quinta-feira, 22 de janeiro de 1981

Olissipografia

É uma palavra híbrida e feia, esta, que é usada para designar uma actividade literária bem bonita: escrever sobre Lisboa. Uma palavra que soa às vezes inquietantemente a qualquer avançada técnica médica («Fui ao posto clínico e fizeram-me uma Olissipografia») ou da física nuclear («A presença de Muons-beta 3 foi detectada por uma câmara de Olissipografia de Interferência»).
Mas não. É uma actividade literária, historiográfica pacifica, não dolorosa, atraente, mas em certo declínio. Há certamente ainda bons olissipógrafos, e, com todo o inconveniente conhecido de citar nomes nestes casos porque se excluem forçosamente e injustamente figuras importantes, não deixo de mencionar três — com a boa razão de serem pessoas que pertencem aos próprios quadros da orgânica municipal: o dr. Fernando Castelo Branco, a drª Irisalva Moita, e a drª Salete Simões Salvado. Trabalhando em sectores diferentes na área cultural municipal, prosseguem incansavelmente, e nem sempre com inteiro apoio, uma actividade de investigação, disseminação de conhecimentos e defesa do património cultural da Cidade, que um dia será inteiramente reconhecida. Mas não só eles: na vasta tela dos serviços camarários, são às dezenas os funcionários, não só superiores, que «fazem a sua perninha» olissipográfica trabalhando e carregando material documentai, evocando aspectos sectoriais cheios de interesse e por vezes inesperados.
 
Olissipógrafos há, ainda, dentro dos Serviços da CML. Há-os também fora, e não pode esquecer-se esse importante bastião que os agrupa classicamente: os «Amigos de Lisboa».
Mas são todos estes, em conjunto e individualmente, que denunciam um certo declínio no interesse em «olissipografar».
Parece que não foi ainda colmatado o vazio deixado por figuras como Júlio de Castilho, Vieira da Silva, Pastor de Macedo, Matos Sequeira e Norberto de Araújo — olissipógrafos «a tempo inteiro», apaixonados pela Lísbia até à medula, fazendo até parte evidente de própria paisagem humana lisboeta.
A rotunda figura de Norberto de Araújo mals a sua franjinha de cabeio branco, aparecia subitamente como se fosse um furão sobredesenvolvido, em qualquer pátio ou mansarda da cidade velha, vasculhando, inquirindo, anotando, com e curiosidade insaciável do bisbilhoteiro reforçada pelo faro do jornalista (que foi, e deste mesmo jornal); Matos Sequeira, remoendo a dentadura flutuante, magro e mumificado sob a boininha preta, sibilando uma vaga reprovação por uma cidade que não teve a decência de se ficar pelo Séc. XVI onde ele ainda parecia viver; Pastor de Macedo, gerente comercial que era, fazendo reviver ruas inteiras, como se estivesse a acertar as contas de fim de ano (ou de fim de Século?) de toda uma cidade — estes, são os que ainda conheci, dessa plêiade.
Faziam tanto parte de Lisboa como as pedras do castelo.
Estarão ultrapassados? Será possível melhorar as suas investigações e deduções? É possível. Mas que rasto inesquecível de capacidade de «compreender», de evocar a própria «alma» da cidade!...
Ora aqui é que bate o ponto.
Essa «alma» da Cidade é coisa que: em primeiro lugar não está na moda (cheira suspeitamente a vitalismo, Keyserling ou Bergson mal lidos, ressaibos de romantismo atrasado, sei lá! coisas consideradas desagradáveis e «pudenda»); em segundo lugar, simplesmente, é coisa que já não há. Ou se há, é difícil de achar, como petróleo. Não há possibilidade de tentar captar a «alma» de Lisboa, quando é mais importante captar um lugar de estacionamento para o carro; o verdadeiro grito da alma lisboeta é lancinante, e diz respeito aos apertos no Metro e no autocarro. E à renda do apartamentozinho, claro.
 
Tudo isto significa que a olissipografia está numa viragem, e que se lhe desenham com nitidez três vias:
— Uma via historiográfica, convencional, com rendimento decrescente, pois cada vez se circunscreve a factos ou factoides menos significativos (do estilo «interessante descoberta das contas da lavadeira da tia de Ricardo Covões» ou «Foi realmente o carpinteiro João Lopes que fez as janelas do prédio nº 36 da Av. Miguel Bombarda?»);
— Uma via científica e técnica, em torno da Geografia Humana, das técnicas urbanísticas, das predições e quantificações teóricas, da economia e gestão urbana;
— Uma via experiencial, jornalística ou poética.
 
A Câmara Municipal de Lisboa tem prémios periódicos ( «Júlio de Castilho» e «Júlio César Machado», este último destinado a trabalhos de jornalismo) destinados a incentivar a olissipografia, e são prémios não insignificantes monetariamente. No entanto tem raros concorrentes.
 
Não será Lisboa já suficientemente Interessante para os jovens repórteres, os jovens licenciados e técnicos, os jovens historiadores? Estarão eles a confundi-los com o prémio literário «Cidade de Lisboa» que, esse sim, é uma consagração para os «consagráveis»?
 
Isto é um desafio, que aqui fica.
Há tanto a estudar e a investigar, há tanto a descrever e a compreender numa grande cidade como esta, que evolui e permanece ao mesmo tempo, que chega a fazer pena o alheamento dos nossos universitários e intelectuais em relação à Lísbia amada.
 
E caramba! Para concorrer não é obrigatório ser idoso, magro, e andar de boininha preta...