quarta-feira, 31 de dezembro de 1980

Nocturno ensonado de Lisboa

Já tudo se escreveu sobre os aspectos insólitos, boémios, graciosos da Lisboa noctuma e dos seus tipos. Tem, evidentemente, o seu encanto (ainda que às vezes sobrevalorizado...)
 
 
Mas chegou uma boa ocasião para mostrar certos aspectos da Lisboa noctuma que não tem quem os cante, porque são chatos, obscuros, esquecidos. Pois bem, falemos dos esquecidos, dos sem graça nenhuma, daqueles em quem ninguém repara por serem demasiadamente numerosos. Por exemplo, dos que fazem serões.
Há uma poesia (pouca, mas há) na Lisboa dos serões.
Serões em Lisboa não são rodas de amigos e família em torno de um madeiro, contando histórias, acendendo o cigarro «de enrolar» numa brasa tirada do borralho, ouvindo o vento e a chuva lá fora.
Serões em Lisboa significam outra coisa. Significam fechos de contas e escritas a pôr em dia; traduções a entregar no dia seguinte; relatórios a dactilografar para entrarem no prazo do concurso público, da tese ou do processo; matéria a empinar para o exame de amanhã...
 
O que é o serão?
O Serão é a anormalidade aceite e institucionalizada; é o sinal de um certo ritmo de vida que procura o seu tempo e não o acha. É bem diferente o «tempo» do serão do tempo próprio dos trabalhadores em turnos ou em regime nocturno, ou o dos boémios ou pândegos crónicos.
Os que pela própria natureza da ocupação trabalham sempre de noite, instalam-se na noite — a noite torna-se-lhes familiar e com dimensão conhecida. Os pândegos, bêbados e noctívagos instalam-se na noite fantasiosa que mal diferenciam do dia. Ofegantes, os amorosos, suados, instalam-se na noite que lhes parece curta e desejariam infindável. Toda uma literatura vive desta gente.
Os que fazem serão, não se instalam na noite. Entram pela noite como quando a gente do terrunho tem de entrar pelo mar dentro — com secreto terror e angústia. A noite para eles é tempo emprestado pelo dia seguinte; o serão é uma hipoteca paga em sono, cansaço, olheiras e boca a saber a papel de música.
 
A «cesura» no tempo lisboeta do serão começa depois do jantar.
A primeira percepção da «diferença» dá-se no snack-bar onde a malta que pede a conta apressadamente porque se faz tarde para ir ao cinema, à assembleia ou à reunião sindical acentua a inevitabilidade do trabalho que nos espera lá em cima, no atelier ou no escritório. Às nove e meia perpassa nos restaurantes, snacks e cafés de Lisboa um vago sentido de solidariedade entre os que não se levantam à pressa — os que ficam ainda um bocado mais, e entreolhando-se melancolicamente e em silêncio, veem as telas finais, o «Deve» e o «Haver, o dicionário ou a máquina de escrever que os espera lá em cima. (Se algum, por acaso, fazendo durar um pouco mais estes momentos, está até a ler estas linhas, com a conta já paga mas à espera de tomar balanço para arrancar — Salvé! Amigo!).
Depois vem a hora da energia — a rádio ligada, o estirador arrumado, o propósito de acabar depressa. Dura até à meia-noite. A seguir vem o penoso e lento avanço até às 5 horas — os cigarros mal fumados que se acumulam nos cinzeiros, a irritação crescente com o palrar imbecil dos locutores que já não sabem como é que hão-de encher as horas, a barba já crescida, os olhos que do fumo e do esforço, picam.
E então a hora em que as 120 batidas por minuto do disco-sound desacertam mais com as pulsações do coração, mantém enervantemente acordados mas fazem errar as contas e tremer o traço do tira-linhas. O disco-sound e o Rock são responsáveis por mais erros de técnica, de contabilidade, de tradução, de calculo, por mais desenhos esborratados, do que a própria incompetência. Para desenhar convenientemente ao serão nada como valsas de Strauss, fados e slows. Grieg, por exemplo, é bom para as contas; os Village People, os Police e Mahler, maus (mas Mahler é bom para traduções). Cage e os experimentalistas têm causado grandes tragédias na engenharia de estruturas; os barrocos, não.
Depois, por volta das cinco, há um avião a jacto que faz tremer tudo e lembra brutalmente que para lá do circulo de luz do candeeiro existem ainda outros mundos. Por volta das seis, na voz de Simone (uma que dantes cantava estridentemente por «gaoneras», «passes de peito», e «Chicuelinas», mas que hoje, passados alguns anos, se tornou uma Senhora sexy e comovente) Eugénio de Andrade diz-nos que
«Amanhece. Um galo risca o silêncio»...
 
O serão acaba, em Lisboa. Dai para diante, é já amanhã.