sábado, 28 de março de 1981

Maneirismos

Existem certos maneirismos profissionais, certos «tiques», que acabam por se tornar irritantes a quem os observa, parecendo naturais a quem os pratica.


Por exemplo: o uso peculiar do verbo «Fazer», por médicos e enfermeiros.
Um médico dir-me-á:
«Vejo que tem estado a fazer uma febre alta. O que é que tem feito? Fez aspirina? Agora vai fazer umas análises e faz um tempo de cama».
E eu responder-lhe-ei:
«Não, meu caro doutor! Não. Não fiz febre— tive febre. Não fiz aspirina — «tomei» aspirina. Não vou fazer umas análises — «vão-me ser feitas» umas análises. Não vou fazer tempo de cama — vou «estar» um tempo de cama!», e ele olhar-me-á surpreendido. Não estenderá. No seu «patois» característico aquele verbo já mudou de sentido, entrando num código algo lorpa e amaneirado — uma semântica sui-generis que empobrece, não enriquece, a fala usual. Acho eu. Isto é, acho eu que não é mais pedante procurar falar simples do que usar um código parrana e pseudotécnico.
 
Mas metendo a mãozita na consciência, devo dizer que outras profissões que conheço melhor também têm os seus maneirismozitos bem irritantes: uma gaguez mental reveladora, «lapsos» mentais muito denunciadores...
 
Os dos arquitectos são visuais — o modo de expressão de esta laboriosa e útil classe profissional não é privilegiadamente a palavra, mas sim projectos e obras. Cada projecto, meus caros.
O saudoso Keil do Amaral, num livro sobre a arquitectura de Lisboa, tem um capítulo delicioso sobre a época das «senhoras deitadas sobre as portas», aquela época em que Lisboa foi inundada de baixos-relevos representando umas jovens um bocado aflitas para caber entre a verga da porta do prédio e a sacada do primeiro andar, reclinadas em fundo de “marmorite”. Que época! Desconfio que havia escultores que já tinham daquilo em stock, com medidas standard, para os prédios de pato...
 

Um tique que está ainda longe de acabar é o do chamado «canto de baixo». Como consequência do uso intensivo de estruturas portica-das, sobram sempre umas enfadonhas empenas rectangulares cegas, estúpidas. A gente olha para aquilo no estirador, olha, olha, e resolve-se. Zás! Infalível. Um baixo-relevo no canto de baixo, para disfarçar:
É mais um tique que denuncia pobreza e insuficiência na concepção arquitectónica.
Outro «tique» que prolifera por todo o Mundo e portanto também por cá, é a «polazinha escultórica» junto das torres. Grandes edifícios lineares, duros, utilitários e altos (os «queridos» daquilo a que esses passarões do Portoghesi e do Jencks chamam maldosamente o «estilo internacional»), tendem a segregar junto à base (ou no átrio, se não houver espaço fora...) um mostrengozito típico: o arquitecto manda aviar ao escultor algo que tenha as formas mais livres e contorcidas possíveis, para desviar a atenção da secura e rigidez do edifício. Mal, evidentemente, porque só as acentua...
 
 
Umas chapas atormentadas, uns blocos mais ou menos disformes, umas construções de arames e caldeiraria que por aí se veem, são das coisas «menos» interessantes da moderna escultura, e disfarçam mal o ar comprometido e chateado de «obrigação» para esfolar umas massas, a que o escultor se submeteu (mas que nunca confessará, claro!)
 
Procure por aí, leitor, e sem esforço encontrará várias destas formas de gaguez arquitectónica...