Não é a que pode ser apresentada
por Maria Leonor, no Ritz, a moda a que me refiro. Refiro-me àquela moda que
não é registada nas revistas, não é comentada em desfiles e passagens, não é assinada
por grandes nomes internacionais, mas é, no entanto, a que vai marcando
gerações de jovens trabalhadores (e marginais...) desta cidade. Moda parrana,
moda malandra. Moda que está para a de Dior ou de Nino Cerrutti como o Fordeco
pintado de riscas amarelas com uma boneca espanhola está para o Ferrari, ou a
Lurdinhas da mercearia está para a Marisa Berenson.
Ocorreu-me, ao tentar explicar a
um filho meu como andavam vestidas as pessoas antes de haver «jeans»,
«T-shirts» e «pronto-a-vestir» (hipótese inimaginável para ele; pré-história
vestimentar), que não conheço registos adequados de como é que a malta se tem
enfarpelado por aí, desde que me conheço, em Lisboa. Falei nisto a várias
pessoas da minha idade, e verifiquei que não tinham pensado nisto, nunca. Roupa
é roupa, moda é moda, adquire-se, esquece-se, a novidade surpreende e irrita: o
passado não!
Mas a curta história da moda
malandra que podemos recordar por ter conhecido, é também um «património» a
conservar — e se alguém não achar que é, atiro-lhe para cima com tanta erudição
possível e existente, que se calará logo. Bastaria ter visto a magnífica
exposição municipal sobre o «Trajo popular em Lisboa», em 1979, para ver que o séc.
XX quase não está documentado, e o nosso tempo, não está de todo. O Museu do
Traje não tem ainda tratado, ou pelo menos exposto, este segmento menor, mas significativo,
da forma da malta se apresentar por aí.
Proponho-me fazer uma série de
quatro artiguinhos, apontando alguns aspectos, tiques, ridículos e pormenores,
que avivarão as memórias dos mais velhos, e abrirão os olhos a alguns mais
novos... Aí pelo fim da guerra, no tempo do «swing», do Clipper, do Passatempo
da APA no Eden, um gajo e uma miúda tinham esta silhueta:
Mas no horizonte desenha-se já a
figura que vai dominar a época seguinte: a «flausina». Fica para a próxima.
A moda de Lisboa
A referência cine da «flausina»
é a BB dos primeiros tempos.
O estilo era uma preciosidade: o
cabelo formava um «melão» tanto mais apreciado quanto mais alto fosse (em
França chamava-se «je sais tout» pela fabulosa capacidade craniana que
inculcava...); as saias da «flausina» formavam um pião, suportado por saias de
baixo engomadas — ao subir para o eléctrico ou nas escadas do metropolitano, a
«flausina» mostrava, inevitavelmente, as calcinhas (foi uma grande época para
os «voyeurs» senis!). Os sapatos das «flausinas» de bairro eram característicos
— a indústria ainda só tinha inventado os tacões de agulha, forrados, e as
calçadas de Lisboa encarregavam-se de esfolar o forro, dando-lhes um ar de flor
de onde surgia uma ponta luzidia de aço! Era além de mais uma arma terrível:
uma «flausina» enfurecida brandindo um sapato com a ominosa ponta em riste,
fazia hesitar os mais valentões, mas isso não era conhecido na cidade chique...
O sapato tinha uma biqueira afilada, mas, como ficava oca, tomava rapidamente
um ar engelhado muito característico.
E o matulão da «flausina»?
Esse usa um casaco indecentemente
curto, com uma rachinha atrás muito pequena, que lhe dá um ar de rabo de
insecto, e o cabelo curto, formando uma franja ou pastinha sobre a testa. O
corte malandro dos casacos é característico: um jaquetão que aperta a barriga
como uma cinta, formando o peito um papo atlético...
«Cha-cha-cha», baiões e mambo,
dança a «flausina».
Ele era um «pipi» (ó pipi, toma
lá grão!). Por esta altura começa a dizer-se de uma coisa boa ou grande que é
«bestial» nasce e exacerba-se o tique «pá»; o locutor Artur Agostinho adquire o
hábito de chamar «simpáticos» aos espectadores (constituindo assim a única relíquia
viva deste «estilo»... A referência cine é Betty Grable. A música é Glenn
Miller e Carmen Miranda. Os concurso de «swing» no lago da Feira Popular só os
avós dos de agora, à Travolta.
Chega para situar o estilo. Na
próxima, será Eddie Constantine a dominar o estilo dos mecos.
Acabados os «pipis» aí pelos
primeiros anos da década de 50 (em Lisboa! no Porto parece que dura o estilo
sempre um pouco mais, e é mais exagerado...) aparece outra silhueta — «à Eddíe
Constantine», com casaco muito largo, sem cintura, calças muito estreitas em
baixo e largas em cima de modo a dar um efeito «de harmónio» junto ao pé, o nó
da gravata enorme e nunca apertado (para distinguir do «pipi», que o usava minúsculo
e apertadíssimo!) e o colarinho entreaberto. O estilo procurado era entre
aborrecido e ameaçador: andar arrastado, ar de estar sempre pronto a esmurrar
um hipotético «gangster» marselhês, beber uma inexistente garrafa de «whisky» à
moda do Lemmy Caution, e abraçar uma «boneca» («une pepée bien roulée»). E «pepées
bien roulés» havia! À dúzia! Sempre torneadas numa
saia incrivelmente apertada, com um cinto largo absurdamente apertado, as
Dominiques Wilms dos bairros estavam prontas a ser as «mômes» dos gangsters dos
seus sonhos (coitados, aprendizes ou terceiros oficiais, ou ajudantes da farmácia...)
Depois, Audrey Hepburn fez as
«Férias em Roma» — e por todo o Mundo proliferaram as cabeças de cabelos
curtos, saias de imensa roda e sapatas «ballerinas». As Audreys Hepburns de
Campolide, da Graça e do Alto do Pina, gorduchas, de grande pata esborrachando
as «ballerinas», faziam charme aos príncipes romanos cá do sítio. Dado Ruspoli
podia dominar Capri pela elegância; mas tinha as suas réplicas nas férias da
Trafaria ou em Algés: camisa aberta até ao umbigo, cordão com rnedalhinha, gola
da camisa levantada em bico, atrás.
Este é um estilo e uma época
dominada pela Itália: a referência cine é Lollobrigida, trauteia-se o baião da
«Ana» e «Three Coins in the Fountain».
A mini-saia atingiu os bairros
sem chegar aos extremos a que chegou a cidade chique, curiosamente. A sua
variante mais erótica, o fugaz «hot-pant», quase não se viu nos bairros, a não
ser usado por tipas realmente chungas — mas os cabelos em abóbora, esses sim, floresceram.
Eles, os matulões, em compensação,
levaram as bandas do casaco, as calças em boca de sino, os ombros raquíticos e
em bico, até aos mais belos e ridículos extremos. (A voz de Paulo de Carvalho
chegava a todo o lado, mas a sua imagem na Televisão também, e de que maneira!)
Mas seria sempre um estilo
incompatível com a mini-saia, que começava a despontar em Carnaby Street. A
entrada do estilo da mini-saia, nos bairros, não é já feita pelo efeito-demonstração
do cinema e dos figurinos: estes são os anos da implantação do pronto-a-vestir
nas lojecas locais. Ver-se-á, na próxima tirada desta saga da farpela, a
mini-saia.
Os «hippies» e o «flower power»
não chegaram cá significativamente: os movimentos anti- Vietname e
«ban-the-bomb» não tiveram forma vestimentar aqui. A guerra colonial, de que se
acompanhou, na forma de vestir? Porquê? Que pensa, leitor?
Não foi só para que relembre a
forma de vestir da malta do seu tempo, leitor ou leitora de 50, 40 ou 30 anos
(e metendo a mãozinha na consciência, seja tolerante para com as figuras que
fazem os seus filhos), que escrevi estas notas sumárias e caricaturais...
Por estes anos dos fins da década
de 50 e primeira parte da de 60, aparece o que julgo ser a única moda feminina verdadeiramente
nascida em Portugal, desde o bioco na corte do séc. XVIII: o uso da «samarra» ribatejana,
cinzenta, com gola de raposa, e um lenço posto à moda saloia (não de outra)
sobre a cabeça. Desde a duquesa até à caixeira, todas as jovens usavam este
traje de Inverno. Chegava a parecer um uniforme. E, no seu género modesto e igualitário,
era, sem dúvida, bonito...
O traje citadino malandro,
réplica atrasada e exagerada da moda cosmopolita, é um bom termómetro ou
indicador dos conflitos declarados numa sociedade urbana desenraizada, tanto como
o trajo popular, folclórico, etnográfico, representava a cristalização de conflitos
latentes numa sociedade fechada e estratificada. Explodido este estado latente,
e relegado o traje tradicional para os museus ou para a falácia dos ranchos
folclóricos, é importante saber interpretar o significado das flutuações do
modo de vestir do citadino (e do rural sob influência citadina), tanto como
saber interpretar o seu discorrer ex-preso.
Isso não se pode fazer em curtos
apontamentos de jornal, mas algumas pistas ficaram lançadas, ainda que
escondidas. Boa caçada!






