Governar não é fácil, diz-se. Dizem,
pelo menos os que já foram governantes e falharam (isto é, praticamente:
todos). Mas desta visão pessimista não partilha uma conhecida figura de
Campolide, próspero industrial do ramo alimentar (sector vinícola a retalho) o
que por questões de privacidade e melindre designarei aqui apenas pelo nome
fictício de «Jorze» (se bem que realmente se chame Isolindo Lopes da Silva
Laranjinha).
«Jorze» sabe claramente como se
deve governar este País e até quem seriam os homens indicados para o fazer: um
triunvirato constituído pelo dr. Freitas do Amaral, o camarada Arnaldo de Matos,
e ele próprio. Está convencido de que pensam os três substancialmente da mesma
maneira, a avaliar pelo que dizem, e que em conjunto, punham isto como deve
ser.
Mas o trabalho de manter o
estabelecimento a funcionar não tem permitido a «Jorze» candidatar-se à área do
Poder, e assim a riqueza e vigor do seu pensamento não tem sido acessível senão
a um número limitado de pessoas habitués do seu balcão.
Esta coluna entende-se como um
verdadeiro serviço do Bem público, e por isso vai dar uma larguíssima difusão
aos principais temas de um «Programa de Governo» de «Jorze».
Desemprego
«Jorze» resolve isso em três tempos. «Há
desempregados. Há? Então é dar-lhes emprego a todos! Chulos e calões é o que já
por aí há de mais, e sempre a aumentar.» (Tem mesmo um dístico pregado numa
pipa onde exprime este conceito lapidarmente — «Faço-te inveja? Faz como eu:
trabalha.» — o que mostra que não abdicou inteiramente de uma certa militância cívica).
Finanças
«Dizem que não há dinheiro! Não
há dinheiro? Dinheiro há e é a rodos! Vá lá acima à Valenciana e é ali as notas
de mil a saltar para o marisco e as jantaradas — e é os aconchegos e é os bons
carros Mercedes e é os cinemas sempre cheios e tudo! Dinheiro há por aí à
farta. Eu resolvia isto. O Estado não tem dinheiro, não é? Essa malta que está
por ai a abarrotar de dinheiro comprava o Estado, ao Governo; — claro que o
Estado ficava logo cheio dele. Então, como o Estado já estava cheio dele, esses
gajos que eram donos do Estado por uns tempos punham o Estado a render, que lá
disso sabem eles que até fazem dinheiro do ar se for preciso — é gente de
trabalho, gente de negócios — e o Estado
ficava rico. O Estado em ficando rico, comprava-se a ele mesmo outra vez aos
gajos, e dava-se ao Governo, está a ver? E assim é que estas coisas se fazem. Está
a ver? Mas é preciso saber, é preciso ter prática da vida e isso é que os
doutores no Governo não têm.»
Khomeiny
«Era preciso era alguém que os
tivesse no lugar ir lá e dar um par de borrachos nesse filho da mãe»
NATO
«O melhor é a gente não se meter
nisso. É só gastar dinheiro e a estrangeirada ainda se fica a rir de nós.»
Festival da Eurovisão
«Mandar o Marco Paulo a cantar aquela
dos dois amores e pronto.»
Integração na CEE
«Mais impostos, vão ver! Quando
vêm com estas coisas é só mais impostos. Aqui o que se queria era uma zona de
comércio livre com a Bairrada e o Cartaxo... e Alpiarça.»
Leis
«Fazer uma lei que obrigasse as pessoas todas
a ser honestas, que o mal deste País é haver por aí muito aldrabão à solta.
Quem não fosse honesto, ou apanhava multa ou ia dentro.»
Petróleo
«Falta, está visto: mas é
substitui-lo por briquetes. Esta gente nova já nem sabe o que são briquetes,
mas quando eu tinha também carvoeiro, ganhava ainda mais nas briquetes do que
no petróleo, e ninguém diz que os árabes estejam a boicotar o fornecimento de
briquetes.»
Revisão Constitucional
«A Constituição não deve ser revista.
Revista é a 'Tele-Semana', era o 'Modas e Bordados' e era o 'Século Ilustrado',
antigamente. Devia era ter uma capa a cores que se vendia mais.»
Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional
«Fazer uma estrada boa para a
aldeia de Cortiço, a partir cá de baixo da ponte de Arganil.»
Perante tudo isto esta coluna
espera que Pinto Balsemão esteja atento.

