Esta saborosa expressão popular
italiana, e até peculiarmente romana, (CHOVE?! LADRÃO DE GOVERNO...) traduz um
hábito bem meridional de atribuir todas as culpas, de tudo, ao governo, até da
chuva!
Ora agora chegou o Inverno, e
depois dele chegará a Primavera ventosa em Lisboa.
Os guarda-chuvas voltam-se do
avesso ao virar das esquinas. As senhoras deitam as mãos às saias, que, subitamente,
esvoaçam. O pobre asmático ofega, sufocado pela brusca descompressão da rajada
ao sair da porta. Todos se irritam, mas todos acham natural: é o temporal, é a
Natureza — aí está uma coisa para variar, uma, pelo menos, de que os homens não
tem culpa! Até é engraçado haver uma coisa de que o governo, qualquer governo,
todos os governos, não tenham a culpa. Com o hábito também nosso de atribuir
todas as culpas ao governo (a expressão correcta até é: «a ELES»...), chega a
ser estranho e desconfortável não lhe poder atribuir a culpa das rajadas. Ao
Governo AD em que Gonçalo Ribeiro Telles, que tanto se tem batido por estes
problemas, vai ter directa ou indirectamente responsabilidades, seria
particularmente saboroso! («SOFFIA! GOVERNO AD LADRO...»)
Este colunista é realmente em
chatarrão, e provavelmente com a mania da perseguição, porque até vem atribuir
alguma culpa das rajadas aos governos. Bem, para ser mais exacto, não só
propriamente aos governos, mas ao conjunto dos poderes públicos e de interesses
que têm permitido, ao longo de muitos anos, a formação de condições que alteram
drasticamente o clima citadino. E, entre elas, esta.
Das grandes artérias rasgadas que
formam túneis de aceleração da nortada, provocando os torvelinhos que juntam os
lixos dispersos às esquinas, já os alfacinhas que frequentam as Avenidas Novas
andavam desconfiados. Vento, sim; mas não será vento a mais do que aquele que a
boa e pacífica Natureza gasta para uso próprio?
Ora bem: os lisboetas gostarão
talvez de saber que os grandes edifícios que começam a eriçar a paisagem de
Lisboa, e que, a uma apreciação palonça e provinciana, representam uma
manifestação de progresso, têm também umas certas consequências climáticas às
quais nunca se faz referência.
A perturbação do perfil de Lisboa
(diga «sky-line» aos amigos que faz um vistaço!...) é notória, já. Os
significados das grandes construções em altura como meios de concentração e
reprodução do capital, como meios de apropriação socialmente abusiva do solo
urbano, como riscos de segurança, como geradores de trânsito concentrado, e
como muitas outras coisas bonitas, não interessam neste momento. («Interessam,
interessam, mas não cabem»-N. da R.)
Interessa a este colunista agora,
apenas, explicar ao lisboeta embevecido com os seus arranha-céus saloios, que
acontece que os tais edifícios se comportam como «fazedores de vento».
Os «filetes» de ar que vão de
encontro a uma fachada suficientemente alta e isolada não são todos deflectidos
de modo a passar por cima ou ao lado dela: uma parte (ai até aos 3/4 da altura)
é, pelo contrário, deflectida para baixo, e acelerada! O vento lambe a fachada
de cima para baixo, ao contrário do que poderia parecer natural.
Este efeito é verificado e
estudado em modelos, em túneis aerodinâmicos, analiticamente, etc. E é
verificado experimentalmente em medidas feitas nos casos reais. Aí pelos anos
60 isto foi demonstrado sobretudo pelo laboratório de Garston, no Reino Unido,
e depois estudado em todos os países. O nosso LNEC, com certeza, sabe disso a
potes. O que importa é que a velocidade do vento ao nível do solo, (isto é, ao
nível em que o estimado leitor peão anda...) pode ir até duas vezes e meia a da
massa de ar geral em movimento!
Chamam lá na estranja a esses
edifícios altos, os «gale-makers», isto é, os «fazedores de ventania», e por
essas e muitas outras razões, começam a elevar-se coros de vozes contra tais
monstrozinhos; sem êxito, claro, porque também lá, as prisões dos grandes
interesses se sobrepõem ao interesse público...
Caro leitor lisboeta: quando
houver um ventinho regular, certinho, a soprar de Oeste, corra até ao Ritz, na
Rua Rodrigo da Fonseca. Verá uma coisa interessante: as bandeiras do topo do
edifício trapejam alegremente no sentido do Parque, mas a bandeira sobre a
entrada, na Rodrigo da Fonseca, drapeja no sentido oposto, perpendicularmente à
fachada, como se esta a soprasse ao través da rua, que até é relativamente
estreita!
E quando, ao passar à frente do
edifício Aviz, ou do Sheraton, ou daquilo onde está o Ministério do Trabalho,
em dias de turbulência atmosférica for quase atirado ao chão pelas rajadas que
deles saem, não dirija imprecações a quem construiu, concebeu, permitiu, ou
possui essas pérolas do «sky-line» lisboeta — porque ninguém, rigorosamente
ninguém, quererá saber disso para nada. Para nada, ouviu? E por favor, não
chateie mais, porque as coisas são assim mesmo e quem não gostar da maneira
como esta cidade se vai fazendo assim, mude-se. Pelintras! Foleiros! Rezingões!
Isto ouve-se cada uma! Agora até queriam conforto para andar na rua, a pé,
imagine-se... Eu cá sei o que é, mas nem digo! A Lagoa é que os topa bem lá no
jornal dela. Agora, se V.Exa está interessado num andar de luxo na nossa
promoção «Excelsioribus», temos ainda disponível um 23° ou um 27° andar!
Honra-nos muito a sua visita! O Porsche? Certamente, garagem privativa, V.Exa
nem tem que estar sujeito ao vento, que horror... Uns dez mil contitos, mais
coisa menos coisa para o apartamento simples, com kitchenette. Às ordens de V.Exa!
Esperando a visita de V.Exa. Muito obrigado a V.Exa. V.Exa agasalhe-se que anda
aí uma ventania para estes lados! Muito boa tarde a V.Exa!
(GOVERNO LADRO!...)


