segunda-feira, 9 de fevereiro de 1981

«PIOVE?! GOVERNO LADRO...»

Esta saborosa expressão popular italiana, e até peculiarmente romana, (CHOVE?! LADRÃO DE GOVERNO...) traduz um hábito bem meridional de atribuir todas as culpas, de tudo, ao governo, até da chuva!
 
Ora agora chegou o Inverno, e depois dele chegará a Primavera ventosa em Lisboa.
Os guarda-chuvas voltam-se do avesso ao virar das esquinas. As senhoras deitam as mãos às saias, que, subitamente, esvoaçam. O pobre asmático ofega, sufocado pela brusca descompressão da rajada ao sair da porta. Todos se irritam, mas todos acham natural: é o temporal, é a Natureza — aí está uma coisa para variar, uma, pelo menos, de que os homens não tem culpa! Até é engraçado haver uma coisa de que o governo, qualquer governo, todos os governos, não tenham a culpa. Com o hábito também nosso de atribuir todas as culpas ao governo (a expressão correcta até é: «a ELES»...), chega a ser estranho e desconfortável não lhe poder atribuir a culpa das rajadas. Ao Governo AD em que Gonçalo Ribeiro Telles, que tanto se tem batido por estes problemas, vai ter directa ou indirectamente responsabilidades, seria particularmente saboroso! («SOFFIA! GOVERNO AD LADRO...»)
 
Este colunista é realmente em chatarrão, e provavelmente com a mania da perseguição, porque até vem atribuir alguma culpa das rajadas aos governos. Bem, para ser mais exacto, não só propriamente aos governos, mas ao conjunto dos poderes públicos e de interesses que têm permitido, ao longo de muitos anos, a formação de condições que alteram drasticamente o clima citadino. E, entre elas, esta.
Das grandes artérias rasgadas que formam túneis de aceleração da nortada, provocando os torvelinhos que juntam os lixos dispersos às esquinas, já os alfacinhas que frequentam as Avenidas Novas andavam desconfiados. Vento, sim; mas não será vento a mais do que aquele que a boa e pacífica Natureza gasta para uso próprio?
Ora bem: os lisboetas gostarão talvez de saber que os grandes edifícios que começam a eriçar a paisagem de Lisboa, e que, a uma apreciação palonça e provinciana, representam uma manifestação de progresso, têm também umas certas consequências climáticas às quais nunca se faz referência.
A perturbação do perfil de Lisboa (diga «sky-line» aos amigos que faz um vistaço!...) é notória, já. Os significados das grandes construções em altura como meios de concentração e reprodução do capital, como meios de apropriação socialmente abusiva do solo urbano, como riscos de segurança, como geradores de trânsito concentrado, e como muitas outras coisas bonitas, não interessam neste momento. («Interessam, interessam, mas não cabem»-N. da R.)
 
Interessa a este colunista agora, apenas, explicar ao lisboeta embevecido com os seus arranha-céus saloios, que acontece que os tais edifícios se comportam como «fazedores de vento».
Os «filetes» de ar que vão de encontro a uma fachada suficientemente alta e isolada não são todos deflectidos de modo a passar por cima ou ao lado dela: uma parte (ai até aos 3/4 da altura) é, pelo contrário, deflectida para baixo, e acelerada! O vento lambe a fachada de cima para baixo, ao contrário do que poderia parecer natural.
 
Este efeito é verificado e estudado em modelos, em túneis aerodinâmicos, analiticamente, etc. E é verificado experimentalmente em medidas feitas nos casos reais. Aí pelos anos 60 isto foi demonstrado sobretudo pelo laboratório de Garston, no Reino Unido, e depois estudado em todos os países. O nosso LNEC, com certeza, sabe disso a potes. O que importa é que a velocidade do vento ao nível do solo, (isto é, ao nível em que o estimado leitor peão anda...) pode ir até duas vezes e meia a da massa de ar geral em movimento!
Chamam lá na estranja a esses edifícios altos, os «gale-makers», isto é, os «fazedores de ventania», e por essas e muitas outras razões, começam a elevar-se coros de vozes contra tais monstrozinhos; sem êxito, claro, porque também lá, as prisões dos grandes interesses se sobrepõem ao interesse público...
 
Caro leitor lisboeta: quando houver um ventinho regular, certinho, a soprar de Oeste, corra até ao Ritz, na Rua Rodrigo da Fonseca. Verá uma coisa interessante: as bandeiras do topo do edifício trapejam alegremente no sentido do Parque, mas a bandeira sobre a entrada, na Rodrigo da Fonseca, drapeja no sentido oposto, perpendicularmente à fachada, como se esta a soprasse ao través da rua, que até é relativamente estreita!


E quando, ao passar à frente do edifício Aviz, ou do Sheraton, ou daquilo onde está o Ministério do Trabalho, em dias de turbulência atmosférica for quase atirado ao chão pelas rajadas que deles saem, não dirija imprecações a quem construiu, concebeu, permitiu, ou possui essas pérolas do «sky-line» lisboeta — porque ninguém, rigorosamente ninguém, quererá saber disso para nada. Para nada, ouviu? E por favor, não chateie mais, porque as coisas são assim mesmo e quem não gostar da maneira como esta cidade se vai fazendo assim, mude-se. Pelintras! Foleiros! Rezingões! Isto ouve-se cada uma! Agora até queriam conforto para andar na rua, a pé, imagine-se... Eu cá sei o que é, mas nem digo! A Lagoa é que os topa bem lá no jornal dela. Agora, se V.Exa está interessado num andar de luxo na nossa promoção «Excelsioribus», temos ainda disponível um 23° ou um 27° andar! Honra-nos muito a sua visita! O Porsche? Certamente, garagem privativa, V.Exa nem tem que estar sujeito ao vento, que horror... Uns dez mil contitos, mais coisa menos coisa para o apartamento simples, com kitchenette. Às ordens de V.Exa! Esperando a visita de V.Exa. Muito obrigado a V.Exa. V.Exa agasalhe-se que anda aí uma ventania para estes lados! Muito boa tarde a V.Exa!
 
(GOVERNO LADRO!...)