A descoberta recente de um papel
contendo dois sonetos assinados por Bocage coincide curiosamente com a
divulgação de notícias que inculcam a possibilidade de certa alteração no
carácter do Café Nicola, o qual, por exigências de rentabilidade da exploração,
poderá vir a ser dotado com um balcão de snack-bar.
Porém, sujeito o documento à crítica
interna, revelou certos aspectos anacrónicos. A crítica externa revelá estar
escrito nas costas de prospectos de saldos do Verão passado no Conde Barão, e
fica assim excluída a hipótese que o atribuía ao grande Manoel Maria Barbosa du
Bucage (1765-1805). Toma corpo a teoria que atribui estes sonetos a Manecas
Bocage (o «Speed»), jovem marginal frequentemente a contas com as autoridades
policiais e que ronda muito a porta do café Nicola, passando drunfos e bebendo
por níveas mãos letal veneno.
«Balcão»
Num café por onde antes me arrastava
Meu ser evaporei na lida insana
De pedir sempre a um e outro a grana
Para o boi, e o hache que fumava.
De que inúmeros soes a mente ufana
Às vezes, com a pedrada, se iluminava!
Tudo então via, sabia e comentava,
E pedia ao Nume eterno uma glória humana.
De pé, agora, no Café Nicola,
Já só pedirei, desanimado,
Sob a luz (dum frio que desola...)
Ao balcão de plástico e cromado
Como sendo um favor, como uma esmola
A mostarda para pôr no combinado.
O segundo soneto não está
directamente relacionado com o Café Nicola, mas deixa transparecer a angústia
do vate lisboeta perante o estado da governação e da sociedade. A ausência de
referências ao Regente, ao Intendente e aos seus esbirros. etc., leva a confirmar
a dúvida da sua atribuição a Bucage (depois conhecido por Bocage), ainda que o
soneto tenha ressaibos da sua fase pós-neo-Arcadiana. As referências e alusões
a outras entidades levam, pelo contrário, a pensar que o soneto é
contemporâneo, e até, precisamente, posterior às eleições de 1979. Avulta assim
mais a probabilidade de se tratar de outro desmando condenável desse passarão
do «Speed» Bocage, que ou eu me engano muito ou ainda acaba mal, a avaliar pela
história que já tem (histórias escuras na vida militar no Ultramar, com insubordinação;
uma ida ao Brasil estabelecer contactos suspeitos; devassidão de costumes e
constantes faltas de respeito pela ordem e poderes constituídos; incitamento à
subversão por influência de ideologias revolucionárias de origem estrangeira;
tradução de literatura subversiva e condenável; num só momento inimigo de
hipócritas e de outras classes mais respeitáveis, etc).
«Nemesis de Olissipo»
Teme. Teme Lisbia; e fallece
A alegria á capital deste Pais
Mas ri, ri com um riso infeliz
De tanta coisa amarga que acontece.
Temes! E o teu semblante empallidece
Mas, mesmo assim ainda ris...
Para rir, temos nós o Abecassis,
E para temer temos nós o CDS.
Mas brada em alto pregão à mocidade
Que atraz do som phantastico corria,
Aquilo que é uma grande verdade:
Tudo isto virá a acabar um dia.
Acabará, sim! Para bem desta Cidade
Acabará! Porque ainda há Democracia.

