De que é feito o progresso material e espiritual dos povos?
Da utilização adequada dos recursos - recursos materiais e humanos.
Todos sabemos que esses recursos estão mal distribuídos no Globo, e isso tem causado distorções e conflitos. Mas o recurso mais importante, o recurso fundamental, está magnifica e igualitariamente distribuído: o tempo. 24 horas por dia a cada um; velho ou novo, faminto do Bangladesh ou magnate de Wall-Street. Nem mais um segundozinho de bónus a ninguém nem com manipulações do FM1. Ali, na batata, igualzinho para todos!
O estado de desenvolvimento de um país pode portanto ser medido muito mais rigorosamente em horas úteis e criativas do que em dólares per capita ou consumo de aço. Vejamos, através de um exemplo fictício.
- Um cavalheiro em Portugal pode simultaneamente ser, digamos, médico, coleccionador amador de coleópteros, e vogal-secretário da Junta de Freguesia, e para estas actividades dispõe, na roda do ano, de 4000 horas, por hipótese. Mas noutro país maior e mais desenvolvido, haverá provavelmente três cavalheiros, dos quais um terá à disposição 4000 horas para ser só médico, haverá outro que dispõe de 4000 horas para os coleccionar coleópteros, e outro que pode dedicar 4000 horas a secretariar o Poder local lá do sítio. Em contra partida, noutro país, talvez no centro de Africa, haverá em proporção uns seis cavalheiros que dispõem cada um de 4000 ou mais horas para dormir debaixo da acácia e perseguir o esquivo antílope.
Reparam no que isto significa?
Nos termos do exemplo, hipotético; um país (o nosso!) tem uma medicina, digamos, apressada; um nível medíocre de coleccionismo de coleópteros, e uma administração local um pouco atamancada; o outro país terá uma medicina presumivelmente cuidada, colecções magnificas de coleópteros, e excelentes contas locais; o terceiro país medicina é coisa que praticamente não terá, comerá os seus coleópteros, e no caso pior, comerá até quem quiser armar-se em poder local.
Como exercício, o Leitor alargue este exemplo ao conjunto das actividades nacionais, e compreenderá a minha teoria geral do desenvolvimento, que deixa as de Perroux, Myrdal, Baran e toda essa gente a milhas.
O Capital Nacional de Tempo varia portanto com o volume da população, e a sua produtividade com o nível de utilização do tempo. O resultado é o Tempo Nacional Bruto (TNB). Há portanto países pequenos altamente desenvolvidos (e sem aço nem petróleo) mas com um elevado TNB, e outros com muitos recursos naturais, grande extensão, e pequeno TNB, (e fome).
Os esforços para aumentar a produtividade do tempo e em consequência aumentar o TNB chamam-se tecnocraticamente «alfabetização», «I & D», «educação permanente» etc. mas dão resultados lentos, por isso é que as desigualdades Norte-Sul e essa treta toda continuam a acentuar-se e tudo isto ainda vai dar raia e acabar mal.
Portanto, para sairmos da nossa faixa de semi-desenvolvimento é preciso aumentar a exploração do «recurso-tempo» — fazendo com que haja mais eficaz conversão de tempo útil (menos cafés na Baixa; menos telenovelas, supressão de discursos de tomada de posse, casas de fado e espectáculos rock; camas mais desconfortáveis), por um número maior de pessoas (atraso da idade da reforma, emprego compulsivo mesmo não remunerado, mais cedo; aumento da natalidade; pluriemprego encorajado). Passaremos então pela crise do petróleo com um sorrido nos lábios e capitalismo ou socialismo tanto faz desde que se aumente o TNB.
Que não haja ilusões, porém. O desenvolvimento possível não é ilimitado! E definido pelo horizonte-tempo total (pessoas x tempo «útil» utilizado). Mas a Finlândia pelo menos está ao nosso alcance, ou a Áustria.
Tenho que começar a desenvolver isto, e escrever um livro ou dois.
Convinha-me receber o prémio Nobel da Economia não mais tarde do que 1983.
