segunda-feira, 2 de março de 1981

Ministeriável, eu?

Que situação! Convidado. Até já estava mesmo à espera de o ser, porque os que valem alguma coisa estão todos a esquivar-se. Os que andam à babugem, por ali, a fazer-se ao piso, à espera de abichar um cargo, esses, são mais do que as mães, mas percebo muito bem o presidente que não os quer para nada. Galarim, é o que eles querem. É o nome e o prestígio do cargo. Competência, nicles. Devoção ao bem comum, nicles. Uma corja.
Sempre a mesma coisa, sempre.
Para ocupar cargos até vendem a alma, se for preciso. Cambada de falhados. Não foram capazes de ser nada no seu trabalho, na sua vida cívica e então viram-se para isto, para o Poder, para o mando.
«Ó glória de mandar, ó vã qualquer coisa (que não me lembra)», como dizia o Bocage, ou o outro desses.
 
Agora é que se lembraram de mim, não é? Para deitar remendos na situação que criaram. As finanças, por causa do que foi preciso fazer para contentar a malta, estão como se sabe. O descontentamento é mais do que muito e então agora, depois da eleição do outro presidente: da outra lista (ao contrário do que a gente esperava), há muita gentinha que se vai sentir mais afoita para protestar.
 
Agora, o que é que querem?
Impor-se à força, lá porque os nossos estão em maioria na assembleia? Isso era antigamente - agora vai ser difícil...

O que é que devo fazer? Sim, porque isto é uma situação tramada, de consciência. Eu cá, posições de força, até vai contra a minha maneira de ser e mesmo contra a razão que motivou a minha inscrição no grupo. Democracia! Uma pessoa tem convicções, tem moral, ou não tem! Se as tem, tem também de as defender, mesmo contra os interesses temporários do seu grupo e muito já eu cedi em o apoiar até aqui.
O seu grupo! O seu grupo! Eu sei lá já se este é o «meu» grupo... Isto está tão confuso: agora, estes que estão no meu grupo são uns que antes não me mereciam confiança nenhuma mas mesmo nenhuma! Com aqueles antecedentes!... Só de olhar para as caras deles... e sabendo como eu sei de que é que eles andam atrás...
 
Por um lado chateia-me não aceitar o convite, porque até acho o gajo bom rapaz, fino, portou-se bem noutros tempos difíceis, é bom de trabalhar com ele e tal e coisa e, enfim, somos amigos; o que não sei é se ele vai ter pulso para aguentar isto, porque isto vai estar áspero, lá isso vai.
Mas quê?
Para a Educação e Cultura, com os problemas que tem havido com os professores?
A área dos Sociais, com as reclamações todas que se avizinham?
As Finanças, então, era o que faltava! Quem as fez que as pague! Era mesmo eu que ia agora ficar com o amargo de ter que tomar as medidas que eles não quiseram tomar, à espera de passarem as eleições e serem outros a ficar com o odioso!
Ainda se fosse as Obras, ainda vá que não vá, porque é uma coisa que pelo menos sempre deixa uns resultados à vista e como é coisa vagarosa dá sempre para deitar as culpas para cima da indústria da construção civil, dos preços do material, da falta de mão-de-obra, etc.

Não, decididamente, não aceito. Não aceito qualquer lugar na direcção do «Clube Recreativo e Cultural os Fixes Beneficentes de Campolide».

Agora que o presidente da mesa da assembleia é quem é e não se pode contestar a eleição; que os professores do curso nocturno não querem dar aula aos putos pelo preço que se tinha combinado: agora, que se gastou a massa toda com as festas e o passeio a Palmela para arranjar votos e o baile também, que ainda por cima foi aquela porcaria e agora vai ser preciso aumentar as quotas (e os sócios até vão dar pulos!); que as obras do balneário estão paradas porque o da estância já não fia mais ladrilho nem azulejos; agora que a ideia que havia de fazer uma assembleia para mudar os estatutos se foi à viola com a eleição deste presidente da mesa; que a assistência está que nem pensos nem uma seringa já há no posto: é agora, não é? Que me vêm convidar para a direcção!
 
«Ministeriável» dizem eles, como dizem agora nos jornais.
 
Ministeriável, ora toma! Toma!
Vou desmentir e é já!