sábado, 17 de dezembro de 1983

Os custos da Campolidade

Vejo que agora, num momento em que se afirma o poder local e se busca a real desconcentração e descentralização, tais grandes intenções começam, na prática, por tentar sacar mais umas massazinhas ao conjunto do País. Chamam-se então os custos da situação: — ele são os custos da insularidade, ele são os custos da meridionalidade, os custos da setentrionalidade, os custos da interioridade, os custos da Moralidade, os custos da ruralidade, tudo.
Isto é: começam por dizer «a nossa região (ou a nossa ilha, ou o nosso concelho) é riquíssima de potencialidades, sem ela este país não é nada, sozinhos éramos capazes de valer mais do que vocês todos — portanto passem para cá subsídios e facilidades para podermos ir vivendo!...», e não se contentam em sentar-se à mesa do Orçamento; se puderem levam até bocados da mesa, pés e tudo, lá para a província... Alguma coisa não está bem em tudo isto.
 
Vejo também que o Abecasis não tem tido o senso de chamar, como antes se fez, pelos reais e demonstráveis custos da «capitalidade» de Lisboa — mas então vou eu reclamar aqui uma parte importante desses custos: os custos da campolidade.
 
Campolide, onde nasci, vivo e espero morrer, é um importantíssimo bairro de Lisboa, que regimes e governos sucessivos têm sistematicamente ignorado. Vejamos:
— Já no reinado de D. Afonso III (há documentos...) eram afamadas as vinhas de Campolide e a pinguinha que aqui se fazia. Que é delas agora? Onde estão os subsídios à vitivinicultura de Campolide? Onde está, sequer, o sítio para plantar uma vinhazita? É claro que as facilidades e o apoio vão todos para essas regiões demarcadas do Norte, para o Dão, para o Douro, para o Ribatejo — os custos da campolidade são enormes, hoje, para quem quiser fazer mesmo uma modesta água-pé da parreira do quintal. Aqui, ou o Governo subsidia, ou há barulho!
 — Com a cobertura do caneiro de Alcântara, Campolide viu frustradas as suas legítimas aspirações a ter acesso direto ao mar e no entanto a sua produção metalo-mecânica e a sua alfaiataria são, de longe, muito mais significativas do que as da ilha do Corvo, do Pico, do Porto Santo e dessa miuçalha toda, à qual o que não falta é mar. Queremos saídas para o mar (e só por bom gosto não falaremos do corredor de Dantzig, ou também porque as pessoas já se esqueceram do que era...). Em alternativa, redução nos impostos de exportação de Campolide. Ou um aeroporto. Se não houver espaço para um aeroporto — tal como para as vinhas — queremos um heliporto ali na praceta da R. Cons° Fernando de Sousa. Já!
— O 15 vem sempre cheio de Benfica para o Cais do Sodré. É sina geográfica de Campolide ser um lugar de passagem, com o consequente agravamento dos custos da Campolide. Ou o Governo toma providências e partem daqui autocarros directos para todas as zonas da cidade, ou há molho!
— Os mestres que construíram o Aqueduto e deram o nome ilustre à Calçada dos Mestres, foram o núcleo da mais avançada tecnologia da sua época. Porque é que então o Laboratório Nacional de Engenharia Civil foi posto num sítio parvo e sem tradições, ali para o Pote d'Água? E o LNETI, agora? Queremos de novo uma universidade tecnológica em Campolide, para compensar os nossos filhos pelos custos da campolidade. Até o Algarve e a Covilhã já têm universidades! Então o que vem a ser isto?
 
Se não formos atendidos, retiraremos o nosso apoio e solidariedade ao Governo central.
Avisamos!
Ah! É verdade! - E temos alternativas!...