Vi os primeiros lotes que
chegaram a Lisboa, este ano.
Aqui há um problema que tem que
ser muito bem visto, agora que se vai a caminho da adesão à CEE. Dependemos
muito do turismo estrangeiro, dizem-nos, e é verdade. São-nos tão essenciais
como o petróleo e os 50% de tudo o que comemos e que importamos, e se o Governo
o diz, é verdade.
Ora a qualidade do turista que
estamos a importar tem baixado substancialmente — vi mesmo ontem uma turista francesa
manifestamente estragada, p. ex., — e a Junta do Comércio Externo devia vigiar
este tipo de importação temporária.
O turista que nos interessa é o
turista que pode ser reprocessado industrialmente, de modo a que seja possível
suportar a concorrência das indústrias estrangeiras. O tempo do processamento
artesanal ou «à peça» já lá vai — a CEE vai exigir o tratamento de um turista
de dimensão estandardizada para caber sem folgas nas camas e nos autocarros de
«sight-seeing», pele dura para resistir ao processamento mecânico, grande
resistência à doença gástrica, bem calibrado com tolerâncias mínimas, bom aspecto
mesmo depois de separado dos seus dólares, deutschmarks, libras, etc. As
variedades «Fat dutch» e «Retired American» por exemplo, são muito apreciadas
na indústria.
Tudo isso se consegue com
esteróis anabólicos, hormonas e rações adequadas nos produtores de origem, e os
climas frios são favoráveis a este tipo de produção. Há quem diga que são menos
interessantes que os criados em pequenas explorações ou grupos familiares, e
até que o seu uso permanente ou prolongado pode ser cancerígeno ou causar
alterações de personalidade; é certo que em pessoal que está em permanente
contacto com turistas de massa se têm registado algumas deficiências mentais.
Mas é preciso ser realistas: é uma necessidade mundial, e o défice não pode ser
colmatado sem ser por estes meios; veja-se como é difícil ao Sudão, ao Alto
Volta, às Honduras, à Somália, etc. produzir turistas para as suas necessidades,
quanto mais para exportar.
Ora, o facto de não estarmos
ainda na CEE tem significado que só temos podido importar turistas de segunda
escolha, que já vem rejeitados dos grandes centros processadores, e isso não
pode continuar. O próprio Japão, que inundou o mercado com turistas pequenos,
baratos e eficientes, está a enviar-nos material de segunda — por exemplo o
índice NK/100 (teor de máquinas fotográficas Nikon por cada cem turistas)
baixou de 95 para 87,6 no último «batch» testado, e esse é excelente indicador
do seu conteúdo em yens/dólares recuperáveis após processamento por extracção
hoteleira a frio.
Sabendo-se que os grandes centros
processadores (Miami, Hawai, Acapulco, Las Vegas) já só admitem turistas
normalizados e com código informático magnético IBM incorporado, é estrito
dever dos nossos dirigentes negociadores da adesão à CEE exigir, digo bem,
exigir! o estabelecimento de normas e quotas precisas para os contingentes de
turistas provenientes da Comunidade, pelo menos durante o período de transição.
Poderemos retaliar com o tomate, e os vinhos, não esquecer!...
E tanto o ministro Álvaro Barreto
como o ministro Baião Horta devem mesmo usar o argumento irrecusável de países
que ainda não aderiram à CEE, como a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia, nos
mandarem turistas louras já perfeitamente estandardizadas para serem
«processadas» e «reprocessadas» por uns morenaços de bigodinho nos nossos
complexos industriais do Algarve.


