Numa entrevista dada a «O Jornal»
(11/11/83) o ministro Jaime Gama afirmou que a posição de Portugal no assunto
da invasão de Granada era «moderadamente clara».
Jaime Gama fala com facilidade,
argúcia e correcção pouco vulgares nos nossos políticos, por isso (e admitindo
que não tenha havido erro de transcrição pelo jornal) achei chocante aquela
expressão.
Achei-a chocante porque me
pareceu, da leitura da entrevista, que a ideia de Jaime Gama (com a qual
concordará ou não quem quiser) é diversa do que as palavras exprimem; e se não
é, mais chocante ainda... Sobretudo, revelam um modo verbalmente diplomático de
eufemizar e velar declarações, bem pouco saudáveis.
Parece-me evidente que o que o
ministro quis dizer foi que a posição de Portugal fora «claramente moderada»,
isto é: à face de todo o Mundo, limpidamente, indubitavelmente, foi uma posição
moderada. Isso, acho louvável e digno. Tal como o afirmou, significa que foi um
assunto «moderadamente claro» isto é: não muito claro, ou pouco claro, ou
equívoco, nebuloso. Isso, não me parece louvável, nem motivo de vanglória ou
explicação — e recuso-me a entender que Gama assim o entenda. (Alguns, malevolamente,
dirão que foi um «lapsus» freudiano!)
Ora bem. Repare-se no perigo que
constitui um tal tipo de comutação verbal: e vou dar alguns exemplos – exemplos
hipotéticos, o mais hipotéticos possível! Nada de enganos! São apenas uma
suposição, um exercício. É bom avisar, porque nos tempos que correm, não estou
para criar chatices a este jornal, nem a mim...
Vamos a supor:
— Se o ministro da Administração
Interna dissesse, de qualquer intervenção policial sobre uma multidão q qualquer,
que ela tinha sido «fortemente eficiente», isso não deveria significar que teria
sido «eficientemente forte»! Atenção às palavras!
— Se o ministro das Finanças
disser, acerca de determinada medida, que ela tem sido apenas «restritamente
sucedida», não deverá dizer que ela foi «um sucesso de restrição», ou, pior ainda
«sucessivamente restritiva»! Safa!
— Se o da Educação, por acaso,
viesse a dizer que certa decisão era «selectivamente necessária» dentro de um
leque de decisões possíveis, não poderá dizer, com indiferença, que era
«necessariamente selectiva»...
— O ministro do Mar pode ter que
dizer, acerca de qualquer assunto de navios, que «foi ao fundo da questão». Mas
terá a prudência de não dizer então, como se fosse a mesma coisa, «que a
questão foi ao fundo». Etc.
Isto, realmente, é um tema de
semântica, ou até de lógica. Um aluno espertinho do secundário, destes que
andam já a estudar Matemáticas Modernas dirá logo: ah! ah! Estão a falar de
propriedades não comutativas, olha, olha... (e escreverá ab–ba). Se começar
depois a falar em corpos e anéis abelianos, mandem-no calar.
Eu cá, mais prosaicamente, não
gostaria que estas notas fossem tomadas como qualquer habilidade manhosa para
atingir qualquer fim, «justamente pragmática», mas sim que fossem
«pragmaticamente justas».
Então, ficaria contente.
