sexta-feira, 30 de maio de 1980

A segunda morte de Martim Moniz

Querem matar outra vez o cruzado heróico.

Da primeira vez morreu entalado para permitir que de roldão entrassem por Lisboa dentro os cristãos; desta vez quer-se que morra entalado para permitir a entrada em Lisboa de outros (cristãos agora democratas, talvez?), sem espadas e cotas de malha mas cheios de contratos de financiamento e de especulações fundiárias.
O presidente da Câmara, com certa ligeireza de que já estará provavelmente arrependido, anunciou antes das eleições o propósito de tirar das gavetas os projectos existentes para a área demolida da Mouraria, e, uma vez eleito, dispôs-se a actuar a fim de realizar fundos para os seus esquemas de habitação social. Uma certa ponderação ter-lhe-ia feito pensar que, se em trinta anos as várias administrações municipais não o fizeram, isso significa que devem existir razões pesadas para tal — não é crível que só ao génio do eng. Abecasis tenha ocorrido a ideia de fazer dinheiro com aqueles terrenos expropriados. Mas, enfim, a intenção compreende-se, sobretudo se nos lembrarmos da sua peculiar convicção de que todo o Mundo é constituído por gente inteiramente obtusa, incapaz, ignorante, mandriona e desonesta, a quem resta como única chance de redenção o poder tentar abarcar a fenomenal capacidade de Abecasis, e vibrar na sua contemplação (é certo que há quem tenha abandonado já essa via de salvação por não conseguir encontrar nele essas excelências, mas como se sabe, há por aí gente muito má...).
 
Porém, mesmo assim, alguém deveria caridosamente tentar explicar-lhe algumas coisas — mas isto sem o irritar, porque apesar de certas características penosamente patentes, ainda continuo a pensar que é uma pessoa estimável.
Alguém deveria explicar-lhe:
— Que não se trata de vender em lotes um terreno como os das quintas da periferia; existem dificuldades de criação de infraestruturas (articulação com o traçado do Metropolitano, compatibilização com os colectores de esgotos, ligações viárias, fundações em terrenos problemáticos) que, em conjunto, levam rapidamente a complexidades e custos infernais — e não é coisa de que se tenha a noção passeando por ali...
— Que a criação de um conjunto considerável de equipamentos terciários exige infraestruturas de parqueamento automóvel (e logo então junto à Baixa!) que saturam volumetricamente a zona, com consequências arquitetónicas e ambientais desastrosas.
— Que os comerciantes da Baixa poderão vir a dizer ao presidente coisas muito, muito desagradáveis; tão desagradáveis que ele nem imagina, quando se aperceberem de que o que se prepara é uma potente zona comercial moderna mesmo ali ao lado (e a propósito, que pensará disto a União das Associações de Comerciantes de Lisboa, sempre tão lesta em denunciar os agravos feitos aos comerciantes instalados na Baixa lisboeta?)
— Que a eficácia marginal do capital a investir pela cidade é baixíssima, se se atender à incerteza de êxito na ocupação de uma zona de acessos saturados e fora da tendência de expansão do terciário em Lisboa. As finanças municipais dificilmente poderão suportar o encargo deste «elefante branco» sem agravamento do estado de descapitalização do Município, e sem prejuízo até das acções de realojamento que, paradoxalmente, se pretendem financiar com esta mesma manobra...
— Que os pequenos comerciantes, antigos na zona, que têm direitos adquiridos, não têm ainda sequer a noção do que os ameaça, mas quando a tiverem, podem tornar-se muito «vocais» e incómodos! A escala das operações deste género só é compatível com grandes organizações, dispondo de capitais abundantes — a arraia-miúda fica de fora, mandam-lhe ir dar uma volta...
— Que, se em determinada altura mesmo esses grandes capitais se retraírem, a cidade pode ficar com um monumental «mono» nos braços? Sabe o presidente o que aconteceu em Lon-dres com o Centre Point? Quer deixar a cidade à mercê de qualquer Harry Hyams nacional, com ou sem antecedentes na venda de carvão a retalho?
— Que a presença de um grande complexo terciário de ritmo diurno é uma violência indescritível sobre as populações circundantes, dada a sua natureza e composição (mas aqui será perder tempo, porque não é evidente que o presidente nem a maioria AD sejam sensíveis a este tipo de coisas).
 
 
É claro que por trás de tudo isto está outra coisa, que para muitos só agora começa a aparecer — o logro que constitui a chamada competência administrativa de que a AD se fazia portadora privilegiada. Nem chega a ser incompetência o que se revela, é antes uma perfeita virgindade a qualquer tipo de conhecimento de economia urbana e gestão urbana, supridas à pressa por um simulacro de gestão empresarial, inadequada, impossível de aplicar à estrutura municipal existente, mal escondendo as insuficiências atrás do «jargon» característico dos gestores que aprenderam umas coisitas nas traduções brasileiras dos manuais «teach yourself» para «executivos», americanos ávidos de êxito rápido...
Como nas grandes empresas em que a cortina de fumo da tecnocracia a vintém serve para mascarar a real insuficiência, também Lisboa é agora uma cidade governada «à unha», ao sabor do improviso e do capricho. Mas nem é ainda a altura de denunciar isto — lá para o fim do ano de 1981 a situação revelar-se-á por si só com todo o esplendor, mas a AD local nem está em condições de perceber porquê; e além do mais está demasiadamente ocupada em fomentar negócios para se preocupar com isso.
O «saque» legal de Lisboa levará depois muitos anos a sanar. Mas foi o que os eleitores quiseram, e há que respeitar a vontade democraticamente expressa, ainda que esta se mostre tardia em educar-se.
 
Ideias, ideias, agora venham as ideias!
 
É agora, perante a situação embaraçosa em que se meteu, que o vereador presidente lança entre arquitectos um concurso de ideias para o Martim Moniz. Não vou, sequer, acentuar a evidência de que estas deveriam ser prévias a qualquer formulação arquitectónica — fazê-lo, seria tirar às pessoas a volúpia de saborear o ridículo da situação... Nem vou evocar histórias que envolvam de qualquer modo a EPUL, nem outras quaisquer histórias. Tudo isso são contingências dos «remendos» e oportunismos da vida política; e é farisaísmo assacá-los à ignorância e ambição de esta ou aquela personalidade em evidência, agora ou no passado: as coisas são mesmo assim, e é preciso ser realista.
Vai portanto haver um concurso.
Vão aparecer projectos e mais projectos: os arquitectos vão ter uma oportunidade excelente de fazer os seus exercícios de estilo, e pagos, ainda por cima!
Vão aparecer projectos interessantíssimos, excelentes — e totalmente perversos porque vazios de conteúdo. Lá irão aparecer os brutalismos, os vernáculos significantes, os «revivals» críticos. Lá irão aparecer as composições «moderno comercial» (de que desenhei até algumas para ali em 1963 como vários outros fizeram, todas péssimas e felizmente rejeitadas, quando isso foi minha obrigação funcional até que dela me libertei por discordância, escrita); lá irá aparecer todo o linguajar «post-modemo» — os Kenzo Tange nacionais, os Aldo Rossi domésticos, os Philip Johnson da nossa praça, os Rogers e os Bofils portugas, quem sabe se até algum Archigramzito atrasado dez anos na escola) os lápis já estão afiados; já se estendem as topografias nos estiradores. E tudo isto é bom, tudo isto é saudável, sobretudo se forem pagos os prémios prometidos, porque disso a classe anda bem precisadinha... E depois, caramba! Não é todos os dias que aparece uma espécie de «Trou des Halles» cá na terra, com 2300 contos de prémio.
(Há nestas coisas um perigo, no entanto, que deve ser assinalado; é quando a autoridade autocrática toma tudo isto a sério, anula o concurso, e encomenda directamente a um tipo da sua confiança… Já se tem visto. Mas recuso-me a aceitar que Nuno Abecasis possa vir a descer a isso!)
Mas se Deus quiser, tudo entrará no normal, depois.
Pedro Vieira de Almeida publicará certamente uma arguta análise critica dos projectos, haverá uma exposição, algum debate na imprensa, o Ribeiro Telles ficará apoplético e discursará longa e convincentemente sobre as linhas de água, pode até esperar-se que o França faça uma deliciosa e sibilina intervenção sobre a Baixa Pombalina, no 2º Canal.
Neste aspecto do concurso, se tudo correr bem, e pagos os prémios, tudo ficará por aqui.
O importante vem depois.
Espera-se que o presidente da Câmara saiba aproveitar bem a oportunidade notável que criou, lançando este concurso que lhe permite uma diversão para ganhar tempo e salvar a face, e fazer ao menos uma coisa certa, clara e limpa a que deixe o seu nome ligado (como tanto anseia!), e não uma coisa monstruosa que venha a tornar o seu nome odiosamente apontado. Nisso, penso que devemos todos ajudá-lo, mesmo que ele nem chegue a aperceber-se...
 
Não morreu gente, não houve bombardeamentos!
 
Leitor: sabe certamente como grande número de cidades europeias devastadas pela guerra soube aproveitar as clareiras deixadas pelos bombardeamentos, criando espaços livres e equipamentos que antes eram impossíveis. Fizeram-no, depois de perder vidas sem conto, depois de agruras e sofrimentos inenarráveis.
Leitor, olhe para a Mouraria!
Leitor, olhe, mas veja, c’oa breca! Não vê o que é que tem debaixo dos olhos?
Não vê que Lisboa tem nas mãos a mesma coisa, mas obtida sem sangue, sem êxodo, sem metralha? Que as duas centenas de milhares de contos que custou, já esquecidos, já amortizados, são um preço baixíssimo para pagar o resultado de uma série de indecisões e equívocos, se desse resultado se souber tirar o melhor partido? Que invocar agora aquele custo espalhado ao longo de dezenas de anos como devendo recuperar-se contabilisticamente, pode ser a visão de um guarda-livros de província, mas é risível se for invocada por um gestor da Lisboa de hoje, a não ser por um gestor que tenha a mentalidade miudinha de um guarda-livros provinciano?
Há anos, os membros de um Congresso da Federação Internacional do Urbanismo, Habitação e Ordenamento do Território, reunido em Lisboa sob o tema da recuperação dos ambientes urbanos degradados, foram levados como turistas interessados à zona do Martim Moniz para onde então estava no auge determinada concepção. Não manifestaram senão um interesse moderado por essa concepção, e exprimiram com muita nitidez a ideia (óbvia, mas nessa altura pouco conveniente) de que o melhor a fazer ali era acomodar discretamente aquele espaço «providencial» e nada fazer de violento ou irreversível. Acompanhava-os alguém que está hoje em posição chave no sector do Planeamento Urbanístico dos serviços da CML, que aplaudiu então, com as necessárias reservas, a incómoda ideia. Espero que não se tenha esquecido. Eu não esqueci.
 
Leitor amigo, leitor lisboeta, nunca mais, mas mesmo nunca mais tenha o topete, a lata, de dizer que em Lisboa não há suficientes espaços verdes, espaços de descompressão e de equipamento social e cultural (o que é bem verdade...) — se agora não estiver disposto a lutar por esta oportunidade importantíssima, única, que os acasos das incompetências e da pequena história proporcionaram à cidade! Ou acha que devemos esperar pelos bombardeamentos de uma guerra para fazer o que fizeram Roterdão, Coventry, Munique? Quer pagar uma guerra, quando já pagou em prestações suaves os poucos resultados úteis que dela poderia obter, sem suportar-lhe os horrores?
Acondicionar aquele espaço com jardins, discretos equipamentos sociais e culturais, cuidadosas valorizações paisagísticas e ambientais é o que pode agora ser feito — agora!
Depois, pode ser tarde.
Escreva à Câmara Municipal, escreva aos seus representantes na Assembleia Municipal, aos do seu partido se tem um partido, ou a qualquer dos grupos de representantes, se não o tem. Olhe, escreva por exemplo, ao grupo de representantes da própria AD, que é majoritário e portanto com acrescida responsabilidade — isso só lhes fará bem! Escreva-lhes ao cuidado do Serviço de Apoio aos órgãos do Município — Paços do Concelho, P. de Município, 1100 Lisboa.
Mexa-se, pense, actue!
Não deixe que Martim Moniz se sacrifique de novo, e desta vez em vão. Coitado, uma vez chegou-lhe para se cobrir de glória; não deixe que se cubra agora de betão!