Já tudo se escreveu sobre os aspectos
insólitos, boémios, graciosos da Lisboa noctuma e dos seus tipos. Tem, evidentemente,
o seu encanto (ainda que às vezes sobrevalorizado...)
Mas chegou uma boa ocasião para
mostrar certos aspectos da Lisboa noctuma que não tem quem os cante, porque são
chatos, obscuros, esquecidos. Pois bem, falemos dos esquecidos, dos sem graça
nenhuma, daqueles em quem ninguém repara por serem demasiadamente numerosos.
Por exemplo, dos que fazem serões.
Há uma poesia (pouca, mas há) na
Lisboa dos serões.
Serões em Lisboa não são rodas de
amigos e família em torno de um madeiro, contando histórias, acendendo o
cigarro «de enrolar» numa brasa tirada do borralho, ouvindo o vento e a chuva
lá fora.
Serões em Lisboa significam outra
coisa. Significam fechos de contas e escritas a pôr em dia; traduções a
entregar no dia seguinte; relatórios a dactilografar para entrarem no prazo do
concurso público, da tese ou do processo; matéria a empinar para o exame de
amanhã...
O que é o serão?
O Serão é a anormalidade aceite e
institucionalizada; é o sinal de um certo ritmo de vida que procura o seu tempo
e não o acha. É bem diferente o «tempo» do serão do tempo próprio dos
trabalhadores em turnos ou em regime nocturno, ou o dos boémios ou pândegos
crónicos.
Os que pela própria natureza da
ocupação trabalham sempre de noite, instalam-se na noite — a noite
torna-se-lhes familiar e com dimensão conhecida. Os pândegos, bêbados e
noctívagos instalam-se na noite fantasiosa que mal diferenciam do dia.
Ofegantes, os amorosos, suados, instalam-se na noite que lhes parece curta e
desejariam infindável. Toda uma literatura vive desta gente.
Os que fazem serão, não se
instalam na noite. Entram pela noite como quando a gente do terrunho tem de
entrar pelo mar dentro — com secreto terror e angústia. A noite para eles é
tempo emprestado pelo dia seguinte; o serão é uma hipoteca paga em sono,
cansaço, olheiras e boca a saber a papel de música.
A «cesura» no tempo lisboeta do
serão começa depois do jantar.
A primeira percepção da
«diferença» dá-se no snack-bar onde a malta que pede a conta apressadamente
porque se faz tarde para ir ao cinema, à assembleia ou à reunião sindical
acentua a inevitabilidade do trabalho que nos espera lá em cima, no atelier ou
no escritório. Às nove e meia perpassa nos restaurantes, snacks e cafés de
Lisboa um vago sentido de solidariedade entre os que não se levantam à pressa —
os que ficam ainda um bocado mais, e entreolhando-se melancolicamente e em
silêncio, veem as telas finais, o «Deve» e o «Haver, o dicionário ou a máquina
de escrever que os espera lá em cima. (Se algum, por acaso, fazendo durar um
pouco mais estes momentos, está até a ler estas linhas, com a conta já paga mas
à espera de tomar balanço para arrancar — Salvé! Amigo!).
Depois vem a hora da energia — a
rádio ligada, o estirador arrumado, o propósito de acabar depressa. Dura até à
meia-noite. A seguir vem o penoso e lento avanço até às 5 horas — os cigarros
mal fumados que se acumulam nos cinzeiros, a irritação crescente com o palrar
imbecil dos locutores que já não sabem como é que hão-de encher as horas, a
barba já crescida, os olhos que do fumo e do esforço, picam.
E então a hora em que as 120
batidas por minuto do disco-sound desacertam mais com as pulsações do coração,
mantém enervantemente acordados mas fazem errar as contas e tremer o traço do
tira-linhas. O disco-sound e o Rock são responsáveis por mais erros de técnica,
de contabilidade, de tradução, de calculo, por mais desenhos esborratados, do
que a própria incompetência. Para desenhar convenientemente ao serão nada como
valsas de Strauss, fados e slows. Grieg, por exemplo, é bom para as contas; os
Village People, os Police e Mahler, maus (mas Mahler é bom para traduções).
Cage e os experimentalistas têm causado grandes tragédias na engenharia de
estruturas; os barrocos, não.
Depois, por volta das cinco, há
um avião a jacto que faz tremer tudo e lembra brutalmente que para lá do
circulo de luz do candeeiro existem ainda outros mundos. Por volta das seis, na
voz de Simone (uma que dantes cantava estridentemente por «gaoneras», «passes
de peito», e «Chicuelinas», mas que hoje, passados alguns anos, se tornou uma Senhora
sexy e comovente) Eugénio de Andrade diz-nos que
«Amanhece. Um galo risca o
silêncio»...
O serão acaba, em Lisboa. Dai
para diante, é já amanhã.

