do Queijo, e a de Vimara Peres junto à Sé.
A primeira, na sua evidente e
propositada desproporção (veja-se o tamanho da cabeça do cavalo!) é uma imagem
estuante de energia e virilidade. A arrogância e poder que transparecem da
figura (na estátua, claro, porque na realidade aquele Senhor era o que se
sabe... mas isso não vem para o caso) são bem sublinhadas pela atitude do
cavalo, cuja pata, como se fosse uma garra voluntariosa, se projecta para a
frente prolongando o movimento do torso do cavaleiro. Que longe se está aqui do
deslavado e anémico cavaleiro da Praça da Figueira!
E Vimara Peres! O bárbaro quase
sem rosto, ameaça farroncas de cima da montada, mas é esta que é o centro do
grupo: sorve os ares, fremente, à beira de saltar do reduzido plinto, para se
lançar pelos largos espaços da correria e da rapina. É ela o protagonista do
monumento e não o chefe da horda, mais ou menos mítico, que se celebra nesta
peça maravilhosa.
Observe-se ainda um «pormenor»
(oh! os pormenores...), que tem enorme importância: Machado de Castro e Barata
Feyo colocaram a sua estátua sobre um «solo» ou chão de bronze espesso e bem
marcado — no caso da estátua de D. José, esse chão é até povoado de serpentes,
tornando-se assim, nestas estátuas, parte integrante do grupo escultórico em
termos visuais. Francisco Franco e Leopoldo de Almeida não marcaram o chão com
vigor suficiente, e o resultado sente-se: dir-se-ia que se pode ouvir o choque
das ferraduras sobre a tampa do «caixote» que serve de peanha; o resultado
visual é pobre e instável.
Isto de escultura equestre é uma
coisa que está a desaparecer. A escultura hoje anda por caminhos bem distantes
da figuração realista de pessoas — e os homens ilustres que hoje merecem
estátuas (se é que os há...) tendem a desleixar o cavalo como meio de
transporte e de prestígio, em benefício do Mercedes Benz ou do Boeing 727. (É
certo que os drs. Freitas do Amaral e Pinto Balsemão montam frequentemente, na
Quinta da Marinha, mas custa-me a crer que acalentem desígnios ocultos nesse
sentido escultórico).
Se alinhei estas meditações, não
foi tanto para instruir futuros mas improváveis estatuários de gente a cavalo,
mas sim para ajudar a «ver» as estátuas equestres (poucas...) que encontramos
nos nossos ambientes citadinos.





