terça-feira, 3 de fevereiro de 1981

Programa de Governo


Mas não é Programa DO Governo. Do Governo, propriamente, será lá com ele e não tenho nada com isso. Estou a pensar é num programa para ARRANJAR Govern, no sentido em que o espectáculo de uma composição empírica de ministeriáveis que a AD em estado a dar é própria de subdesenvolvidos.
Programa, estou eu a pensar numa coisa escrita em ALGOL, FORTRAN, BASIC, PL1 ou coisa dessas, computacional, tecnológica, gestionária, euromercádica, moderna. Desculpem-me, isto hoje é um bocado árido, mais coisa para informáticos e gente assim.
 
Para crises futuras a AD deveria começar por estabelecer uma «Flow-chart», declarar o formato, introduzir os potenciais ministeriáveis na memória do computador (em símbolos, não em pessoa, que até nem caberiam, mas na AD há com certeza programadores que sabem muito bem como é que isso se faz).
Depois sairia qualquer coisa com este aspecto, ou parecido:
70 DEF GOVAD (A + B + C)
(quer dizer: Defina Governo AD como soma de A(CDS), B(PSD), e C(PPM)
15 2.5A + 3.28 + 0.5C = X (GOV)
(o Governo AD de tamanho X será constituído nas proporções de 2.5 CDS, 3.2 PSD etc.)
20 READ 170
(leia os ministeriáveis na linha 170; os secretários de Estado contam como 0.5 de ministro)
25 GOTO 15
(ensaie nomes na proporção indicada, processo aleatório, use a imaginação!)
30 IF X (GOV) = AFA THEN GOTO 60
(se sair um Governo que não agrade a Freitas do Amaral, execute a linha 60)
35IF X (GOV) AFA THEN... etc. etc.
 
Por aqui adiante uma coisa neste género que até nem cabe aqui e que os programadores fazem com grande satisfação, proficiência e geral agrado. É para isso que lhes pagam, e não a mim. Só estou a dar a ideia. Repare-se que o «loop» entre as linhas 15 e 60 se faz em milésimas de segundo num computador, ao passo que se for com métodos artesanais, isto é, intermináveis idas e vindas entre o Largo do Caldas e a Rua de Buenos Aires, cumprimentos, cínicas palmadinhas nas costas, paleio, declarações manhosas à imprensa e à TV, são tardes inteiras, (além da despesa).
Um terminal directo em Belém até permitiria a consulta Presidencial com resposta em «tempo real». Por aqui se vê como a aplicação da tecnologia moderna poupa tempo, permitindo até meter mais crises dentro do mesmo prazo. A AD, que preza tanto a produtividade, não pode ficar insensível a este argumento.
O Problema verdadeiro não é este, no entanto: o problema é que, se o «debugging» de um programa destes é fácil, o «debuging» da própria AD, esse, é praticamente impossível.