Corre aí agora na TV uma série chamada «Dallas», que merece grandes reflexões sobre muito do que significa. Há quem já as tenha feito sobre o que é grave; eu contento-me com algo de secundário, mas importante - os cabelos e os dentes. Que cabelos, que dentuças, meus amigos! Dá que pensar: uma série chamada «Lisboa» ou «Évora» nunca apresentaria aquilo! E só por ai se provaria uma das superioridades do sistema de livre iniciativa, subsídios de oil-depletion, pecuária intensiva assistida por helicóptero, piscinas aquecidas e jeeps cromados, sobre o nosso sistema da reforma agrária e das nacionalizações que só dá cabelos ralos e algumas peladas.
Mas não é esse o aspecto subtil a que me quero referir.
O facto é que o código visual que nestas séries distingue os bons dos maus, não o descobri senão agora; não é, como de costume, os maus andarem de escuro, terem tiques e rirem sardonicamente com dentes cariados, e os bons andarem de claro, serem simpáticos e de bons dentes. Aqui, o código é o da cabeleira - o bom velho patriarca, o bom filho, a boa menina, etc. distinguem-se dos falsos da fita porque estes tendem a usar o cabelo à inglesa curto, ou são carecas. Isto, repare-se, é significativo! Anos atrás o cabelo comprido, lá como cá, era mal visto e subversivo. O pelo abundante era sinal de contrapoder (olha os «hippies»...). A autoridade revia-se e afirmava-se na calva ou nos poucos cabelos puxados para trás à escova, lustrosos: acompanhados de um eventual dente de ouro e pança em colete escuro, era sinal de ministro ou certamente de banqueiro. (É por isso que a imagem de Carter, dos Kennedy, e de Reagan soam sempre tão a choco entre nós europeus - parecem maus actores velhos a representar figuras de jovens actores a representar papéis de políticos velhos).
A testa que preside ao nosso actual Governo retira grande parte da sua credibilidade desse facto (e sabe-o! Tanto que eliminou rapidamente uns centímetros de farripa toleráveis no seio da maioria, mas inaceitáveis numa certa eminência de poder). Alinhou assim a imagem pela CEE conservadora onde a única cabeleira farfalhuda é a da srª Thatcher, que no entanto a compensa com um tranquilizante dentinho torto. (Ocorre-me agora que, quando se sabe o significado da palavra «Thatcher» e se pensa que o chanceler do Tesouro do anterior governo tory era Barber, aparece a nova luz a política monetarista do Reino Unido...)
Mas o mais grave de tido passa-se em Espanha.
Vimos todos pela televisão e pelos jornais as «fronhas» dos militares envolvidos no que (até agora!...) se viu do golpe de Estado: tisnados, de grande bigodaça e grande dente brilhante.
Uns tipos com ar de figurantes fugidos de uma récita da «Carmen», umas espécies de generais Alcazar e Tapioca (do Tin-Tin, quem não conhece?), à solta, e a comandar divisões blindadas!
Deixam bigodes desses à frente «de los Civiles» (civiles! que amarga ironia...) e depois espantam-se.
De que é que estavam à espera?
Democratizar el ejercito, ali, para mim, começaria com sabão e navalha de barba — e o Rei não viu isso a tempo.
Por estas e outras – e compreendendo muito bem o que de desrespeitoso há nesta minha afirmação, de que peço antecipadamente desculpa — eu, políticos, agora, passo a fazer-lhes como os ciganos fazem aos cavalos na feira:
— Ver-lhes primeiro a pelagem e os dentes.


