Em artigo anterior
apresentaram-se algumas notas caracterizadoras da «civilização Toyota», a qual,
para evitar melindres vários se designará aqui simplesmente por «civilização T»
ou «estilo T».
Ora, uma observação atenta sugere
que a gente que constitui o suporte da civilização T, se encontra espessamente
concentrada na formação politica menos conservadora das duas maiores que
integram a AD, e que a pressão que exerce é particularmente sentida sobre a que
constitui a outra formação mais conservadora. Nesta segunda concentra-se
substancialmente aquela para quem o privilégio a defender é o mais importante— e
curiosamente tanto o privilégio exercido
como o privilégio submissamente aceite nos seus efeitos. Este é um problema que
o coordenador da AD não consegue superar, e que está na base de muitos
conflitos que os analistas políticos não conseguem entender.
Àquele segundo grupo quadra bem
uma certa majestade, certa afirmação de gravidade e até de compunção, uma
necessidade de pompa em certos actos (veja-se por exemplo a tomada de posse de
cargos públicos). Dir-se-ia que lhe vai com naturalidade, sem esforço, e que o «estado
de privilégio» lhe é congénito e adquirido.
A reverência, a mesura, a porta
pressurosamente mantida aberta, o sorriso; a palavra ciciada, a mistura do
sonoro timbre da voz autoritária de Cascais e da Lapa com o untuoso falar
eclesiástico nortenho, estão por ora limitados a acompanhar o fato azul-escuro
«pin-stripe» e a gravata de barras obliquas. Mas o jaquetão preso e a calça de
fantasia com sapatos de polimento estão já escovados e passados a ferro, nos
guarda-fatos, à espera.
Alguns alfaiates (classe também
particularmente sensível às modificações da «temperatura» do corpo social)
assinalam um desusado movimento no trabalho de alargar o cós de calças de
fantasia e coletes madrepérola — e atribuem isso à passagem de 6 anos sobre uma
geração que só os usava para ir aos casamentos.
A emergência portanto, no seio da
maioria AD tanto como no corpo da sociedade nacional, de um largo estrato de
gente que, não entrando ainda no nível do jaquetão e calça de fantasia, usa já
dos hábitos do privilégio que inculcam a possibilidade de administrar «porrada»
em direcção lateral segundo um reticulado. (ver topologia do «direito a dar uma
porrada», no artigo anterior), é um elemento instabilidade dramático, na nossa
sociedade.
Nas empresas, tias, partidos,
etc. a civilização T faz estragos — fortalecida pela leitura do Playboy, sabe o
que é, e pratica, a «rat-race». Cada novo elemento que deixa a cerveja com
búzios pelo whisky, a «Bola» pela GENTE, o casaco de napa do largo de S. Paulo
pelo fato inteiro da Lanalgo, as férias na Caparica por Armação de Pera, o
passe social por um Datsun Azul, a Almirante Reis por Miraflores — está apto a
tentar ser Secretário Geral do Partido, Administrador da Empresa, membro do
governo, embaixador plenipotenciário. Nada lhe está vedado, o Playboy abriu-lhe
os olhos. Dentro de pouco começará a descobrir os Davidoff, a exigir Dewar's em
vez de Chivas que é demasiadamente «nouveau-riche», os »sobretudos de Ilama, o
Bentley em vez do Rolls — e então tudo estará pedido para a direita conservadora
esmagada pelo número.
Isto é fundamental, e não o
compreender pode ser funesto.
É ai que se trava a luta no seio
da AD.
Mas se o Mundo é feito de
pequenos nadas, há outros indícios de mudança no clima político e social. Por
exemplo o comportamento das Forças Armadas, mas alto aí!, não no sentido em que
se entende esse comportamento enquanto tais, enquanto instituição encarregada
da salvaguarda da integridade da Pátria, e tal, e tudo isso, etc. Não sei nem
percebo o que se passa com os Generais e o CR, confundo as siglas dos órgãos
superiores da tropa, e não entendo as subtilezas dos discursos do Eng.º Amaro
da Costa. Tudo isso é complicado de mais para mim, e livro-me de me meter
nisso.
O comportamento das F.A. a que me
refiro é o das suas viaturas, na rua. Moro numa rua estreita que de acesso a um
quartel, agora parcialmente desactivado.
Sei melhor o estado de espirito
do Exército através da observação do uso conjugado do acelerador e da buzina,
que os melhores analistas do facto militar nacional, todos. Antes da guerra
colonial o movimento era ronceiro, para matar tempo, e os atritos entre a
população local e a tropa não iam além dos causados por alguma moça local
indevidamente apalpada por magalas bastante boçais.
Depois de 1961, a rua começou a
assistir à passagem de automóveis negros à desfilada afastando toda a gente com
toques imperiosos de buzina, levando dentro grupos de oficiais de semblante
carregado, e à passagem de torrentes de camions camuflados amolgando tudo na
rua, sem hesitação.
Os locais afastavam-se
prudentemente, porque qualquer reclamação ou protesto era violentamente
desprezada e vituperado o seu autor — havia algo de suspeita de traição em não
facilitar a passagem de um automóvel negro a buzinar estridentemente, mesmo que
passasse a horas certas com a mulher do coronel tanto ao ir como ao vir das compras.
Mas enfim, era o Exército a bater-se em terras longínquas, numa missão dolorosa,
e compreendia-se certa arrogância compensatória por parte daqueles de quem nos
diziam serem «os melhores de todos nós» (pelo menos eram os «com mais força de
todos nós» e não houvesse qualquer
dúvida).
Depois vieram os cravos que
enfeitaram os camions esverdeados, e estes passaram a andar devagarinho. Não
amolgaram mais nada a não ser por inadvertência, e logo com muitas desculpas. Não
saiam da mão, buzinavam parcimoniosamente, não voltaram a atropelar crianças à
salda da escola (3 durante a guerra colonial) e a malta local começou a pensar
que eram «tão bons como todos nós» Depois veio a bagunça, o badanal — já não
eram oficiais de sobrolho carregado, em Mercedes pretos: eram «gangs»
semifardados, a cair com os copos, brincando com os carros camuflados em
gincanas perigosas (1 criança da escola atropelada) e a população indígena
achou que eram «os piores de todos nós». Depois de Novembro de 1975 o quartel
sossegou, e acabou por ser quase desactivado.
Mas agora voltam a passar carros
à desfilada com oficiais carrancudos, e os raros camions e jipes que passam vão
a direito, imperiosamente, autoritariamente.
O que não vão é para a guerra
colonial, os soberbos guerreiros cobertos de pó e suor. Até andam em mudanças
de mobiliário e arquivos. Os locais interrogam-se agora sobre se eles são
realmente «os melhores de entre nós», e donde lhes vem agora esta pujante
afirmação de poder bruto, um «sturm und drang» que não desemboca tragicamente
no regresso de caixões e gente estropiada de olhar perdido, mas tão-somente no
transporte de colchões e bidés.
As tricas palacianas do poder
militar dizem multo pouco à gente aqui da rua, mas que algo está a mudar, isso
está, e ela sabe ler os sinais.
Há depois o perturbante enigma
dos Mercedes cinzentos. Trata-se só de Mercedes cinzentos metalizados, daqueles
mais fortes de todos, de grande cilindrada, novinhos em folha e sem um grão de
poeira. Tem a particularidade de avançar para dentro dos cruzamentos ou fazer
ultrapassagens como se toda a rua fosse do seu condutor. Este é invariavelmente
um senhor forte, de cabelo grisalho e cujo cheiro a «after-shave» é
visualizável mesmo atrás dos vidros.
O enigma reside no facto de os
automóveis Rolls, grandes Mercedes negros. Bentleys, etc. se apresentarem
conduzidos com certa majestade (a-fortiori se tiverem cortinas), mas dentro das
regras.
Uma explicação fraca que foi
avançada para este fenómeno é a de que os «chauffeurs» fardados, sejam eles de
embaixada, ou de magnata, não estão para ter chatices com incidentes de rua
ainda que se marimbem para os custos de oficina — ao passo que os Mercedes
cinzentos metalizados conduzidos por senhores de sobretudo de pelo de camelo e
rodeados de uma visível aura de «after-shave» são perigosos em caso de
amolgadela: não só são caríssimas as reparações, com o tipo que vai lá dentro
tem advogados em barda para ganhar sempre as questões com as companhias de
seguros.
A tranquila confiança, a intangibilidade com
que um Mercedes cinzento metalizado atravessa um cruzamento em diagonal, sem
alterar o seu ritmo, sem uma hesitação, silencioso e macio, causando travagens
«in extremis» aos táxis e restantes
carripanas da maralha, são hoje um importante testemunho de uma «temperatura»
social.
O condutor de automovelzeco a
armar ao sport, cheio da quinquilharia que se compra em boutiques de automóvel
(faróis, espelhos, jantes exóticas, aparelhinhos com mostradores, toda a
quantidade de trampas inventadas com o propósito meritório de extorquir
dinheiro a estes cultores do chamado desporto mecânico — verdadeiros paladinos
da civilização T!) — esse condutor, dizia eu, lançar-se-á da mesma maneira num
cruzamento ou ultrapassagem disparatada. Mas fá-lo-á movido por um ardor íntimo,
uma mística do pneu guinchando, uma ascese do escape aberto; dentro da sua
cabeça existem umas letras cabalísticas VROOM! que pungem como um «tinitus» obsidiante
— isso não tem nada a ver com o potente e silencioso Mercedes metalizado,
cinzento.
Com este, o que acontece é que é em si mesmo a interpelação
permanente e implícita «Você sabe com quem é que está a falar?», mas agora
atirada a quem viesse a ter qualquer tentação de amolgar o cinzento metalizado,
ou sequer riscá-lo.
Ora esta primorosa e pura
manifestação do privilégio, tem muito que se lhe diga.
E por demais evidente que se
trata de um aproximar-se, por parte de privados mal definidos, da esplêndida
interpelação conservadora «Você sabe quem
vai aqui?», lançada pelo automóvel escuro, avançando com imponência e «chauffeurs»,
por entre o trânsito poeirento, com as cortinas semicerradas.
Eu tenho a certeza de que há
muitos jovens — ou relativamente jovens — elementos em postos elevados da vida
pública, para quem o móbil verdadeiro não é a ambição de deitar as mãos às
alavancas do mando ou do controlo do poder — é o gozo dos momentos sublimes em
que o privilégio é patente, indiscutível e atirado à cara da multidão. O intenso
êxtase que se Iê nas faces que estão para lá dos vidros levemente fumados e das
cortinas entreabertas é apenas indicador do maravilhoso e ambicionado espasmo
que deve ser para eles a mesma situação mas com uma bandeirinha no carro e
batedores de moto com sirene. (Também aqui o privilegio é transitivo — a seguir
viria a «motorcade» à americana, depois o desfile pelo Mall com os Coldstream
Guards à frente) De resto, é fácil observá-los de perto quando param nos sinais
vermelhos — leitor, não hesite, pode ir colar o nariz aos vidros, fazer gaifonas,
olhar lá para dentro, que eles não sentem. Nunca reparou que eles nunca olham
para as pessoas que vão na rua?
Ora o facto é que a interpelação «Você
sabe quem eu sou?», projectada pelos Mercedes cinzentos metalizados (e segundo
alguns pensadores modernos, também pelos BMW grandes, côr de bronze) está a
tornar-se demasiadamente próxima da «Você nem
queira sequer saber quem vai aqui!» projectada pelos grandes Rolls e
Armstrong-Siddeley com cortinas, negros.
Demasiadamente próxima para não
por em risco a estabilidade do segmento conservador, verdadeiramente
conservador, da sociedade portuguesa. Será um indício de que a civilização T já
está a atingir o estado de civilização M (de Mercedes, claro!) por obra da
construção civil?
Tudo Isto são pequenos nadas (os
comportamentos, entenda-se, porque chamar a um Bentley um pequeno nada seria
forte demais...), mas mostram como há uma corrida generalizada, no sentido do
privilégio que prenuncia já à distância um certo tipo de revisão constitucional.
Os fundamentos e grandes linhas gerais da revisão constitucional que estão na
mente da actual maioria parlamentar são para mim perfeitamente claros, a partir
da observação do que se passa com o inquietante problema do «chaud-et-froid de
volaile» no Tavares, a indesculpável dificuldade de arranjar travejamento de
castanho e mão-de-obra para reparar telhados em casas grandes da Beira, e o lamentável
caso do galgo que partiu a pata.
Mas isso só se ficasse para outra
vez.


