segunda-feira, 28 de novembro de 1983

Buracos nas ruas

O lisboeta vai pelo passeio, envolto na chuva miudinha, patinhando na lama fina que cobre a calçada, abrigado pelo guarda-chuva. Passa um carro e Plaf! a água que se acumula na cova do pavimento encharca-o de água castanha com laivos de óleo. O lisboeta que vai no carro apanha um solavanco, treme pelo semieixo e pela jante. Barafustam. Um e o outro. Com razão. Mas terão que se habituar — a sua razão confronta-se com realidades que a ultrapassam, e que, melhor ou pior, terão de aceitar até ao ponto em que a sua razão esteja em condições concretas de as modificar.
Barafustar e protestar é sempre necessário (cada vez mais necessário!) mas deve-se fazê-lo com conhecimento de causa — e reparo que num repente achei aqui uma bela súmula de tudo o que se entende por acção cívica!...
 
Os buracos das ruas! Que desastre. Que vergonha. Que incómodo. Como é que eles (os míticos ELES a quem tudo se pode assacar...) não resolvem isto?
As ruas de Lisboa, como as de tantas outras povoações, foram inicialmente construídas como simples trilhas de terra compactada pelo uso histórico e depois guarnecidas com qualquer revestimento — usualmente a calçada de pedra. O que era perfeitamente satisfatório para a passagem de carroças, carros de bois, coches, galeras e trens. Mas depois abriram-se para a instalação de canalizações e cabos; esgotos, primeiro, seguidos de água, gás, electricidade e telefones. As ruas, portanto, são terra revolvida, instável, furada, cheia de quinquilharia sortida lá no fundo. Quando um destes serviços tem uma avaria local, abre-se um buraco, conserta-se e tapa-se outra vez; a terra revolvida e mal compactada de novo é um convite a novas falhas de outra das redes; e lá aparece outra brigada a esburacar, reparar e tapar. O peão irrita-se: não poderiam fazer tudo ao mesmo tempo e consertar tudo de uma vez só? Infelizmente, não se pode conseguir que os telefones, a água, o esgoto, o gás, a sinalização, se estraguem todos disciplinadamente ao mesmo tempo e no mesmo sítio... Ou o fazem em sítios diferentes, ou em sequência, pela razão atrás apontada. É bera, mas é assim, e não há nada a fazer, quando se tem uma complexa rede de traçados antigos e descoordenados...
 
Entretanto vieram os motores: os automóveis, os camiões, os autocarros...
As ruas, que eram catitas para as carroças e trens, rebentam sob a tonelagem dos camiões e autocarros. Um só camião bem carregado pode rebentar de vez e numa única passagem um pavimento que duraria ou durou séculos sujeito apenas às carroças e seges. Cede então, e fende. Vêm as chuvas, e a água empoça, fluidificando a terra subjacente que fica ainda mais deformável sob a acção do próximo autocarro ou camioneta; e aumenta o volume da água retida etc. e o resultado vê-se!
 
Mas então, porque é que, no tempo seco, não se trata disso? Diz o lisboeta, carregadinho de razão. O que o lisboeta em questão talvez não saiba é que a área total de pavimentos das ruas de Lisboa diariamente submetidos à pancada de um trânsito intenso, é maior do que a totalidade — e ouça bem! A totalidade da área de pavimentos das estradas nacionais confiadas à respectiva Junta para conservação, e na maioria das quais, em comparação com as ruas de Lisboa, passa um trânsito do «lá vai um», como costuma dizer-se...
 
Custa a crer, não é, leitor?
 
Assim, o Município (e aqui deixemo-nos de coisas, tanto faz das esquerdas como das direitas, dos extremos ou do centro!) se quisesse reconstruir completamente e convenientemente, com fundações adequadas e robustas, camadas de desgaste sólidas e duradouras, drenagens perfeitas, etc., só as vias por onde passa a maior parte do trânsito pesado desta cidade do Tejo, teria que consagrar-lhe coisa como um ano, pelo menos, da totalidade do seu orçamento. Quer dizer: fechava-se a cidade, para obras, despedia-se («Lay-Off»?) o pessoal municipal durante um ano, enfim, íamos todos morar por exemplo para Santarém durante esse tempo. Ao voltar, teríamos as principais artérias (mas só essas...) em condições!
 
Não estou, infelizmente, a brincar nem a exagerar: e certos funcionários da Câmara dirão até que estaria a ser optimista quanto a ser apenas um ano do orçamento...
 
Leitor: se sabe o custo (porque talvez já tenha pedido um orçamento) de forrar com uma passadeira nova mesmo modesta o corredor de sua casa, imagine o custo do metro quadrado de um revestimento asfáltico espesso e bem aplicado, na sua rua; sobre um enrocamento profundo, coberto de «tout-venant» e finos bem compactados. E 100 m de rua? E um quilómetro de rua? E lancis sólidos? E drenagens?
 
Leitor, faça um exercício salutar: pergunte ao vereador que elegeu, ou a outro qualquer (uma vez eleitos, são vereadores de toda a cidade...), pergunte-lhe pelas contas da cidade. Pergunte-lhe pelos custos unitários da reparação dos pavimentos. Olhe, e já agora, pergunte-lhe pelos outros custos todos. Pergunte-lhe. É um direito seu; e também é bom para o vereador — obriga-o a não se esquecer dos problemas da gestão citadina!
 
É a sua cidade. Entenda-a. Estude-a.
Exija — mas estude primeiro.
 
E afaste-se para o interior dos passeios quando vir chegar um automóvel, para não ficar encharcado...