sexta-feira, 3 de abril de 1981

A moda em Lisboa

Não é a que pode ser apresentada por Maria Leonor, no Ritz, a moda a que me refiro. Refiro-me àquela moda que não é registada nas revistas, não é comentada em desfiles e passagens, não é assinada por grandes nomes internacionais, mas é, no entanto, a que vai marcando gerações de jovens trabalhadores (e marginais...) desta cidade. Moda parrana, moda malandra. Moda que está para a de Dior ou de Nino Cerrutti como o Fordeco pintado de riscas amarelas com uma boneca espanhola está para o Ferrari, ou a Lurdinhas da mercearia está para a Marisa Berenson.
 
Ocorreu-me, ao tentar explicar a um filho meu como andavam vestidas as pessoas antes de haver «jeans», «T-shirts» e «pronto-a-vestir» (hipótese inimaginável para ele; pré-história vestimentar), que não conheço registos adequados de como é que a malta se tem enfarpelado por aí, desde que me conheço, em Lisboa. Falei nisto a várias pessoas da minha idade, e verifiquei que não tinham pensado nisto, nunca. Roupa é roupa, moda é moda, adquire-se, esquece-se, a novidade surpreende e irrita: o passado não!
Mas a curta história da moda malandra que podemos recordar por ter conhecido, é também um «património» a conservar — e se alguém não achar que é, atiro-lhe para cima com tanta erudição possível e existente, que se calará logo. Bastaria ter visto a magnífica exposição municipal sobre o «Trajo popular em Lisboa», em 1979, para ver que o séc. XX quase não está documentado, e o nosso tempo, não está de todo. O Museu do Traje não tem ainda tratado, ou pelo menos exposto, este segmento menor, mas significativo, da forma da malta se apresentar por aí.
 
Proponho-me fazer uma série de quatro artiguinhos, apontando alguns aspectos, tiques, ridículos e pormenores, que avivarão as memórias dos mais velhos, e abrirão os olhos a alguns mais novos... Aí pelo fim da guerra, no tempo do «swing», do Clipper, do Passatempo da APA no Eden, um gajo e uma miúda tinham esta silhueta:
 
 
Mas no horizonte desenha-se já a figura que vai dominar a época seguinte: a «flausina». Fica para a próxima.
 
A moda de Lisboa
 
A referência cine da «flausina» é a BB dos primeiros tempos.
O estilo era uma preciosidade: o cabelo formava um «melão» tanto mais apreciado quanto mais alto fosse (em França chamava-se «je sais tout» pela fabulosa capacidade craniana que inculcava...); as saias da «flausina» formavam um pião, suportado por saias de baixo engomadas — ao subir para o eléctrico ou nas escadas do metropolitano, a «flausina» mostrava, inevitavelmente, as calcinhas (foi uma grande época para os «voyeurs» senis!). Os sapatos das «flausinas» de bairro eram característicos — a indústria ainda só tinha inventado os tacões de agulha, forrados, e as calçadas de Lisboa encarregavam-se de esfolar o forro, dando-lhes um ar de flor de onde surgia uma ponta luzidia de aço! Era além de mais uma arma terrível: uma «flausina» enfurecida brandindo um sapato com a ominosa ponta em riste, fazia hesitar os mais valentões, mas isso não era conhecido na cidade chique... O sapato tinha uma biqueira afilada, mas, como ficava oca, tomava rapidamente um ar engelhado muito característico.
E o matulão da «flausina»?
Esse usa um casaco indecentemente curto, com uma rachinha atrás muito pequena, que lhe dá um ar de rabo de insecto, e o cabelo curto, formando uma franja ou pastinha sobre a testa. O corte malandro dos casacos é característico: um jaquetão que aperta a barriga como uma cinta, formando o peito um papo atlético...
«Cha-cha-cha», baiões e mambo, dança a «flausina».
Ele era um «pipi» (ó pipi, toma lá grão!). Por esta altura começa a dizer-se de uma coisa boa ou grande que é «bestial» nasce e exacerba-se o tique «pá»; o locutor Artur Agostinho adquire o hábito de chamar «simpáticos» aos espectadores (constituindo assim a única relíquia viva deste «estilo»... A referência cine é Betty Grable. A música é Glenn Miller e Carmen Miranda. Os concurso de «swing» no lago da Feira Popular só os avós dos de agora, à Travolta.
Chega para situar o estilo. Na próxima, será Eddie Constantine a dominar o estilo dos mecos.
 
 
Acabados os «pipis» aí pelos primeiros anos da década de 50 (em Lisboa! no Porto parece que dura o estilo sempre um pouco mais, e é mais exagerado...) aparece outra silhueta — «à Eddíe Constantine», com casaco muito largo, sem cintura, calças muito estreitas em baixo e largas em cima de modo a dar um efeito «de harmónio» junto ao pé, o nó da gravata enorme e nunca apertado (para distinguir do «pipi», que o usava minúsculo e apertadíssimo!) e o colarinho entreaberto. O estilo procurado era entre aborrecido e ameaçador: andar arrastado, ar de estar sempre pronto a esmurrar um hipotético «gangster» marselhês, beber uma inexistente garrafa de «whisky» à moda do Lemmy Caution, e abraçar uma «boneca» («une pepée bien roulée»). E «pepées bien roulés» havia! À dúzia! Sempre torneadas numa saia incrivelmente apertada, com um cinto largo absurdamente apertado, as Dominiques Wilms dos bairros estavam prontas a ser as «mômes» dos gangsters dos seus sonhos (coitados, aprendizes ou terceiros oficiais, ou ajudantes da farmácia...)
 
 
Depois, Audrey Hepburn fez as «Férias em Roma» — e por todo o Mundo proliferaram as cabeças de cabelos curtos, saias de imensa roda e sapatas «ballerinas». As Audreys Hepburns de Campolide, da Graça e do Alto do Pina, gorduchas, de grande pata esborrachando as «ballerinas», faziam charme aos príncipes romanos cá do sítio. Dado Ruspoli podia dominar Capri pela elegância; mas tinha as suas réplicas nas férias da Trafaria ou em Algés: camisa aberta até ao umbigo, cordão com rnedalhinha, gola da camisa levantada em bico, atrás.
Este é um estilo e uma época dominada pela Itália: a referência cine é Lollobrigida, trauteia-se o baião da «Ana» e «Three Coins in the Fountain».
 
 
A mini-saia atingiu os bairros sem chegar aos extremos a que chegou a cidade chique, curiosamente. A sua variante mais erótica, o fugaz «hot-pant», quase não se viu nos bairros, a não ser usado por tipas realmente chungas — mas os cabelos em abóbora, esses sim, floresceram.
Eles, os matulões, em compensação, levaram as bandas do casaco, as calças em boca de sino, os ombros raquíticos e em bico, até aos mais belos e ridículos extremos. (A voz de Paulo de Carvalho chegava a todo o lado, mas a sua imagem na Televisão também, e de que maneira!)
Mas seria sempre um estilo incompatível com a mini-saia, que começava a despontar em Carnaby Street. A entrada do estilo da mini-saia, nos bairros, não é já feita pelo efeito-demonstração do cinema e dos figurinos: estes são os anos da implantação do pronto-a-vestir nas lojecas locais. Ver-se-á, na próxima tirada desta saga da farpela, a mini-saia.
Os «hippies» e o «flower power» não chegaram cá significativamente: os movimentos anti- Vietname e «ban-the-bomb» não tiveram forma vestimentar aqui. A guerra colonial, de que se acompanhou, na forma de vestir? Porquê? Que pensa, leitor?
 
Não foi só para que relembre a forma de vestir da malta do seu tempo, leitor ou leitora de 50, 40 ou 30 anos (e metendo a mãozinha na consciência, seja tolerante para com as figuras que fazem os seus filhos), que escrevi estas notas sumárias e caricaturais...
 
 
Por estes anos dos fins da década de 50 e primeira parte da de 60, aparece o que julgo ser a única moda feminina verdadeiramente nascida em Portugal, desde o bioco na corte do séc. XVIII: o uso da «samarra» ribatejana, cinzenta, com gola de raposa, e um lenço posto à moda saloia (não de outra) sobre a cabeça. Desde a duquesa até à caixeira, todas as jovens usavam este traje de Inverno. Chegava a parecer um uniforme. E, no seu género modesto e igualitário, era, sem dúvida, bonito...
O traje citadino malandro, réplica atrasada e exagerada da moda cosmopolita, é um bom termómetro ou indicador dos conflitos declarados numa sociedade urbana desenraizada, tanto como o trajo popular, folclórico, etnográfico, representava a cristalização de conflitos latentes numa sociedade fechada e estratificada. Explodido este estado latente, e relegado o traje tradicional para os museus ou para a falácia dos ranchos folclóricos, é importante saber interpretar o significado das flutuações do modo de vestir do citadino (e do rural sob influência citadina), tanto como saber interpretar o seu discorrer ex-preso.
 
Isso não se pode fazer em curtos apontamentos de jornal, mas algumas pistas ficaram lançadas, ainda que escondidas. Boa caçada!