segunda-feira, 20 de abril de 1981

Estatísticas Oh! As estatísticas

Um ávido leitor de estatísticas e números, como eu, mesmo se não tiver que se servir delas profissionalmente, acaba por ler nas entrelinhas.
Estatísticas são uma coisa gira. Chata e enganadora, mas gira. Falsas como o diabo! Um velho professor dizia que as estatísticas são como os fatos de banho biquíni: o que revelam é sugestivo, mas o que escondem é essencial».
 
Falo nisto movido por umas estatísticas sobre Lisboa que ando a estudar, e que me levam a considerar quanto são impenetráveis certos acervos de números que, no entanto, traduzem realidades bem patentes — um dia falarei neles.
 
Mas o que é mais reinadio é a estatística dos jornalistas (dos especializados, claro), que tem que pôr as coisas em termos que se entendam. Todos conhecemos o estilo: «O que a Administração da Energia nos EU gastou nos últimos quatro anos e meio só em investigação, é equivalente a dois anos e sete meses do rendimento nacional português», ou «o valor da produção de três semanas dos poços de petróleo da localidade siberiana de Krasnitogorsk dava para realizar dois terços do Plano de Rega do Vale do Degebe», ou coisas assim (estas inventei-as eu, evidentemente). O cidadão leitor comum, que não sabe quanto é o Rendimento Nacional, e muito menos quanto vale o petróleo de Krasnitogorsk (se existir tal lugar e nele houvesse porventura petróleo, o que não vem para o caso), conclui apenas, como de costume «EhaaEhl Isto é mesmo um Pais de caca!... Hein! Quatro anos e meio daquilo dos americanos! Formidável! Vejam lá!»
Eis quanto vale, e para que serve, a estatística jornalística, da tal...
 
Mas a sua forma mais subtil refere-se agora à CEE, esse mito onírico, esse burro com asas económico.
Isto, quem tiver privança com estatísticas, não deixará de notar.
Antes, os nossos termos de comparação (próprios de um Império que se estendia, não é? do Minho até Timor) eram com o que se usa agora chamar 3° Mundo.
«Estamos 7 pontos acima do Gabão e 5 pontos acima de Nicarágua, no que respeita ao volume de reedição dos clássicos» — e o portuga, culto, rejubilava «Abaixo de nós, em gripe infantil, o Sudão, o Paraguai e a Costa do Marfim», e o portuga sentia-se saudável etc (A Grécia e a Jugoslávia, para certas coisas, serviam as vezes também de indicadores da nossa supremacia pontual, de grande OCDE, mas isso já lá vai. Foi tempo!)
Agora, agora olhamos estatisticamente para cima, e a situação é outra:
«O nosso consumo per capita de bisnagas de vaselina é apenas um terço da média dos países da CEE». «A proporção de fito-micropatologistas por mil habitantes em Portugal é ridícula em relação aos países do Mercado Comum, para não talar na densidade de criptotensologistas, que é francamente catastrófica», etc, e o portuga amocha, desalentado.
Assim são as estatísticas.
 
Nada (ou pouco) mudou aqui. Estamos na mesma, (ou quase), estatisticamente.
 
 
O que mudou foram os termos de comparação. São outros, e refletem-se até na fala corrente: depois das duras realidades dos «bidonbvilles» de Champigny e das werke do Ruhr, já não se diz «o trabalho é bom para o preto». Os sonhos imperiais e o racismo da avozinha esvaziaram-se com a inflação, a crise energética, o desemprego e a emigração, os blocos geoestratégicos e as multinacionais.
 
As estatísticas agora, parecem as mesmas, mas são outras. Outras.