sábado, 10 de dezembro de 1983

O sexo dos anjos

Perpassa neste momento por Lisboa uma certa preocupação literária com o sexo dos anjos. Diz-se que também em Bizâncio este problema era discutido, enquanto fora de muralhas, os bárbaros se preparavam para dar cabo da cidade. Mas era outra coisa. Naquele tempo a preocupação era teológica e retórica. Agora é poética e psicológica, e quanto a bárbaros estão já por aí por todo o lado há que tempos.
 
Mas tudo é interessante, sob muitos aspectos.
 
Por exemplo, mais do que quanto ao sexo dos anjos, interessei-me por outro aspecto da sua anatomia — as asas! Na ausência de um esterno em forma de quilha como o das aves, como é que elas funcionam? Onde se prendem os músculos? Como se articulam os ossinhos da asa com os do resto do esqueleto? Dediquei-me a desenhar cuidadosamente o que seria um esqueleto de anjo e digo-lhes que a articulação do número da asa às ligações escapulares é muito difícil; é praticamente inviável, e isso leva-me a desconfiar da existência de anjos destes, com asas. Só vendo um!
O problema torna-se mais complicado ainda se se der a merecida atenção a S. Tomás de Aquino (ver «Summa Theológica») para quem os anjos, sendo desprovidos de matéria, são apenas puras essências e se hierarquizam pelas suas diferenças essenciais visto que, como puras essências só assim se podem diferenciar. Portanto estes anjos que por ai vemos pintados e em estampas, de roupão branco e asas de pombo-correio, são espúrios. Falsos. São-no tanto como anjos andróginos, como anjos machos, ou até como «anjas» — e aqui cabe dizer que a arte tem proposto à nossa contemplação, bem pouco mística, algumas anjas extremamente sensuais, boazonas e voluptuosas, espécie de candidatas e um muito profano título de «Miss Paraíso» ou «Miss Sétimo Céu».
 
 
O «Eros» ou menino nuzinho e alado simbolizando o amor (mas o amor «erótico», note-se; não o «amor-amizade», o «agapê» que era mais bem simbolizado por um tacho com comida...) foi incorporado pelo cristianismo primitivo como figuração dos puros espíritos, puras essências que servem a Deus e O adoram. Passaram assim, com as asinhas (mas sem as setas da versão latina «Cupido»!) para uma figuração sentimental e decorativa na imaginária religiosa, e isso deu lugar a equívocos e saladas de muito mau gosto, e ainda dá, constantemente.
O anjo é, etimologicamente, o embaixador, o puro espírito incorpóreo que traz a mensagem— nesse sentido é uma espécie de antepassado das telecomunicações, e eu, como funcionário dos CTT (ainda que requisitado para outro lado) não posso deixar de ser sensível a essa imagem mental. De certa maneira, é «da casa»...
 
Agora isso do «sexo dos anjos», agora não.
Não, pelo menos com essa expressão.
Na actual sociedade permissiva, mergulhados como estamos em literatura lasciva, publicidade erótica e cinema cheio de cenas picantes, o «sexo dos anjos» não pode deixar de evocar imediatamente imagens de paixão sensual, corpos entrelaçados arfantes e suados, langores, espasmos e paroxismos de prazer. Evoca títulos de filmes do Capitólio e do Olímpia (estou já a imaginar «Anjos e Anjas em Delírio», «Deita-te naquela nuvem», «Frenesi Angélico», «Anjas viciosas», «Asas brancas e Bocas em fogo», etc.).
 
Ora, os anjos não têm corpo. Nem sexo, portanto.
Então sosseguemos S. Tomás de Aquino.