Existem certos maneirismos
profissionais, certos «tiques», que acabam por se tornar irritantes a quem os
observa, parecendo naturais a quem os pratica.
Por exemplo: o uso peculiar do
verbo «Fazer», por médicos e enfermeiros.
Um médico dir-me-á:
«Vejo que tem estado a fazer uma
febre alta. O que é que tem feito? Fez aspirina? Agora vai fazer umas análises
e faz um tempo de cama».
E eu responder-lhe-ei:
«Não, meu caro doutor! Não. Não
fiz febre— tive febre. Não fiz aspirina — «tomei» aspirina. Não vou fazer umas
análises — «vão-me ser feitas» umas análises. Não vou fazer tempo de cama — vou
«estar» um tempo de cama!», e ele olhar-me-á surpreendido. Não estenderá. No
seu «patois» característico aquele verbo já mudou de sentido, entrando num
código algo lorpa e amaneirado — uma semântica sui-generis que empobrece, não
enriquece, a fala usual. Acho eu. Isto é, acho eu que não é mais pedante
procurar falar simples do que usar um código parrana e pseudotécnico.
Mas metendo a mãozita na
consciência, devo dizer que outras profissões que conheço melhor também têm os
seus maneirismozitos bem irritantes: uma gaguez mental reveladora, «lapsos»
mentais muito denunciadores...
Os dos arquitectos são visuais —
o modo de expressão de esta laboriosa e útil classe profissional não é
privilegiadamente a palavra, mas sim projectos e obras. Cada projecto, meus
caros.
O saudoso Keil do Amaral, num
livro sobre a arquitectura de Lisboa, tem um capítulo delicioso sobre a época
das «senhoras deitadas sobre as portas», aquela época em que Lisboa foi
inundada de baixos-relevos representando umas jovens um bocado aflitas para
caber entre a verga da porta do prédio e a sacada do primeiro andar, reclinadas
em fundo de “marmorite”. Que época! Desconfio que havia escultores que já
tinham daquilo em stock, com medidas standard, para os prédios de pato...
Um tique que está ainda longe de
acabar é o do chamado «canto de baixo». Como consequência do uso intensivo de
estruturas portica-das, sobram sempre umas enfadonhas empenas rectangulares cegas,
estúpidas. A gente olha para aquilo no estirador, olha, olha, e resolve-se.
Zás! Infalível. Um baixo-relevo no canto de baixo, para disfarçar:
É mais um tique que denuncia
pobreza e insuficiência na concepção arquitectónica.
Outro «tique» que prolifera por
todo o Mundo e portanto também por cá, é a «polazinha escultórica» junto das
torres. Grandes edifícios lineares, duros, utilitários e altos (os «queridos»
daquilo a que esses passarões do Portoghesi e do Jencks chamam maldosamente o
«estilo internacional»), tendem a segregar junto à base (ou no átrio, se não
houver espaço fora...) um mostrengozito típico: o arquitecto manda aviar ao
escultor algo que tenha as formas mais livres e contorcidas possíveis, para
desviar a atenção da secura e rigidez do edifício. Mal, evidentemente, porque
só as acentua...
Umas chapas atormentadas, uns
blocos mais ou menos disformes, umas construções de arames e caldeiraria que
por aí se veem, são das coisas «menos» interessantes da moderna escultura, e
disfarçam mal o ar comprometido e chateado de «obrigação» para esfolar umas
massas, a que o escultor se submeteu (mas que nunca confessará, claro!)
Procure por aí, leitor, e sem
esforço encontrará várias destas formas de gaguez arquitectónica...



