Há alguns anos — já tantos! como
o tempo passa... fui convidado por uma ilustre Senhora, casada com um conhecido
general e académico, para ilustrar um livro curiosíssimo. O livro nunca chegou
a ser feito, mas a ideia era atraente e ainda é atraente. Tratava-se de fazer o
equivalente a um manual de etiqueta fora do campo que os manuais de etiqueta
usualmente abrangem; tratava-se das pequeníssimas situações do momento a
momento, aquelas situações de todos os dias em que não se repara quase, mas que
vão formando um estado de espírito. Pequenos nadas. Para exemplo, e sem ir mais
longe: três pessoas encontram-se na rua e ficam a conversar ocupando um passeio
estreito na esquina — estão no seu direito, mais do que evidente! Mas há uma
sensibilidade que se tem ou não se tem, que foi ou não adquirida, que as deverá
impelir a não forçar os outros a sair do passeio, que obrigará a dar o jeito,
deixar passar, acomodar, facilitar a vida aos outros como um reflexo. É mesmo
um reflexo, ou uma segunda natureza, para quem tem essa sensibilidade. Não é
coisa que se ensine, através de regras. É coisa que se tem, na maneira de ser;
é aquele imponderável fluido lubrificador da vida colectiva, misto de humor e
boas maneiras que torna tolerável a vida em altas densidades populacionais — um
conjunto de pequenos nadas.
Ora eu, que não estou em
condições de manusear ou expor as grandes ideias que agitam e revolvem a vida
intelectual contemporânea; eu, que perante os titans do intelecto não me sinto
já como quando era novo, isto é, ansioso e ambicioso, mas já só espectador
interessado; eu cá, fico por um nível mais modesto — observo.
Observo os pequenos nadas que à
minha roda vão dando forma visível às transformações da sociedade e do Mundo;
observo, como guloso coleccionador do epifenómeno, cultor do efémero, limitado
apreciador do aspecto.
E faço a minha própria análise
política contemporânea, baseado nas grandes ideias, mas noutro campo menos
denso e imponente: o dos modos de andar por aí e de dizer coisas, e no
intrigante problema da camisa de seda natural, entre outros.
Repare-se: o deslocamento
político que deu a preponderância à direita conservadora nas eleições de
Dezembro tem feito correr rios de tinta, explicando-o sabiamente em termos de
economia e estratégia internacional, de psicologia das massas, de teoria da
História, de técnica maquiavélica, etc. São formidáveis análises, e acho-as
cheias de razão, todas, mesmo quando são contraditórias — eu cá, nisso, sou
benévolo e eclético. Mas a todas escapam os fundamentais problemas da gravata,
do Mercedes-Benz cinzento-metalizado, da distância respeitosa, e da velocidade
do Jeep.
Nos dias — acentuo dias — 26, 27 e 28 de Abril de 1974,
este País viveu numa euforia causada por determinado acontecimento político que
favoreceu imediatamente a floricultura dos cravos e a disponibilidade de espaço
nas prisões políticas; acontecimento que, de resto, viria a ter muitas outras e
muito mais fundas consequências.
Mas naqueles dias, teve um efeito
imediato, maravilhoso e inesquecível, à superfície: as boas maneiras
generalizaram-se — mais ainda, foram totais. Uma amolgadela num automóvel era
resolvida entre sorrisos, uma pisadela ocasional dava um abraço festivo entre
estranhos, a falta de um troco ainda que avultado dava um imediato «deixe lá,
paga depois», entre desconhecidos; uma universal bonomia resplandecia nas faces
das pessoas. (A minha ideia é a de que as pessoas, além de gratas por outras
coisas, estavam sobretudo muito aliviadas por não ter havido os massacres e
violências de há muito esperados como inevitáveis nesta ocasião esperada... mas
isso é só uma opinião superficial).
Mas foram três dias, quatro no
máximo. Cinco, vá lá, mas já duvidosamente.
A essa geral euforia, sucedeu-se
uma euforia menos geral. Para muitas pessoas, essa euforia acabou muito
depressa, porque começaram a surgir inevitáveis dificuldades. Não vou
exactamente relembrar essas dificuldades bem conhecidas, dramáticas,
inevitáveis e necessárias, cá e em África.
O que me lembro é de que, nos
dois ou três anos imediatamente subsequentes se espalhou um modo de estar e de
falar que revelava uma vontade de diminuir diferenças sociais e económicas
aparentes; uma necessidade de esconder, atenuar ou tornar menos patente o
estado de privilégio — o que deu
resultados bem caricatos: — o senhor Director-Geral deixou de usar o fato
escuro com colete para ir a despacho com o senhor Secretário de Estado, até
porque provavelmente este o receberia de paletó sport. De onde resulta que o
chefe de repartição se sentiu obrigado a usar «blue-jeans» novinhos em folha,
porque os funcionários passaram a andar com os «blue-jeans» usadinhos do
fim-de-semana e botas «à MRPP». (Esta das botas à MRPP deveria também ser
explicada, mas os leitores lembram-se do estilo...) O mesmo sucedia nos Bancos,
nas Companhias... A Rua do Ouro ao meio-dia, à saída para o almoço, era um
imenso mar de azul de ganga.
Isto não era economia
vestimentar, nem nada — atenção, nada disso! Era a «farda» simbólica, negadora
de qualquer estado de privilégio,
iminentemente mal visto. Era também uma curiosa e picante experiência de «encanaillement»
socialmente aceitável e colectivo; a gracinha de se sentir vestido «à Operário»
por quem não viu nunca um operário de perto, e os imagina como nos quadros de
revista do Parque Mayer, ou vestidos de «blue-jeans» à «cow-boy».
A própria Televisão foi marcando
a evolução política ulterior — pôde medir-se a transformação do clima político
pós-revolucionário pela progressão do traje dos locutores: camisa vulgar
desgargalada (Abril-Maio 1974); blusão «jean»; camisola sport; camisola com
colarinho «polo»; casaco sport e camisola sem gravata (1º Governo
constitucional); casaco de veludo «à artista»; «blazer» azul e «foulard» (4.°
Governo constitucional); casaco de sport com gravata; casaco assertoado.
Nenhuma necessidade de inquéritos
à opinião pública: ver o Telejornal
ou o Boletim Meteorológico (ver! não
ouvir...) permitiria conhecer exactamente o resultado das eleições. A vitória
da AD foi claramente prenunciada pelo uso do jaquetão escuro com «regimental
tie» aparecido em 1978 no 1° canal.
A partir daí, os dias da esquerda
no poder estavam contados, mas os analistas políticos são demasiadamente
inteligentes para o entender.
Porque o verdadeiro, o profundo
sentido da vitória das direitas conservadoras está na reconquista do pequeno privilégio e não das grandes
vantagens, como erradamente pensam os historiadores contemporâneos. Conhecem
demasiadas teorias, e isso pode não ser bom. Isto, leitores, é um pouco como os
pescadores do Algarve ou de Peniche — sabem pouco de batimétricas, correntes
conveccionais ascendentes, diferenciais de salinidade, gradientes de
temperatura, etc; olham para o mar, veem onde ele riça, veem cair o mascato, e
sabem onde está o peixe. A estes verdadeiros, ignorantes e eficazes praticantes
da semiologia mais requintada, o mais ténue indício, o vestígio mais fugaz não
permitem encontrar uma teoria, mas permitem encontrar peixe — e entre peixe e
teoria, eles preferem o peixe.
Ora também na nossa vida social
existem grupos socioprofissionais que desenvolveram um sentido particularmente
apurado da «temperatura» do corpo social; desenvolveram-no mais por estarem
naquela franja indecisa em que a autoridade ou o poder de agir directamente
sobre um grande número dos seus semelhantes, se tempera com a forte
probabilidade de serem agidos por um número restrito de superiores.
Estou a pensar no que ia chamar
classicamente «a laboriosa classe dos...», mas pensando melhor usarei a
expressão mais justa «a prestimosa classe dos...», que é igualmente dignificante
mas mais exacta: os guardas de polícia sem graduação, os contínuos, os
porteiros de grandes edifícios. Os hábitos vindos de outras épocas permitiam
uma clara diferenciação das atitudes — numa sociedade em que todos sabiam
claramente o seu lugar e o manifestavam inequivocamente pelo seu exterior, era
tudo muito mais fácil para estes cidadãos-funcionários, mesmo porque havia uma
certa correspondência entre o aspecto e o comportamento.
Se um cavalheiro de aspecto
irrepreensível, cabelo grisalho nas têmporas, unia indefinível aura de
autoridade, resolvia entrar, passar, permanecer nalgum lado, ou interpelar,
obter, fazer ou não fazer alguma coisa que não fosse precisamente o que estava
superiormente estabelecido (e neste «superiormente estabelecido» há todo um
mundo de significados importantes...) o citado funcionário-cidadão tinha uma
natural atitude de tolerância e até de reverência à priori. Em caso de reticência, a imortal expressão «Você sabe com
quem é que está a falar?» dita com ênfase, resolvia a questão — ele sabia logo
com que é que estava a falar e nem queria saber mais, em suma, sabia o que lhe
bastava: sabia que estava a falar com alguém através de quem lhe poderia vir,
perdoe-se-me o plebeismo, «uma porrada». (Esta é a situação que nas comédias
italianas cabe naturalmente a Vittorio Gassmann e a Alberto Sordi, e que entre
nós António Silva fazia tão bem...).
Mas perante o mesmo cavalheiro,
na mesma situação, vestido com um blusão coçado e uns Levis, as reticências
tornavam-se mais justificadas. A interpelação «Você sabe com quem é que está a
falar'?» deixava então uma real
dúvida sobre quem é que estava a falar. O agente da autoridade militarizada,
cívica, empresarial ou condominial ficava à rasca porque a «porrada» poderia
vir, de facto, mas de onde menos era esperada: saneamento se fosse um dirigente
sindical esquerdista exaltado; despedimento se fosse um director recém-nomeado
a fazer figura, diante de amigos: despromoção se fosse um capitão à paisana e
de mau humor.
A democratização do vestuário acompanhou-se da
despolarização da «porrada» vinda
clara e hierarquicamente de cima; a sua probabilidade passou a ser múltipla e
pluridireccional, o que dá mais uma pista interessante para a análise
sociológica e behaviourista dos anos de 1974 até, digamos, 1977.
Este estado de coisas era manifestamente
intolerável para a direita conservadora. Para esta é essencial que a «porrada»
seja administrada unidireccionalmente, a partir de cima, repartindo-se em
arborescência até aos estratos mais baixos. Esta topologia do «Direito a
administrar uma «porrada», segundo o qual, em cada nível da hierarquia social e
doméstica, de cada ponto se pode dar uma «porrada» apenas nos elementos dos
subconjuntos definidos em ordem descendente a partir daquele ponto, foi
admiravelmente retratado num conto militar de André Brun, conto que não foi
entendido no seu tempo como paradigma da sociedade portuguesa. Deve sê-lo
agora.
Mas o leitor arguto terá reparado
em que me referi ao direito a dar uma
«porrada». Esta precisão é importante pois o ser «um Direito» e não «uma
Obrigação» é que distinguiu a nossa organização social durante meio século — essa
distinção designou-se, por sinédoque, a «Brandura dos nossos Costumes», e torna
escorregadia qualquer definição do fascismo doméstico.
Não fosse ela, e corresponderia à
organização social dos regimes conservadores da Europa de Leste ou da América
do Sul. A estável ordem em arborescência daquele direito foi severamente
abalada em 1974, com o aparecimento daquelas operações cujo nome tem uma forte
reminiscência a obras de hidráulica municipal - os «saneamentos».
Aí, aquele direito passou a ser
mais do que direito; passou a ser a obrigação de cada um administra «porrada»
para baixo, para cima e para os lados, isto é, a arborescência transformou-se num reticulado. Esta é uma estrutura estável também, desde que seja
total, e isso é um bocado utópico.
O estado atual é que não é
estável, pois que há uma parte da estrutura em arborescência, e outra em
reticulado, o que me leva a tentar uma subtil e incisiva análise das
dificuldades que assolam ao mesmo tempo a sociedade portuguesa e a maioria AD.
Nesta, jogam-se em grande parte
no corte dos fatos de cheviote e nas gravatas de «soie sauvage». Aqui há que
fazer uma certa introdução mais larga e trabalhada, pois tudo se radica no
aparecimento do uso intensivo do pronto-a-vestir, na abundância de lojas de
decoração com móveis «estilo design» em plástico, e na venda do Playboy nas
tabacarias, em vez de ser por assinatura ou às escondidas como antes. E em mais
coisas, mas estas são as fundamentais.
Em conjunto deram como resultado
o aparecimento de uma cultura ou modo de vida, que um amigo meu, lacónico,
designa cripticamente por «civilização Toyota», mas que é bem mais do que uma referência
a determinada marca de veículos que pulula no mercado, ou nem sequer é isso: é
uma designação puramente paradigmática, abstracta. Civilização Toyota. É
perfeito. Em todo o caso, para evitar qualquer equívoco ou melindre,
designá-la-ei por «civilização T» ou «estilo T».
Analise-se.
O impulso, ou pulsão, a
reencontrar o privilégio, em grandes
números, dá evidentemente resultados frouxos — o privilégio, por natureza, é
para poucos. Sobretudo, o estado de privilégio não é absoluto; é algo de
transitivo e relativo, tal como a sua versão hedonística chamada «ter as
melhores coisas da vida».
Explico, usando um exemplo já
clássico: — um fulano, a caminho de Cannes no último modelo de Porsche, levando
ao lado uma miúda que apareceu nua na LUI, sente-se no tecto do Mundo, como
tendo acedido às melhores coisas da vida, mas só até ao momento de ser
ultrapassado por outro que vai para Juan-les-Pins com uma pequena que veio na
PENTHOUSE, guiando um Dl Tommaso; este, por sua vez, sente-se no top até
encontrar outro que vai num Maserati para Vence, com uma menina que veio na
capa da VOGUE; por sua vez este sente-se na melhor até se cruzar com outro que
já vem da sua propriedade de Vence, num Monteverdi, acompanhado por uma jovem
senhora que até recusou insistentes pedidos para aparecer na capa da VOGUE,
etc. etc. (Aqui, admito uma certa inveja pela minha parte, pois que neste
sentido, o meu horizonte do possível se situaria em ir ao Algarve num Escort a
precisar de pneus novos, às escondidas da minha mulher e com um pequena que
tivesse aparecido, digamos, no máximo, no «Modas e Bordados» — o que, além de
pouco exultante, sinto que corta irremediavelmente qualquer veleidade minha de
entrar naquela progressão).
Mas entenda-se, é este o tipo de
aumento de pressão na base da arborescência do privilégio que trama os
verdadeiros conservadores.
É óbvio.
Quantos mais se vestirem na
Lanalgo tantos mais são os que se veem empurrados para se vestir no Pestana
& Brito; quantos mais se vestirem no P & B, mais são obrigados a
vestirem-se chez Cardin; quantos mais se vestirem chez Cardin, mais são
obrigados a vestir-se no HectorPowe, e esta progressão pode ser ruinosa para os
conservadores.
Ora quem se der ao trabalho de
ver o preço de um fato em Savile Row, perceberá rapidamente o problema político
das indemnizações — o estado de privilégio é caríssimo, e a pressão da
«civilização T» cheia de dinheiro fresco, não cessa de aumentar.
Quem se veste agora com um casaco
escuro com botõezinhos dourados, não terá presente que está a usar a
macaqueação internacional da macaqueação pela classe média inglesa do «reefer
coat» que os Lords usavam para vir a terra sem ter de vestir as pomposas fardas
usadas nos seus iates, aí por 1870; nem ao usar o seu fatinho «para melhor», se
lembra de estar apenas a usar a «longue suit», espécie de traje à vontade que
custou a impor-se e só à tarde, nos clubes e salões do East End.
Entre Knightsbridge e o Alto do
Pina vai toda uma escala de manifestações exteriores do privilégio; um longo caminho
passando por toda a Europa e Américas. Mas chega agora, como manifestação da «vontade
de privilégio», a pessoas a quem ainda não assenta bem, que tem de puxar os
punhos da camisa para fora repetidamente, como um tique, esticar as bandas do
casaco demasiadamente bem passado, puxar as calças demasiadamente impecáveis ao
sentar para não fazerem joelheiras; em suma, a pessoas que não estão à vontade
dentro da armadura visível do privilégio. (Eça de Queiroz, numa «boutade»
célebre, dizia que a civilização nos fica curta nas mangas. Penso que não.
Tende a ficar comprida nas mangas e a fazer um vinco entre os ombros. Eça não
conhecia o pronto-a-vestir.)
As casas da civilização T estão
perfeitamente certas, perfeitamente de acordo. Os móveis e gadgets de formas modernaças
e incómodas como o raio, inconcebíveis produtos abastardados do que foram
iniciais esforços para apurar um «design» industrial, e hoje caíram no que os
lojistas do ramo chamam «estilo design», tal como nos anos 50 chamavam «estilo
amaricano» às imitações dos desenhos de Saarinen, Jacobsen, e Gio Ponti
(lembram-se? tudo em forma de rins e com pezinhos cónicos), estão perfeitamente
de acordo com os livros moldados com lombada a metro, o festival da canção da
TV, a enciclopédia do Reader's, o jantar no casino do Estoril ao domingo, a
revista do ACP.
E depois há o «Playboy»: a visão
estimulante de um mundo desinibido, cosmopolita, reconfortante pela autoridade
e «privilégio» que ressuma — mas acima de tudo, pelo privilégio acessível que inculca. (É por este
último aspecto que eu, se fosse do CDS no poder, proibia o «Playboy», que agora
até vem em brasileiro a 120 paus. Não pelas meninas nuas que não fazem mal
nenhum, e as do «Playboy» até não excitam ninguém. Para voyeurs há outras
publicações, essas sórdidas, mas absolutamente inócuas para os privilégios da
direita conservadora).
O imenso florescimento da
civilização T deixa os guardas de baixa graduação, os porteiros e os contínuos
absolutamente perplexos.
É demasiadamente fácil agora
fazer erros trágicos. Com a malta que não usa os aspectos exteriores do
privilégio está tudo bem, voltou à mesma, e estão em terreno conhecido (e que
não reparou já na evolução recente dos modos dos «cívicos» ao lidar com o
cidadão cinzento?). Nesta base do grafo social, restabeleceu-se a arborescência
— a «porrada» já vem só de cima, segundo o superiormente determinado. Mas nas
faixas superiores?
De entre os potenciais
distribuidores de «porrada» hierarquizada, como distinguir os verdadeiros
falsos? Como, quando o Ministro e o 1° escriturário se vestem do mesmo modo a
uma observação rápida, e usam «attaché-case» igual? Como distinguir a senhora
embaixatriz ou a senhora Generala das respectivas cabeleiras, se se vestem da
mesma boutique, e eventualmente com o mesmo modelo? Como, se dentro do
espalhafatoso e do pechisbeque, esse modelo até vai provavelmente melhor à
cabeleireira do que à Generala?
Tudo isto é grave, porque
significa que, se um estrato importante da população já entrou nos eixos e sabe
manter uma distância respeitosa (ou voltou a ser possível mantê-lo a essa
distância), há uma matilha gigantesca de candidatos ao estado de privilégio — e
pior do que isso, obtendo-o rapidamente: basta ver quanta gente da civilização
T está hoje em lugares de mando na Banca, nas grandes empresas públicas, no
Governo. (Cardumes inteiros podem ver-se, por exemplo, à noite em certos
templos privilegiados da civilização T — o lmaviz, o Apolo 70, o foyer do Star,
etc. e fontes autorizadas dizem-me que no Porto, a civilização T é pujante).

