Se uma pessoa se sentar num dos largos desta cidade, por exemplo no Camões, tem a noção de que não são só as pessoas que dão animação aos espaços da cidade: os pombos e a passarada, cruzando os ares entre os edifícios, misturando-se com os peões nos passeios e pousando sobre as estátuas, e dá -lhes milho.
Aos pombinhos associa-se uma ideia de doçura, simpatia e mansidão. Na verdade, são bichos cruéis entre si, porcalhões e invasores. Os automobilistas sabem muito bem como as pinguitas de «tinta» branca que os pardalinhos das árvores deixam cair sobre o esmalte dos seus carros o deixam corroído - imagine-se então o que faz o equivalente produto dos pombos à pedra dos monumentos, à madeira dos parapeitos, ao ferro dos gradeamentos...
Além do mais, os columbídeos sedentarizados na cidade, vivendo em recessos de edifícios e vãos inacessíveis de coberturas raramente ou nunca limpos, acumulam e transmitem doenças; são potenciais agentes de epidemias. E estes párias da cidade nada têm a ver com os pombos-correios, atletas amorosamente criados e desveladamente tratados pelos seus fanáticos donos...
Tenho certa pena de que, na cidade de Lisboa, em cujas armas brilham dois corvos, não haja como nas cidades do centro e norte da Europa bandos crocitantes, divertidos e asseados de gralhas, «choucas» e corvos, substituindo os estúpidos pombos. Omnívoros, limpam a cidade de detritos miúdos e putrescíveis, coisa que os pombos não fazem; brincalhões e expressivos, dão uma animação aos parques e às ruas que os pombos nos seus voos sem sentido e no passo miudinho e sem destino não conseguem dar! São outros os lisboetas de bico e pena que dão alegria à cidade: pardais, evidentemente, e depois a passarada de bico mole- as toutinegras, piscos e melros e até os rouxinóis da beira d'água do Parque Eduardo VII.
Leitor, já ouviu falar no canto dos rouxinóis, de que falam os poetas, mas julgou que nunca o poderia ouvir em Lisboa? Na Lisboa do trânsito barulhento e dos prédios de especulação? Pois no Verão, em noites quentes, de madrugada, quando o ruído do trânsito e a algazarra dos últimos boémios se extingue, suba em silêncio a alameda do Parque, do lado do Ritz. Ouvirá então o excelso concerto dado por «Philomela». (Evite ser atacado por algum meliante, evidentemente, mas corra o risco: os prazeres subtis pagam-se!)
As grandes cidades modernas, com os seus parques, estão a tomar-se os verdadeiros refúgios e santuários da vida selvagem, paradoxalmente. O caçador português, em Amesterdão, tem um baque no coração quando vê passar por si e pousar nos canais um bando de patos ou de gansos bravos; com os campos neutralizados pelos pesticidas, as grandes reservas de «passeridae» são hoje as cidades, e até aqui, na nossa Lisboa ignorante da ecologia, quem escreve estas linhas, teve uma experiência inesquecível:
- Numa tarde brumosa de um Inverno recente, ao tomar um cafézinho na esplanada do lago do Campo Grande, por entre o lusco-fusco e as grandes árvores, passou, como um fantasma no seu voo silencioso e ziguezagueante a mais esquiva e difícil ave de caça, a «belle dame brune aux yeux de soie» - uma galinhola! A mítica «Scolopax rusticola», a «sombra» dos bosques silenciosos de Inverno, por entre os autocarros e os engarrafamentos da tarde!...
Ah! A vida alada da cidade é bem mais rica e variada do que a que mostram esses marginais que andam a esmolar milho no Rossio...

