quinta-feira, 24 de novembro de 1983

Comutatividade e ambiguidade

Numa entrevista dada a «O Jornal» (11/11/83) o ministro Jaime Gama afirmou que a posição de Portugal no assunto da invasão de Granada era «moderadamente clara».
Jaime Gama fala com facilidade, argúcia e correcção pouco vulgares nos nossos políticos, por isso (e admitindo que não tenha havido erro de transcrição pelo jornal) achei chocante aquela expressão.
Achei-a chocante porque me pareceu, da leitura da entrevista, que a ideia de Jaime Gama (com a qual concordará ou não quem quiser) é diversa do que as palavras exprimem; e se não é, mais chocante ainda... Sobretudo, revelam um modo verbalmente diplomático de eufemizar e velar declarações, bem pouco saudáveis.
Parece-me evidente que o que o ministro quis dizer foi que a posição de Portugal fora «claramente moderada», isto é: à face de todo o Mundo, limpidamente, indubitavelmente, foi uma posição moderada. Isso, acho louvável e digno. Tal como o afirmou, significa que foi um assunto «moderadamente claro» isto é: não muito claro, ou pouco claro, ou equívoco, nebuloso. Isso, não me parece louvável, nem motivo de vanglória ou explicação — e recuso-me a entender que Gama assim o entenda. (Alguns, malevolamente, dirão que foi um «lapsus» freudiano!)
 
Ora bem. Repare-se no perigo que constitui um tal tipo de comutação verbal: e vou dar alguns exemplos – exemplos hipotéticos, o mais hipotéticos possível! Nada de enganos! São apenas uma suposição, um exercício. É bom avisar, porque nos tempos que correm, não estou para criar chatices a este jornal, nem a mim...
Vamos a supor:
— Se o ministro da Administração Interna dissesse, de qualquer intervenção policial sobre uma multidão q qualquer, que ela tinha sido «fortemente eficiente», isso não deveria significar que teria sido «eficientemente forte»! Atenção às palavras!
— Se o ministro das Finanças disser, acerca de determinada medida, que ela tem sido apenas «restritamente sucedida», não deverá dizer que ela foi «um sucesso de restrição», ou, pior ainda «sucessivamente restritiva»! Safa!
— Se o da Educação, por acaso, viesse a dizer que certa decisão era «selectivamente necessária» dentro de um leque de decisões possíveis, não poderá dizer, com indiferença, que era «necessariamente selectiva»...
— O ministro do Mar pode ter que dizer, acerca de qualquer assunto de navios, que «foi ao fundo da questão». Mas terá a prudência de não dizer então, como se fosse a mesma coisa, «que a questão foi ao fundo». Etc.

Isto, realmente, é um tema de semântica, ou até de lógica. Um aluno espertinho do secundário, destes que andam já a estudar Matemáticas Modernas dirá logo: ah! ah! Estão a falar de propriedades não comutativas, olha, olha... (e escreverá ab–ba). Se começar depois a falar em corpos e anéis abelianos, mandem-no calar.
 
Eu cá, mais prosaicamente, não gostaria que estas notas fossem tomadas como qualquer habilidade manhosa para atingir qualquer fim, «justamente pragmática», mas sim que fossem «pragmaticamente justas».
Então, ficaria contente.