Querem matar outra vez o cruzado heróico.
Da primeira vez morreu entalado
para permitir que de roldão entrassem por Lisboa dentro os cristãos; desta vez quer-se
que morra entalado para permitir a entrada em Lisboa de outros (cristãos agora
democratas, talvez?), sem espadas e cotas de malha mas cheios de contratos de
financiamento e de especulações fundiárias.
O presidente da Câmara, com certa
ligeireza de que já estará provavelmente arrependido, anunciou antes das
eleições o propósito de tirar das gavetas os projectos existentes para a área
demolida da Mouraria, e, uma vez eleito, dispôs-se a actuar a fim de realizar
fundos para os seus esquemas de habitação social. Uma certa ponderação
ter-lhe-ia feito pensar que, se em trinta anos as várias administrações
municipais não o fizeram, isso significa que devem existir razões pesadas para
tal — não é crível que só ao génio do eng. Abecasis tenha ocorrido a ideia de
fazer dinheiro com aqueles terrenos expropriados. Mas, enfim, a intenção
compreende-se, sobretudo se nos lembrarmos da sua peculiar convicção de que
todo o Mundo é constituído por gente inteiramente obtusa, incapaz, ignorante,
mandriona e desonesta, a quem resta como única chance de redenção o poder
tentar abarcar a fenomenal capacidade de Abecasis, e vibrar na sua contemplação
(é certo que há quem tenha abandonado já essa via de salvação por não conseguir
encontrar nele essas excelências, mas como se sabe, há por aí gente muito
má...).
Porém, mesmo assim, alguém
deveria caridosamente tentar explicar-lhe algumas coisas — mas isto sem o
irritar, porque apesar de certas características penosamente patentes, ainda
continuo a pensar que é uma pessoa estimável.
Alguém deveria explicar-lhe:
— Que não se trata de vender em
lotes um terreno como os das quintas da periferia; existem dificuldades de
criação de infraestruturas (articulação com o traçado do Metropolitano, compatibilização
com os colectores de esgotos, ligações viárias, fundações em terrenos problemáticos)
que, em conjunto, levam rapidamente a complexidades e custos infernais — e não
é coisa de que se tenha a noção passeando por ali...
— Que a criação de um conjunto
considerável de equipamentos terciários exige infraestruturas de parqueamento
automóvel (e logo então junto à Baixa!) que saturam volumetricamente a zona,
com consequências arquitetónicas e ambientais desastrosas.
— Que os comerciantes da Baixa
poderão vir a dizer ao presidente coisas muito, muito desagradáveis; tão
desagradáveis que ele nem imagina, quando
se aperceberem de que o que se prepara é uma potente zona comercial moderna
mesmo ali ao lado (e a propósito, que pensará disto a União das Associações de
Comerciantes de Lisboa, sempre tão lesta em denunciar os agravos feitos aos comerciantes
instalados na Baixa lisboeta?)
— Que a eficácia marginal do
capital a investir pela cidade é baixíssima, se se atender à incerteza de êxito
na ocupação de uma zona de acessos saturados e fora da tendência de expansão do
terciário em Lisboa. As finanças municipais dificilmente poderão suportar o
encargo deste «elefante branco» sem agravamento do estado de descapitalização
do Município, e sem prejuízo até das acções de realojamento que, paradoxalmente,
se pretendem financiar com esta mesma manobra...
— Que os pequenos comerciantes,
antigos na zona, que têm direitos adquiridos, não têm ainda sequer a noção do
que os ameaça, mas quando a tiverem,
podem tornar-se muito «vocais» e incómodos! A escala das operações deste género
só é compatível com grandes organizações, dispondo de capitais abundantes — a arraia-miúda
fica de fora, mandam-lhe ir dar uma volta...
— Que, se em determinada altura
mesmo esses grandes capitais se retraírem, a cidade pode ficar com um
monumental «mono» nos braços? Sabe o presidente o que aconteceu em Lon-dres com
o Centre Point? Quer deixar a cidade à mercê de qualquer Harry Hyams nacional,
com ou sem antecedentes na venda de carvão a retalho?
— Que a presença de um grande
complexo terciário de ritmo diurno é
uma violência indescritível sobre as populações circundantes, dada a sua natureza
e composição (mas aqui será perder tempo, porque não é evidente que o
presidente nem a maioria AD sejam sensíveis a este tipo de coisas).
É claro que por trás de tudo isto
está outra coisa, que para muitos só agora começa a aparecer — o logro que
constitui a chamada competência administrativa de que a AD se fazia portadora
privilegiada. Nem chega a ser incompetência o que se revela, é antes uma perfeita
virgindade a qualquer tipo de conhecimento de economia urbana e gestão urbana,
supridas à pressa por um simulacro de gestão empresarial, inadequada, impossível de aplicar à estrutura
municipal existente, mal escondendo as insuficiências atrás do «jargon»
característico dos gestores que aprenderam umas coisitas nas traduções brasileiras
dos manuais «teach yourself» para «executivos», americanos ávidos de êxito
rápido...
Como nas grandes empresas em que
a cortina de fumo da tecnocracia a vintém serve para mascarar a real
insuficiência, também Lisboa é agora uma cidade governada «à unha», ao sabor do
improviso e do capricho. Mas nem é ainda a altura de denunciar isto — lá para o
fim do ano de 1981 a situação revelar-se-á por
si só com todo o esplendor, mas a AD local nem está em condições de
perceber porquê; e além do mais está demasiadamente ocupada em fomentar negócios
para se preocupar com isso.
O «saque» legal de Lisboa levará
depois muitos anos a sanar. Mas foi o que os eleitores quiseram, e há que
respeitar a vontade democraticamente expressa, ainda que esta se mostre tardia
em educar-se.
Ideias, ideias, agora venham as ideias!
É agora, perante a situação
embaraçosa em que se meteu, que o vereador presidente lança entre arquitectos um
concurso de ideias para o Martim Moniz. Não vou, sequer, acentuar a evidência
de que estas deveriam ser prévias a
qualquer formulação arquitectónica — fazê-lo, seria tirar às pessoas a volúpia
de saborear o ridículo da situação... Nem vou evocar histórias que envolvam de
qualquer modo a EPUL, nem outras quaisquer histórias. Tudo isso são contingências
dos «remendos» e oportunismos da vida política; e é farisaísmo assacá-los à
ignorância e ambição de esta ou aquela personalidade em evidência, agora ou no
passado: as coisas são mesmo assim, e é preciso ser realista.
Vai portanto haver um concurso.
Vão aparecer projectos e mais
projectos: os arquitectos vão ter uma oportunidade excelente de fazer os seus
exercícios de estilo, e pagos, ainda por cima!
Vão aparecer projectos interessantíssimos,
excelentes — e totalmente perversos porque vazios de conteúdo. Lá irão aparecer
os brutalismos, os vernáculos significantes, os «revivals» críticos. Lá irão
aparecer as composições «moderno comercial» (de que desenhei até algumas para
ali em 1963 como vários outros fizeram, todas péssimas e felizmente rejeitadas,
quando isso foi minha obrigação funcional até que dela me libertei por discordância,
escrita); lá irá aparecer todo o linguajar «post-modemo» — os Kenzo Tange nacionais,
os Aldo Rossi domésticos, os Philip Johnson da nossa praça, os Rogers e os
Bofils portugas, quem sabe se até algum Archigramzito atrasado dez anos na
escola) os lápis já estão afiados; já se estendem as topografias nos estiradores.
E tudo isto é bom, tudo isto é saudável, sobretudo se forem pagos os prémios prometidos,
porque disso a classe anda bem precisadinha... E depois, caramba! Não é todos
os dias que aparece uma espécie de «Trou des Halles» cá na terra, com 2300
contos de prémio.
(Há nestas coisas um perigo, no
entanto, que deve ser assinalado; é quando a autoridade autocrática toma tudo
isto a sério, anula o concurso, e encomenda directamente a um tipo da sua
confiança… Já se tem visto. Mas recuso-me a aceitar que Nuno Abecasis possa vir
a descer a isso!)
Mas se Deus quiser, tudo entrará
no normal, depois.
Pedro Vieira de Almeida publicará
certamente uma arguta análise critica dos projectos, haverá uma exposição,
algum debate na imprensa, o Ribeiro Telles ficará apoplético e discursará longa
e convincentemente sobre as linhas de água, pode até esperar-se que o França
faça uma deliciosa e sibilina intervenção sobre a Baixa Pombalina, no 2º Canal.
Neste aspecto do concurso, se
tudo correr bem, e pagos os prémios, tudo ficará por aqui.
O importante vem depois.
Espera-se que o presidente da
Câmara saiba aproveitar bem a oportunidade notável que criou, lançando este
concurso que lhe permite uma diversão para ganhar tempo e salvar a face, e
fazer ao menos uma coisa certa, clara e limpa a que deixe o seu nome ligado
(como tanto anseia!), e não uma coisa monstruosa que venha a tornar o seu nome
odiosamente apontado. Nisso, penso que devemos todos ajudá-lo, mesmo que ele
nem chegue a aperceber-se...
Não morreu gente, não houve bombardeamentos!
Leitor: sabe certamente como
grande número de cidades europeias devastadas pela guerra soube aproveitar as
clareiras deixadas pelos bombardeamentos, criando espaços livres e equipamentos
que antes eram impossíveis. Fizeram-no, depois de perder vidas sem conto, depois
de agruras e sofrimentos inenarráveis.
Leitor, olhe para a Mouraria!
Leitor, olhe, mas veja, c’oa breca! Não vê o que é que
tem debaixo dos olhos?
Não vê que Lisboa tem nas mãos a
mesma coisa, mas obtida sem sangue, sem êxodo, sem metralha? Que as duas
centenas de milhares de contos que custou, já esquecidos, já amortizados, são
um preço baixíssimo para pagar o resultado de uma série de indecisões e
equívocos, se desse resultado se souber tirar o melhor partido? Que invocar
agora aquele custo espalhado ao longo de dezenas de anos como devendo
recuperar-se contabilisticamente, pode ser a visão de um guarda-livros de
província, mas é risível se for invocada por um gestor da Lisboa de hoje, a não
ser por um gestor que tenha a mentalidade miudinha de um guarda-livros provinciano?
Há anos, os membros de um
Congresso da Federação Internacional do Urbanismo, Habitação e Ordenamento do Território,
reunido em Lisboa sob o tema da recuperação dos ambientes urbanos degradados,
foram levados como turistas interessados à zona do Martim Moniz para onde então
estava no auge determinada concepção. Não manifestaram senão um interesse
moderado por essa concepção, e exprimiram com muita nitidez a ideia (óbvia, mas
nessa altura pouco conveniente) de que o melhor a fazer ali era acomodar
discretamente aquele espaço «providencial» e nada fazer de violento ou
irreversível. Acompanhava-os alguém que está hoje em posição chave no sector do
Planeamento Urbanístico dos serviços da CML, que aplaudiu então, com as necessárias
reservas, a incómoda ideia. Espero que não se tenha esquecido. Eu não esqueci.
Leitor amigo, leitor lisboeta,
nunca mais, mas mesmo nunca mais tenha o topete, a lata, de dizer que em Lisboa
não há suficientes espaços verdes, espaços de descompressão e de equipamento
social e cultural (o que é bem verdade...) — se agora não estiver disposto a
lutar por esta oportunidade importantíssima, única, que os acasos das
incompetências e da pequena história proporcionaram à cidade! Ou acha que
devemos esperar pelos bombardeamentos de uma guerra para fazer o que fizeram
Roterdão, Coventry, Munique? Quer pagar uma guerra, quando já pagou em
prestações suaves os poucos resultados úteis que dela poderia obter, sem
suportar-lhe os horrores?
Acondicionar aquele espaço com
jardins, discretos equipamentos sociais e culturais, cuidadosas valorizações paisagísticas
e ambientais é o que pode agora ser feito — agora!
Depois, pode ser tarde.
Escreva à Câmara Municipal,
escreva aos seus representantes na Assembleia Municipal, aos do seu partido se
tem um partido, ou a qualquer dos grupos de representantes, se não o tem. Olhe,
escreva por exemplo, ao grupo de representantes da própria AD, que é majoritário e portanto com acrescida responsabilidade
— isso só lhes fará bem! Escreva-lhes ao cuidado do Serviço de Apoio aos órgãos
do Município — Paços do Concelho, P. de Município, 1100 Lisboa.
Mexa-se, pense, actue!
Não deixe que Martim Moniz se
sacrifique de novo, e desta vez em vão. Coitado, uma vez chegou-lhe para se
cobrir de glória; não deixe que se cubra agora de betão!

