terça-feira, 2 de junho de 1981

Normalização de turistas

Vi os primeiros lotes que chegaram a Lisboa, este ano.
Aqui há um problema que tem que ser muito bem visto, agora que se vai a caminho da adesão à CEE. Dependemos muito do turismo estrangeiro, dizem-nos, e é verdade. São-nos tão essenciais como o petróleo e os 50% de tudo o que comemos e que importamos, e se o Governo o diz, é verdade.
Ora a qualidade do turista que estamos a importar tem baixado substancialmente — vi mesmo ontem uma turista francesa manifestamente estragada, p. ex., — e a Junta do Comércio Externo devia vigiar este tipo de importação temporária.
 
 
O turista que nos interessa é o turista que pode ser reprocessado industrialmente, de modo a que seja possível suportar a concorrência das indústrias estrangeiras. O tempo do processamento artesanal ou «à peça» já lá vai — a CEE vai exigir o tratamento de um turista de dimensão estandardizada para caber sem folgas nas camas e nos autocarros de «sight-seeing», pele dura para resistir ao processamento mecânico, grande resistência à doença gástrica, bem calibrado com tolerâncias mínimas, bom aspecto mesmo depois de separado dos seus dólares, deutschmarks, libras, etc. As variedades «Fat dutch» e «Retired American» por exemplo, são muito apreciadas na indústria.
 
 
Tudo isso se consegue com esteróis anabólicos, hormonas e rações adequadas nos produtores de origem, e os climas frios são favoráveis a este tipo de produção. Há quem diga que são menos interessantes que os criados em pequenas explorações ou grupos familiares, e até que o seu uso permanente ou prolongado pode ser cancerígeno ou causar alterações de personalidade; é certo que em pessoal que está em permanente contacto com turistas de massa se têm registado algumas deficiências mentais. Mas é preciso ser realistas: é uma necessidade mundial, e o défice não pode ser colmatado sem ser por estes meios; veja-se como é difícil ao Sudão, ao Alto Volta, às Honduras, à Somália, etc. produzir turistas para as suas necessidades, quanto mais para exportar.
Ora, o facto de não estarmos ainda na CEE tem significado que só temos podido importar turistas de segunda escolha, que já vem rejeitados dos grandes centros processadores, e isso não pode continuar. O próprio Japão, que inundou o mercado com turistas pequenos, baratos e eficientes, está a enviar-nos material de segunda — por exemplo o índice NK/100 (teor de máquinas fotográficas Nikon por cada cem turistas) baixou de 95 para 87,6 no último «batch» testado, e esse é excelente indicador do seu conteúdo em yens/dólares recuperáveis após processamento por extracção hoteleira a frio.
Sabendo-se que os grandes centros processadores (Miami, Hawai, Acapulco, Las Vegas) já só admitem turistas normalizados e com código informático magnético IBM incorporado, é estrito dever dos nossos dirigentes negociadores da adesão à CEE exigir, digo bem, exigir! o estabelecimento de normas e quotas precisas para os contingentes de turistas provenientes da Comunidade, pelo menos durante o período de transição. Poderemos retaliar com o tomate, e os vinhos, não esquecer!...
E tanto o ministro Álvaro Barreto como o ministro Baião Horta devem mesmo usar o argumento irrecusável de países que ainda não aderiram à CEE, como a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia, nos mandarem turistas louras já perfeitamente estandardizadas para serem «processadas» e «reprocessadas» por uns morenaços de bigodinho nos nossos complexos industriais do Algarve.