Perpassa neste momento por Lisboa
uma certa preocupação literária com o sexo dos anjos. Diz-se que também em Bizâncio
este problema era discutido, enquanto fora de muralhas, os bárbaros se
preparavam para dar cabo da cidade. Mas era outra coisa. Naquele tempo a
preocupação era teológica e retórica. Agora é poética e psicológica, e quanto a
bárbaros estão já por aí por todo o lado há que tempos.
Mas tudo é interessante, sob
muitos aspectos.
Por exemplo, mais do que quanto
ao sexo dos anjos, interessei-me por outro aspecto da sua anatomia — as asas!
Na ausência de um esterno em forma de quilha como o das aves, como é que elas
funcionam? Onde se prendem os músculos? Como se articulam os ossinhos da asa
com os do resto do esqueleto? Dediquei-me a desenhar cuidadosamente o que seria
um esqueleto de anjo e digo-lhes que a articulação do número da asa às ligações
escapulares é muito difícil; é praticamente inviável, e isso leva-me a
desconfiar da existência de anjos destes, com asas. Só vendo um!
O problema torna-se mais
complicado ainda se se der a merecida atenção a S. Tomás de Aquino (ver «Summa
Theológica») para quem os anjos, sendo desprovidos de matéria, são apenas puras
essências e se hierarquizam pelas suas diferenças essenciais visto que, como
puras essências só assim se podem diferenciar. Portanto estes anjos que por ai
vemos pintados e em estampas, de roupão branco e asas de pombo-correio, são
espúrios. Falsos. São-no tanto como anjos andróginos, como anjos machos, ou até
como «anjas» — e aqui cabe dizer que a arte tem proposto à nossa contemplação, bem
pouco mística, algumas anjas extremamente sensuais, boazonas e voluptuosas,
espécie de candidatas e um muito profano título de «Miss Paraíso» ou «Miss
Sétimo Céu».
O «Eros» ou menino nuzinho e
alado simbolizando o amor (mas o amor «erótico», note-se; não o «amor-amizade»,
o «agapê» que era mais bem simbolizado por um tacho com comida...) foi
incorporado pelo cristianismo primitivo como figuração dos puros espíritos,
puras essências que servem a Deus e O adoram. Passaram assim, com as asinhas
(mas sem as setas da versão latina «Cupido»!) para uma figuração sentimental e
decorativa na imaginária religiosa, e isso deu lugar a equívocos e saladas de
muito mau gosto, e ainda dá, constantemente.
O anjo é, etimologicamente, o
embaixador, o puro espírito incorpóreo que traz a mensagem— nesse sentido é uma
espécie de antepassado das telecomunicações, e eu, como funcionário dos CTT
(ainda que requisitado para outro lado) não posso deixar de ser sensível a essa
imagem mental. De certa maneira, é «da casa»...
Agora isso do «sexo dos anjos»,
agora não.
Não, pelo menos com essa
expressão.
Na actual sociedade permissiva,
mergulhados como estamos em literatura lasciva, publicidade erótica e cinema
cheio de cenas picantes, o «sexo dos anjos» não pode deixar de evocar
imediatamente imagens de paixão sensual, corpos entrelaçados arfantes e suados,
langores, espasmos e paroxismos de prazer. Evoca títulos de filmes do Capitólio
e do Olímpia (estou já a imaginar «Anjos e Anjas em Delírio», «Deita-te naquela
nuvem», «Frenesi Angélico», «Anjas viciosas», «Asas brancas e Bocas em fogo»,
etc.).
Ora, os anjos não têm corpo. Nem
sexo, portanto.
Então sosseguemos S. Tomás de
Aquino.

