segunda-feira, 2 de fevereiro de 1981

Programa do Governo

Governar não é fácil, diz-se. Dizem, pelo menos os que já foram governantes e falharam (isto é, praticamente: todos). Mas desta visão pessimista não partilha uma conhecida figura de Campolide, próspero industrial do ramo alimentar (sector vinícola a retalho) o que por questões de privacidade e melindre designarei aqui apenas pelo nome fictício de «Jorze» (se bem que realmente se chame Isolindo Lopes da Silva Laranjinha).
«Jorze» sabe claramente como se deve governar este País e até quem seriam os homens indicados para o fazer: um triunvirato constituído pelo dr. Freitas do Amaral, o camarada Arnaldo de Matos, e ele próprio. Está convencido de que pensam os três substancialmente da mesma maneira, a avaliar pelo que dizem, e que em conjunto, punham isto como deve ser.
Mas o trabalho de manter o estabelecimento a funcionar não tem permitido a «Jorze» candidatar-se à área do Poder, e assim a riqueza e vigor do seu pensamento não tem sido acessível senão a um número limitado de pessoas habitués do seu balcão.
 
 
Esta coluna entende-se como um verdadeiro serviço do Bem público, e por isso vai dar uma larguíssima difusão aos principais temas de um «Programa de Governo» de «Jorze».
 
Desemprego
«Jorze» resolve isso em três tempos. «Há desempregados. Há? Então é dar-lhes emprego a todos! Chulos e calões é o que já por aí há de mais, e sempre a aumentar.» (Tem mesmo um dístico pregado numa pipa onde exprime este conceito lapidarmente — «Faço-te inveja? Faz como eu: trabalha.» — o que mostra que não abdicou inteiramente de uma certa militância cívica).
 
Finanças
«Dizem que não há dinheiro! Não há dinheiro? Dinheiro há e é a rodos! Vá lá acima à Valenciana e é ali as notas de mil a saltar para o marisco e as jantaradas — e é os aconchegos e é os bons carros Mercedes e é os cinemas sempre cheios e tudo! Dinheiro há por aí à farta. Eu resolvia isto. O Estado não tem dinheiro, não é? Essa malta que está por ai a abarrotar de dinheiro comprava o Estado, ao Governo; — claro que o Estado ficava logo cheio dele. Então, como o Estado já estava cheio dele, esses gajos que eram donos do Estado por uns tempos punham o Estado a render, que lá disso sabem eles que até fazem dinheiro do ar se for preciso — é gente de trabalho, gente de negócios —  e o Estado ficava rico. O Estado em ficando rico, comprava-se a ele mesmo outra vez aos gajos, e dava-se ao Governo, está a ver? E assim é que estas coisas se fazem. Está a ver? Mas é preciso saber, é preciso ter prática da vida e isso é que os doutores no Governo não têm.»
 
Khomeiny
«Era preciso era alguém que os tivesse no lugar ir lá e dar um par de borrachos nesse filho da mãe»
 
NATO
«O melhor é a gente não se meter nisso. É só gastar dinheiro e a estrangeirada ainda se fica a rir de nós.»
 
Festival da Eurovisão
«Mandar o Marco Paulo a cantar aquela dos dois amores e pronto.»
 
Integração na CEE
«Mais impostos, vão ver! Quando vêm com estas coisas é só mais impostos. Aqui o que se queria era uma zona de comércio livre com a Bairrada e o Cartaxo... e Alpiarça.»
 
Leis
«Fazer uma lei que obrigasse as pessoas todas a ser honestas, que o mal deste País é haver por aí muito aldrabão à solta. Quem não fosse honesto, ou apanhava multa ou ia dentro.»
 
Petróleo
«Falta, está visto: mas é substitui-lo por briquetes. Esta gente nova já nem sabe o que são briquetes, mas quando eu tinha também carvoeiro, ganhava ainda mais nas briquetes do que no petróleo, e ninguém diz que os árabes estejam a boicotar o fornecimento de briquetes.»
 
Revisão Constitucional
«A Constituição não deve ser revista. Revista é a 'Tele-Semana', era o 'Modas e Bordados' e era o 'Século Ilustrado', antigamente. Devia era ter uma capa a cores que se vendia mais.»
 
Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional
«Fazer uma estrada boa para a aldeia de Cortiço, a partir cá de baixo da ponte de Arganil.»
 
Perante tudo isto esta coluna espera que Pinto Balsemão esteja atento.