quarta-feira, 30 de novembro de 1983

EPCP

Assiste-se, neste momento, a uma abertura de certos sectores de actividade à iniciativa privada. A Banca, por exemplo. O debate anda aceso em torno dos princípios (e é sempre bom defender os princípios!) se bem que, na prática, o que está em causa é o seu funcionamento — e eu, à paisana e basbaque como sou, nunca vi grande diferença entre a banca nacionalizada e a antiga, privada.
Mas sou pelos princípios. Os principiozinhos.
Assim, e manifestamente contra «l'esprit de ces temps» venho aqui defender a nacionalização de uma actividade que até agora tem estado (et pour cause...) nas mais privadas das mãos...
E, no entanto, é manifestamente um serviço público.
Refiro-me ao contrabando.
É um ilícito. Por agora.
 
Mas isso de ser um ilícito não significa forçosamente que seja um mal intolerável. Bem pior é o vício do tabaco (vício horroroso em que me atolo, confesso!), e que no entanto é uma belíssima fonte de receita para o Estado — e lembrem-se da Questão dos Tabacos e do fim da Monarquia...
Portanto, puritanos ofendidos com esta minha ideia «vade retro!» ou então digam ao Ernâni Lopes que acabe com o rendimento do tabaquinho!
Hipocrisias, não!
 
E a minha ideia é a seguinte; que nem sequer é, no seu género, original, desde que li, num jornal colombiano, um senador (!) defender a necessidade de nacionalizar o contrabando de cocaína e marijuana que não só, no estado clandestino em que lá está, furta ao Estado uma das suas maiores fontes de receita, como cria uma casta de ricos corruptos e poderosos:
A minha ideia é esta — nacionalizar o contrabando. Criar a Empresa Pública «Contrabando de Portugal», encarregada de assegurar o fornecimento de artigos variados e baratos à população portuguesa.
 
Qual a «rationale» deste projecto magnífico?
Simples análise sistemática. O Estado, quer implementar uma política de baixa de preços, ao mesmo tempo que tem que aceitar o desarmamento alfandegário. Está portanto a deixar uma parte importantíssima da sua política aos elementos itinerantes da raça «calé» nas feiras, e a certas firmas de Import-Export só com endereço na posta-restante; — nem uma nem outras dão garantias de fidelidade aos superiores interesses do Estado, e pior do que isso, empocham o diferencial de lucros sobre os quais nem pagam impostos, era o que faltava.
Portanto: se o Estado se substituir a eles, empocha os lucros, os impostos em falta, e fornece à população produtos concorrenciais obrigando o sector convencional a baixar os preços. A isto, nem o CDS pode ter nada dizer — é a pura lógica da concorrência! Nem os socialistas de toda a pena: — passa-se tudo sob a tutela pública.
 
Um Estado que se afirma pluralista na Constituição não pode recusar ser dual na economia, que diabo!
Portanto, forme-se a EPCP, que ameaçará a iniciativa privada nas suas pretensões a lucros imoderados, e dará largos proventos ao erário, permitindo até a Ernâni retirar os 2,8.
Gestores e quadros não faltarão, e de todos os quadrantes políticos (o que facilitará a tarefa ao Campos e ao Capucho): conheço gente competentíssima ali para Campo Maior, Marvão, Estas, etc., e em Lisboa, é à bicha! No Porto não sei, mas haverá práticos de confiança, para diretores-gerais, como é do costume, com certeza. E em Trás-os-Montes e no Minho.
Aos mais estudiosos sugiro que estudem esta minha proposta em termos da adesão à CEE, ao Anexo P, aos «prélevements» e isso tudo.
 
E digam-me depois a sincera opinião...